quarta-feira, 10 de junho de 2026

A estupidez como argumento

 Apesar do banco de horas não ter qualquer relação com horas extraordinárias (não há qualquer alteração do tempo trabalhado, o que se permite é uma distribuição diferente, no caso do trabalhador concordar em ter um banco de horas individual), um dos argumentos mais repetidos é o de que a proposta o que pretende é pagar horas extraordinárias a uma valor mais baixo para a empresa.

Objectivamente este argumento é simplesmente idiota, porque com o banco de horas não se altera nada sobre horas extraordinárias, diz apenas respeito ao trabalho normal.

Sendo assim, por que razão tanta gente insiste nessa tolice?

Só vejo uma razão racional que consiste em pressupor que se o trabalhador estiver empregado numa loja de gelados, que vende mais no Verão que no Inverno, isso significa que as horas de trabalho a mais no Verão são horas extraordinárias, portanto, se o trabalhador tiver estado no seu emprego, sem nada para fazer no Inverno, acaba a ganhar mais dinheiro no Verão com horas extraordinárias.

Dito de outra maneira, há gente que entende que a melhor maneira de um trabalhador ganhar mais dinheiro não é produzir mais por hora, é pôr a empresa a ter custos elevados e baixa produtividade.

No exemplo dado, o patrão esteve a pagar horas que o empregado não produziu grande coisa, e depois esteve a pagar horas a um preço excessivo por serem horas a mais, ou seja, por hora trabalhada, o trabalhador ganhou em média um bocadinho mais (as horas normais, que são largamente dominantes, e a pequena percentagem de horas extraordinárias que sobem ligeiramente o valor médio por hora que recebeu.

O patrão vai ter com o empregado e explica-lhe que o melhor é ter menos gente no Inverno, ficando o trabalhador com esse tempo para ele, e trabalhar mais quando há negócio, o que permite que a empresa tenha um peso do trabalho na facturação menor, sugerindo pagar mais por cada hora de trabalho (poupando nas horas em que o trabalhador estava a olhar para ontem).

Resumindo, o patrão demonstra que se a produtividade por hora aumentar, pode pagar melhor, o que significa que o trabalhador, com as mesmas horas, ganha um pouco mais, não tendo de dar tanto tempo à empresa.

Claro que para quem acha que os patrões pagam o mínimo possível, exploram sempre os seus empregados e são incapazes de perceber o que podem ganhar aumentando a produtividade e tendo trabalhadores mais motivados, tudo isto é uma impossibilidade.

É o que se chama usar a estupidez como argumento, esquecendo que a probabilidade de maus patrões irem à falência é tanto maior quanto maior for a concorrência com outros patrões que organizam melhor as suas empresas e as tornam mais produtivas.

O provincianismo que nos tolhe


Garantem-me que Portugal é um país com quase nove séculos de História, mas quem olhar para a forma como comunicamos os nossos símbolos diria que nascemos todos ontem (a nossa bandeira, senhores, o que lhe fizeram!).  Sofremos, colectivamente, de um estranho "complexo de Adão": uma vertigem parola que nos impele a apagar o passado, a refundar o que já funcionava e a rebaptizar instituições antigas com a leveza de quem muda de camisa. Tudo isto, claro, em nome de uma suposta "modernidade" e da tirania da "identidade de marca", que — pelo que adivinho — dá dinheiro a ganhar a muita gente. Veja-se quando um novo governo decide reinventar a sua identidade de marca, que devia ser, simplesmente, o escudo da nossa bandeira.

Lembrei-me disto a propósito duma anunciada nova — ou será outra vez a mesma? — mudança de identidade de marca do Sporting Clube de Portugal, que é o meu clube. Há um provincianismo gritante nesta pressa "portuguesinha" de querer redesenhar o que é “sagrado”. Já no início do século, ao tempo da presidência de José Roquette, a ânsia de cosmética visual não correu muito bem. Resta esperar que, desta vez, impere o bom senso e se dite o regresso à imagem clássica, afinal aquela que consta, e bem, no coração do emblema: o leão rampante.

