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sábado, 9 de maio de 2026

Comunitarismo vs liberalismo

"Contra a revolução liberal dos contratos e não do aperto de mão, das propriedades privadas e não dos maninhos coletivos, das florestas de pinheiros e não dos baldios pastorícios, das cercas e não da transumância, do imposto único e não dos impostos locais, do comboio, do comércio, do lucro, da utilidade, da eficácia, enfim, contra aquilo que apelidamos à pressa de modernidade, ficou logo clara no século XIX a aliança entre o comunitarista miguelista, de um lado, e o sindicalista anarquista, do outro. Eram irmãos que odiavam a mãe, a modernidade do Estado centralizador e da economia capitalista, que pensa global e não local. Imaginem esta cena típica da revolução liberal da primeira metade do século XIX: com a conivência do Estado lisboeta, um proprietário liberal expropria um convento que produz há séculos hortaliças para a população local, numa lógica de economia circular, e transforma o terreno numa herdade exportadora de laranjas para Inglaterra; isto é uma aberração para o miguelista e depois para o anarquista; a natureza não é para explorar desta forma industrial, a terra não é um objeto ou mercadoria para ser usada pelo homem.

Como se vê, ambos eram ambientalistas, como se diz agora.

Fala-se muito de miguelismo dentro da caricatura do trono e do altar, mas o povo miguelista queria saber de outras coisas: o poder da sua terra devia estar na sua terra e não em Lisboa. É por isso que prefiro outro “ismo” para descrever esta mentalidade: é o “campanalismo”, como se diz ainda em Itália; ou seja, só as pessoas que ouviam o sino da Vila de Cima tinham o direito de opinar sobre os destinos da terra; os de Vila de Baixo já não podiam, muito menos os de Lisboa. O povo miguelista queria um modo de vida comunitário, com fornos, poços e terras comunitárias de uso comum, e não uma “propriedade privada” do devorista; queriam também um calendário marcado pelos dias santos, que eram dezenas ou centenas, o que irritava, obviamente, os liberais, obcecados com a produção e com a rotina certa todas as semanas. Não por acaso, o povo miguelista invadia cartórios e edifícios públicos para queimar os “papéis” sempre que podia; os “papéis” eram os contratos liberais que vieram rasgar séculos de comunidade através da frieza da propriedade privada que se apossou dos baldios e, como já vimos, de outro espaço comunitário: o convento, o mosteiro, as ordens religiosas, que formavam uma economia à margem do Excel do lucro. As freiras bem que perguntavam aos modernos liberais: “Mas quem é que agora vai cuidar dos lerdos e inválidos que dependem dos conventos?” Logo se vê, irmã, que o progresso não pode parar!

Os nossos miguelistas eram iguais aos adversários da revolução em França que foram massacrados na Vendeia, por exemplo. Nós também tivemos as nossas Vendeias, muito pouco exploradas pela historiografia e literatura, com a exceção clássica de Camilo Castelo Branco, que, não por acaso, foi expulso dos currículos das escolas há uns anos.

Uma geração depois, ali por 1870, o espírito comunitário, anticapitalista e anti-individualista dos comunitaristas da direita já estava presente no espírito da Comuna e das comunas que criaram o molde mental das esquerdas durante mais de um século. De resto, é curioso ver como as experiências anarquistas a sul do Tejo, no século XIX e início do século XX, tinham como utopia o modo de vida comunitário de uma aldeia miguelista, de um convento ou de uma missão jesuíta: não havia poder, propriedade ou até família no sentido clássico. É por isso que George Steiner, em “Nostalgia do Absoluto”, via o comunismo como uma nostalgia da vida comunitária e aldeã que tinha sido destruída pela modernidade liberal." (...)

Continuar a ler o artigo de Henrique Raposo no Expresso aqui

quarta-feira, 18 de março de 2026

Uma grande abertura, convenhamos...