Curioso é constatar como esta nossa pressa em rasgar a herança gráfica contrasta violentamente com a sobriedade de outras paragens. Na leitura de As Vantagens do Pessimismo, do filósofo britânico Roger Scruton, saltou-me à vista a longevidade da High Wycombe Royal Grammar School, a escola secundária pública e gratuita frequentada pelo autor, fundada em 1542. Quase quinhentos anos no mesmo sítio, com o mesmo propósito. Se fizermos uma pesquisa rápida pelas ilhas britânicas, percebemos que o Banco Barclays e a sua mítica águia operam desde 1690. O prestigiado semanário londrino The Spectator dita tendências desde 1711. Lá, os símbolos contam uma história de resiliência; cá, contam uma história de amnésia.

A resiliência das marcas e dos seus símbolos reflecte muito sobre a comunidade de onde emanam. É irónico que a bandeira de uma nação tão antiga como a nossa tenha pouco mais de cem anos. É igualmente caricato que a nossa rádio pública, nascida em 1935 como Emissora Nacional, já tenha mudado de nome, de logotipo e de "foco estratégico" vezes sem conta até desaguar na actual "Antena 1". Em Portugal muda-se o boneco para fingir que se muda a substância. Os portugueses não resistem a três tentações na ânsia de deixarem marca numa instituição por onde passem: inaugurar uma obra de construção civil, mudar os estatutos da associação e... fazer um rebranding — se possível criado pela sobrinha que é designer e tem muito jeito.

Os gestores contemporâneos parecem esquecer que uma marca antiga possui, só por si, uma incalculável vantagem competitiva no mercado saturado da comunicação. Citando de novo Roger Scruton, “as instituições que inspiram lealdade raramente são aquelas que criamos do zero, mas sim aquelas que herdamos”. O património simbólico não é um fardo velho; é um escudo. É História viva. E a História respeita-se, não se reinventa ou adultera com maquilhagem.

terça-feira, 9 de junho de 2026

A visita papal a Espanha

Tenho andado pela Catalunha nos dois últimos anos. Visitei Montserrat, ao que soube agora - outros saberiam, entretanto, mas a Imprensa disso não fez eco - um coito de pederastas a que, circunstância terrível, - soa agora na tal Imprensa - o Papa Leão XIV deu como coisa menor, inoportuna e sem dignidade para uma explicação (por estas e por outras coincidências de tempo e lugar é que não retiro o avental da malfadada Imprensa); e andei um tanto por Barcelona onde a basílica da Sagrada Família é uma incontornável visita.
Tem uma história única no mundo ocidental: está em construção desde 1883 até ao presente em que dizem as gruas serão retiradas finalmente e a obra dada como conclusa.
Esse século e meio de história e arquitectura e engenharia, confesso, é o que nela vejo de mais significativo. São, contas por alto, quatro alongadas gerações tentando simbolizar a eternidade da Divina Criação, e a persistência, ou resistência, do Homem. Mas isto é a visão de um católico, que sou e serei, e o CF não é uma aula de catequese; por isso, o apontamento vale apenas como lembrança do acaso ou do propósito da visita papal neste derradeiro momento do monumento finalizado.
Antes não descuraria (como católico) reflectir sobre o que é a Espanha actual. Talvez comparando-a com a dos tempos de Suarez ou de Gonzalez. Tempos de belicismo basco e de conseguidos equilíbrios nas restantes regiões, sempre prontas a alevantarem-se contra Madrid. Mas havia políticos, a Casa Real era uma referência incontestada e o mundo woke nem sequer se sonhava. A Espanha em nada diferia dos mais países da Europa meridional.
Hoje não é assim. A Espanha desgasta-se em modernismos, desmoraliza-se, deixa impunemente a sua História recente ser desvirtuada pelas mais conseguidas fórmulas maniqueístas; levou aos limites o laicismo e é possessão de discursos incendiários e fragmentadores de natureza diversa. O que Puigdemont disse do Papa não o disseram os mais inflamados islamitas. 
Talvez por isso tudo, a visita de Leão XIV. Uma coisa é certa: bastou a presença de Felipe VI para lhe conferir, discreta e simplesmente, o estatuto (ao menos) de uma visita de Estado.
Por supuesto. Na remota hipótese de o Reino ter o seu fim, a Espanha envergonhar-se-á da sua sul-americanização. E a Europa acarretará nova carga de problemas às costas, povoada de Sanchez's e similares.

 

Marxistas que detestam Marx

Qualquer marxista clássico sabe que a primeira responsabilidade de um adulto capaz é prover-se a si próprio, daí conhecer o princípio básico de a cada um segundo as suas necessidades, de cada um de acordo com as suas capacidades.