Na semana passada, a esquerda queixou-se pela primeira vez de ver alguém sair, e não de entrar, no Aljube: parece-nos um progresso social relativamente unânime, que só o pessimismo dos tempos impede de celebrar; quase ao mesmo tempo, o mais magrittiano dos teatros lisboetas – que se chama do Bairro Alto, mas é no Rato – também mudou de director e as pateadas ecoaram pela internet fora.


Tudo isto é triste, sobretudo para quem perde o emprego ou vê interrompida uma ambição legítima para um espaço, mas é sobretudo deprimente. A depressão não vem de assistir a adultos, de joelhos a bater no queixo, sentados no cavalinho, a brigarem pela vez no carrossel das nomeações; vem, sobretudo, porque é só isto – já acabou. (...)


Continuar a ler a crónica de Carlos Maria Bobone  "A última comunista no Aljube" aqui

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Tempestade cerebral...

"Mas há um sentido mais existencial, e por isso mesmo mais grave, na queda de um príncipe. Não é apenas, nem sequer é sobretudo, a ideia de monarquia que é atacada com isto. É a própria ideia de elite. E a elite, a preservação das elites, importa ser defendida em modos mais convictos do que na sua versão aguada, que consiste simplesmente em acreditar na justiça social que leva os melhores (seja lá o que isso for) a serem recompensados. A ideia de que as elites devem ser preservadas, de que um país perde quando não procura manter os privilégios – essa palavra tão infame no vocabulário moderno – das suas elites perdeu todas as defesas que um dia pareceram óbvias e vale a pena recuperar algumas."


Carlos Maria Bobone no Observador.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A ideia de propósito

(…) "Há um último aspecto que é talvez o mais significativo para a compreensão do pensamento político de S. Tomás, mas também o mais indirecto. Há, na maneira contemporânea de olhar para o problema político, uma tentativa de o afastar de alguma ideia de propósito. Na tentativa de encontrar um ponto de consenso a partir do qual se possa discutir a política, a democracia liberal prescindiu de tentar saber quais são os seus fins.


Ora, uma das preocupações fundamentais de São Tomás, preocupação essa que atravessa todo o seu pensamento e está presente quer em opúsculos de juventude, como O Ser e a Essência, quer nas questões basilares dos seus tratados teológicos, tem que ver com a impossibilidade de fugir a este problema. Não é possível, segundo S. Tomás, procurar explicar alguma coisa sem perceber o seu propósito. Não é possível termos uma «Essência do Político», para evocar um título bem contemporâneo, desligada, não daquilo que a política é, mas daquilo que pretende ser. Está na própria definição das coisas: nenhuma definição de uma coisa a partir dos seus atributos é completa, nenhum barco é apenas madeira, nem nenhuma casa apenas tijolos. A função é uma causa substantiva, e como nunca podemos ter uma função completa de nenhuma causa humana — tudo existe, em última análise, em remissão para alguma coisa — qualquer discurso sobre o mundo é um discurso sobre Deus. A melhor maneira de perceber o homem não passa pelo entendimento daquilo que o afasta dele próprio e daquilo que, fazendo parte dele, não é ele. O verdadeiro discurso sobre o Homem é o discurso sobre Deus." (...)


"São Tomás de Aquino - O que lhe deve a política", por Carlos Maria Bobone in Crítica XXI, n. 13 Outono 2025

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Os segredos de Maria Filomena Mónica

MFM.png


Numa entrevista a Maria Filomena Mónica publicada no Expresso da semana passada a propósito de mais um seu livro autobiográfico desta vez intitulado “Duas Mulheres” que promete desenterrar segredos da sua mãe e avó, chama-me a atenção a resposta à pergunta se “a família é um lugar estranho?”.


Dá para imaginar o terror de boa parte da família Mónica com o que aí vem. Não porque a instituição familiar seja de facto um “lugar estranho”, repleto de segredos perversos, mas porque a análise às insignificâncias que sucedem na vida familiar, o mais das vezes dependem da imaginação e preconceitos de quem os observa – ou seja, duma interpretação subjectiva. Ora, MFM não é uma mera “vizinha” a revelar inconfidências domésticas na mercearia do bairro, precede-lhe uma autoridade que concede muito peso às suas interpretações. Aliás, a entrevistada começa por responder à questão que, “do ponto de vista sociológico não tenho uma amostra significativa”.  Sendo a sociologia provavelmente a “ciência” mais inútil de todas as pseudociências, a resposta é no mínimo honesta. E depois, se for um facto que “a família é um lugar estranho”, que solução melhor temos nós para não deixar o individuo inteiramente à mercê do Estado?


Tenho muito respeito pelo trabalho historiográfico de MFM, nomeadamente por duas obras suas de âmbito biográfico que tive o gosto de ler, uma sobre Dom Pedro V e outra sobre Eça de Queiroz. São trabalhos sérios, numa escrita desempoeirada como é seu estilo, emocionalmente envolvida com os seus “personagens”. Depois, não concordando com boa parte das suas análises, também toda a vida segui com interesse as suas crónicas nos jornais, principalmente as do Expresso. Claramente MFM é uma personalidade do nosso tempo que deixa um legado invejável.


Mas nunca tive curiosidade de ler “Bilhete de Identidade” e não me atrai minimamente a leitura deste seu novo livro. MFM sempre me pareceu dona de um ego incomensurável e de um narcisismo ribombante, dando-se a si própria e à sua subjectividade demasiada importância. Este seu traço causa-me até alguma vergonha alheia, confesso. E a opinião pessoal com que dá resposta à pergunta do entrevistador se “a família é um lugar estranho” é paradigmática de uma perturbação psicológica contra o catolicismo e a família tradicional que talvez lhe merecessem uma abordagem psicanalítica, com a ajuda de um profissional: “posso afirmar que a família é um lugar estranho, e que os países mais católicos tendem a fechar-se sobre si e a guardar os segredos a sete chaves, dando a aparência de grande harmonia interna que é uma fachada hipócrita”.  De facto, falta a MFM uma amostra significativa para chegar à verdade, e dá ideia de que o seu olhar está condicionado por algum grave trauma.


Num tempo em que se fala tanto da importância da privacidade dos indivíduos, não nos precipitemos em julgamentos categóricos. Que MFM encontre conforto entre os seus familiares e amigos neste difícil ocaso da sua vida que ninguém merece, são os votos deste cristão católico e indefectível partidário da instituição familiar que se assina,


(imagem, daqui)

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A ler...

... esta preciosa contribuição de João Vacas para repensarmos o valor da instituição real nestes tempos de globalização e de ameaça de dissolução das velhas nacionalidades e suas arquitecturas políticas, aqui

quinta-feira, 8 de março de 2018

Uma boa reflexão sobre o CDS

(...) Faz falta pensar, sobretudo pensar. Os tecnocratas que nos apoquentam, os que nos bombardeiam diariamente com chavões como challenge e leadership e branding, não entenderam, ou não quiseram entender, o poder da marca na política: e essa marca é a ideologia, firme, segura de si.


Ao ambicionar diminuir-se ideologicamente, para com isso assaltar o eleitorado ao centro, o CDS consolida a desconfiança já tremida daquela que é a sua base: a direita. E porque um mal nunca vem só, enxota de vez os desapontados, aqueles que nos mais de 40% de abstenção não se reconhecem neste sistema putrefacto do arco da governação. (...)


 


A Ler o Ricardo Lima n'O Insurgente

sexta-feira, 2 de março de 2018

Tudo sob controlo

(...) Isto tem porém pernas para andar. Preenche o velho sonho igualitarista de andarmos à mesma velocidade, já que não podemos todos ter automóveis com o mesmo grau de luxo ou performance, nem a mesma apetência e competência para andar depressa; torna as viagens de médio curso (Porto/Lisboa, por exemplo) de tal modo maçadoras que não é impossível que acicate o interesse pelo transporte colectivo, uma velha reivindicação da esquerda, que sempre torceu o nariz à liberdade e autonomia que o transporte individual proporciona; e não é impossível que numa primeira fase (antes de se constatar que cessará a evolução em travões, suspensões e outros sistemas de segurança activa, que sempre progrediram para satisfazer os transgressores, e não os cumpridores) se verifique uma diminuição das consequências dos acidentes viários, por terem lugar a velocidades inferiores. Tão inferiores que o que se recomenda, e vai impor, para as cidades, é a velocidade de um cavalo a galope, sem que ninguém tenha feito um estudo sério sobre as consequências, para a densidade do tráfego, da diminuição da velocidade média.