A esquerda actual, que trocou Marx por uma vulgata de defesa cega do Estado, pelo contrário, acha que admitir o princípio de que um adulto capaz que recebe prestações sociais deve dar um retorno de 15 horas semanais à sociedade é um ataque aos mais pobres.

Marx bem dizia que a libertação dos trabalhadores seria obra dos próprios trabalhadores, esta esquerda estatista, pelo contrário, acha que uma opção que depende da vontade dos trabalhadores é um ataque que o Estado deve impedir, como no caso do banco de horas.

Não admira, por isso, que onde Marx entendia que o Estado era um instrumento de repressão nas mãos das classes dominantes, que desapareceria numa sociedade comunista, esta esquerda actual ache que o Estado é o garante do bem comum que deve ser defendido, mesmo contra os trabalhadores.

A esquerda está a desaparecer em muito lado, e por boas razões.

domingo, 7 de junho de 2026

Gente desonesta

Sabendo de como é coisa complexa e eu sei pouco do assunto, não perdi muito tempo a ver os pormenores das alterações ao código do trabalho.

Fui lendo e ouvindo a diferentes partes em discussão, e uma das minhas maiores perplexidades era a oposição radical a propósito do banco de horas.

De um lado, os opositores da medida (incluindo um antigo secretário geral da UGT) a garantir preto no branco que era mais trabalho por menos pagamento, do outro a ministra a repetir, vezes sem conta, que o banco de horas não mexia no tempo de trabalho do trabalhador.

É daquelas coisas em que um jornalismo que não estivesse viciado em ser pé de microfone, a ouvir este e aquele sem verificar os factos, já teria explicado aos seus leitores o que verdadeiramente diz a proposta.

Não só não se empenham em esclarecer, como se empenham em dar espaço à mais completa falta de seriedade.

João Leal Amado, Teresa Coelho Moreira, Milena Silva Rouxinol, Joana Nunes Vicente e Catarina Gomes Santos, docentes universitários (não acharam relevante dizer aos seus leitores que matérias ensinam, mas eu informo que são todos professores de direito) resolveram escrever um artigo colectivo sob o título "O nebuloso banco de horas".

Li-o de fio a pavio porque era evidente, desde o primeiro parágrafo, a sua oposição às propostas do Governo, portanto achei que seria um bom sítio para perceber bem qual é o problema da proposta do governo sobre o banco de horas.

Fiquei tão baralhado como estava antes e fui ler a proposta concreta para perceber até onde ia a falta de seriedade.

A tese central não está errada, a relação de trabalho não é uma relação entre iguais e é assimétrica a favor do patrão (com a excepção, raramente referida, de situações em que a facilidade em arranjar emprego é tão grande, que o trabalhador pode mandar o patrão às urtigas quando não está satisfeito).

Dizem eles que essa relação é assimétrica e a proposta do governo pretende ocultar essa diferença, reforçando-a porque o patrão comunica a sua necessidade de mais horas, e o trabalhador tem de solicitar a diminuição das horas.

Qualquer pessoa que alguma vez tenha gerido alguma coisa, o que não sei se é o caso de algum destes importantes docentes universitários, percebe que realmente há aqui uma assimetria, mas é perfeitamente justificada: a empresa é que organiza o trabalho, contando com os recursos humanos que tem, e a possibilidade dos empregados dizerem que naquele dia ou naquela hora não estão disponíveis (fora dos motivos de força maior previstos na legislação) tem um efeito de desestruturação da produção que pode afectar toda a empresa.

Quem oculta (com a maestria típica dos especialistas em direito que conseguem dizer, sem dizer, o que querem) que sé estão nesse regime de banco de horas os trabalhadores que o queiram são os importantes docentes universitários.

Também se esquecem que dizer muitas outras coisas que decidi transcrever aqui a proposta do governo, que finalmente fui ver.

"Artigo 208.º-C

Banco de horas por acordo

1 - Na falta de convenção coletiva de trabalho, o regime de banco de horas pode ser instituído por acordo expresso entre o empregador e o trabalhador.

2 - No regime de banco de horas por acordo o período normal de trabalho pode ser aumentado até duas horas diárias e atingir 50 horas semanais, tendo o acréscimo por limite 150 horas por ano e um período de referência que não pode exceder seis meses.

3 - O empregador deve comunicar ao trabalhador a necessidade de prestação de trabalho com a antecedência mínima de 3 dias ou nos casos do n.º 2 do artigo 227.º, logo que possível, sendo correspondentemente aplicável o n.º 3 do mesmo artigo.

4 - O trabalhador pode solicitar ao empregador a redução do período normal de trabalho diário até 2 horas com a antecedência mínima de 3 dias.

5 - No final do período de referência, considera-se saldada a diferença entre o acréscimo e a redução do tempo de trabalho, sem prejuízo do disposto do número seguinte.

6 - Caso exista saldo a favor do trabalhador, cabe ao empregador, de acordo com a opção do trabalhador, em alternativa:

a) Atribuir ao trabalhador um período de descanso compensatório correspondente ao total de horas de saldo, a gozar no máximo até ao final do mês seguinte; ou,

b) Pagar o valor dessas horas com o acréscimo correspondente ao valor da primeira hora de trabalho suplementar em dia útil, a liquidar com a retribuição do mês em curso.

7 - O regime jurídico previsto nos números anteriores mantém-se até ao termo do período de referência em execução à data da entrada em vigor de instrumento de regulamentação coletiva de trabalho que incida sobre a matéria.

8 - Constitui contraordenação grave a violação do disposto nos números anteriores.»

Resumindo, senhores jornalistas, não é o governo que comunica mal as suas propostas, a ministra está fartinha de dizer isto, mas a CGTP, a UGT, dezenas de especialistas como estes citados, insistem em mentir descaradamente sobre a proposta em causa, fazendo-o porque sabem perfeitamente que um jornalismo como o que existe jamais terá coragem para dizer na cara ao secretário geral da CGTP ou da UGT que estão a mentir quando dizem que a proposta sobre o banco de horas é mais trabalho por menos dinheiro.

Domingo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 

Naquele tempo, Jesus ia a passar, quando viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança dos impostos, e disse-lhe: «Segue-Me». Ele levantou-se e seguiu Jesus. Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos. Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos: «Por que motivo é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?». Jesus ouviu-os e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: ‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores». 

Palavra da salvação.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Os antifas

 A imagem mostrava uma rapariga alta, magra, de maus-fígados e calças largas, floridas, impróprias para a função a que os seus méritos a tinham convocado. Mas qual função? - E a resposta é só uma: antifar.

Neste mundo, onde o caricato pode até tornar-se perigoso, surgiu entretanto esta nova tribo urbana, os antifas. Deslocam-se em grupos de escassos membros dissimulados entre a população com emprego certo e mais do que duas ideias na cabeça, conquanto nem sempre razoáveis. De todo o modo, gente que faz algo para si e para os seus filhos; e, como disse, à boleia dos quais os antifas viajam no mais conseguido estilo de parasitagem.

O antifa é, antes de tudo e somente, - anti. As suas limitações espirituais não lhe consentem algum dia ser - pró. Isso seria uma cedência ao Poder, talvez o único termo do seu léxico, a descontarmos a abundância do vernáculo que a sua condição de perpetuidade anti transformou em língua pátria dos antifas. A sua bandeira: no contexto da desorganização mental imperante, poderá, ainda assim, ser representada pela máscara branca com bigodinho e um sorriso de intriga palaciana e... pelo piercing

O resto são pedras, garrafas, apupos, não raro cocktails molotov, sobre tudo quanto mexe,  particularmente as forças da ordem. Os antifas (e os seus deuses) pugnam pela provocação sistemática, as hostes femininas adiante das masculinas (isto na terminologia antiga; na actual diriamos que os + na dianteira dos -...), o chão por assento teimoso, a desobediência como emulação, a porrada que fatalmente têm de levar como o bilhete para o seu Valhalla. Em cada antifa há uma esperança serôdia de que o ser humano ao lado o compreenda, enalteça e com ele se solidarize. O que geralmente não sucede.

Assim vai o mundo. Com uma recente manif da CGTP em Lisboa - e nós sabemos como a CGTP actua, basicamente de megafone em punho; mas só - a deixar empulgar-se de antifas (as imagens colhidas são absolutamente elucidativas, o microscópio revela-os bem) e o resultado o costumeiro - caixotes de lixo espalhados a arder na rua, a polícia a malhar e a deter uns tantos viragos, o histerismo sem o qual não... e venha a próxima, que o antifa fome não passa e o escarcéu é a sua sala de estar.