 


A ler o José Meireles da Graça no Grémlin Literário, na integra aqui


 

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Preservação

Os ex-votos do Senhor Jesus da Piedade de Elvas estão em sério risco – risco iminente – de se esfumarem pelo passar do tempo. Alguns benfeitores, sem quaisquer intuitos de lucro ou de fama, querem restaurá-los e mostrá-los com a dignidade que merecem. 
Veja como pode ser simples a sua ajuda.

terça-feira, 14 de março de 2017

No pasa nada

Parece que o voto assumido de Rentes de Carvalho, o nosso holandês em Amesterdão, amanhã em Wilders está a gerar uma onda de indignação nas nossas puritanas redes sociais. Talvez fosse pedir demais que as essas virgens ofendidas do politicamente correcto se informassem sobre a enorme embaraço gerado pelo multiculturalismo e pela vaga de refugiados que por estes dias invade essa Europa a dentro. Bem sei que em certas matérias a Europa parece-nos um bocadinho longe…

domingo, 8 de janeiro de 2017

Liberalidades

"Deixe-me explicar-lhe: Porque razão são tão elevados os impostos sobre o tabaco? Para desencorajar os fumadores. Porque razão multa o governo os condutores que excedem a velocidade ? Porque não queremos isso. Mas então, porque motivo tributamos as pessoas que trabalham? Se se tributa o trabalho e se dão subsídios àqueles que não trabalham, castigam-se os que trabalham e beneficiam-se os ociosos."


"Eliminem-se todos os impostos, menos dois: sobre o álcool e o tabaco, e estabeleça-se uma taxa única para todos os rendimentos provenientes do trabalho ou do capital. Haja um mínimo de regulamentos, mantenha-se a moeda estável, e fique por aí a intervenção do governo."


"A EU é uma operação estatal, na qual o povo não tem direito a voto…Juncker comporta-se como um dono, não como um servidor da coisa pública… Os Junckers deste mundo são inimigos do povo e da prosperidade."


 


Frases do economista americano Arthur Laffer roubadas a J Rentes de Carvalho aqui

sábado, 13 de fevereiro de 2016

No caminho da maturidade.

Ao contrário de uma peste ou maldição, sob a perspectiva da política tida no seu sentido mais elevado, digamos nobre, tenho para mim que uma dose de liberalismo deveria ser transversalmente no espectro partidário português uma causa patriótica, um contributo para o lento processo de viabilização do nosso pequeno rectângulo.


Acontece que a possibilidade do sucesso desse liberalismo, em dose maior ou menor no modelo de gestão da rés-pública, está directamente ligada à autonomia e maturidade das suas gentes, famílias e toda a sorte de instituições por si prestigiadas. Assim se explica o fado Portugal atrasado e socialista. Ou a importância do Pote.  

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Direitos e deveres

"A protecção das mulheres não pode depender da nossa opinião sobre decisões humanitárias. A este respeito não há comportamentos inadmissíveis para homens europeus e desculpáveis para imigrantes muçulmanos."


 


Luís M. Jorge na "Vida Breve" (Já ali não ia há algum tempo, pena minha. - Ah! e David Bowie chega para todos, eu fico com Sound and Vision.)

Rewilding, renaturalização para os amigos

Há muitos anos, tantos que já nem sei (talvez entre 15 e 20), conheci Wouter Helmer, o teórico fundador da Rewilding Europe. A ideia base é ...