Cascais, Chaimites, a revolução, e os Genesis


Esta reportagem do saudoso Jorge Lima Barreto de Maio de 1975 publicada na Revista Música & Som aquando da actuação dos Genesis no seu auge com a apresentação integral do álbum The Lamb Lies Down on Broadway em cascais em pleno PREC é uma delícia: “A luta à droga faz-se na prática revolucionária e não na perseguição paranóica da polícia.”

Ora leiam esta peça de museu: 

GENESIS EM CASCAIS

A recente vinda do grupo «Genesis» a Portugal foi, indubitavelmente, o melhor e maior acontecimento de música pop no nosso país.

Anteriormente apenas tinham vindo escórias de música ligeira aparentada com a pop e apresentadas como sendo produtos válidos internacionalmente. Desta vez, porém, a Organização trouxe da autêntica pop.

Como tal o espectáculo foi inédito. Porque revelou um novo sistema de actuação, porque instruiu sobre o mercado da pop e porque se desenrolou musicalmente impecável.

No primeiro aspecto: novo sistema de actuação: o grupo Genesis procurou, dentro de conceitos gerais de pop-art, sistematizar o espectáculo musical com novas estruturas: o ritual de Peter Gabriel (os seus gestos paradigmáticos, os seus fatos fantásticos, a sua mise-en-scène dionisíaca: movimentos dum solista de bailado exótico, referenciado a mundos fabulosos da droga: mitologias ingénuas, inovações Kitsch, mas sempre autenticamente pop.

O cenário era feérico: luzes estroboscópicas em permanente alteração cromática, projecção de slides (isto sim: a selecção era do melhor gosto, as fotos de nível inatacável, a oportunidade da sua projecção sobre três panos digna dum verdadeiro artista).

Os movimentos lumino-dinâmicos sempre num complemento rigoroso do desenvolvimento musical.

Explosões de granadas de luz, mudança fenomenal de cenários, contaminação psicadélica, mas:

Segundo aspecto: o mercado pop:

O grupo actuou para vender o seu novo LP, os Genesis mostraram aderir alienadamente à especulação bárbara dos produtores discográficos, à loucura capitalista da reprodução mercantil — e isto sem contestação: nada no seu show indicava a mínima revolta contra este estado de coisas. Os Genesis cumpriram tudo o que uma sociedade burguesa esperava deles: divertir, alienar, dar-nos prazer idealista, para isso:

Terceiro aspecto: a sua actuação musical foi, como disse, esmerada: técnicos hábeis, de melodias cativantes, histórias genuínas no panorama da pop-art, sem qualquer erro a imputar-lhes: o que a repetição exaustiva comprovou tratar-se de produto duma estrutura tecnocrática: mercado para consumir. Se bem que perguntemos: a música não serve afinal, e apenas, o prazer? Não nos deram os Genesis um imenso prazer? Um aspecto suplementar deste concerto. Mostrou como 20 mil jovens da classe média e/ou trabalhadora preferem música a mixórdias sonoras que as opressões políticas pretendem inculcar. Vimos como era insustentável a qualquer vedeta da «pop» baladeira nacional apresentar-se àquele público.

É que na Arte a qualidade é primordial. Outro erro calamitoso de certo controle opressivo que os partidos pretendem fazer é o da imprensa:

Os diários lisboetas diziam: «Onda de violência em Cascais, Um soldado morto, Destruição no recinto» — tudo mentira, falsidade, blasfémia. Que os politiqueiros não gostem de música é uma coisa, mas deturpar as notícias é típico do fascismo.

O soldado morreu de acidente de viação próximo de Cascais. Não houve uma única cena de violência no pavilhão: as cadeiras partiram-se porque 10 mil pessoas por noite não cabiam no recinto: eram elas ou as cadeiras (a propósito: porque não se acaba de vez com as cadeiras, os lugares marcados, a discriminação de bilhetes?) — o público senta-se no chão à medida que entra.

Outra novidade era: a droga. Talvez existisse, mas se existia qual é o moralista da judiciária que pode combater tal facto? A droga existe porque as condições sociais assim o permitem e facultam — não é a repressão judiciária (à maneira fascista) que inverte esta situação — bem pelo contrário.

A luta à droga faz-se na prática revolucionária e não na perseguição paranóica da polícia.

De resto havia os tanques e os carros de assalto à volta do recinto que «garantiam» a melhor «ordem».

O aparato militar conciliou-se perfeitamente com o pacifismo dos espectadores. Uma lição: a boa música pop é inofensiva e não provoca distúrbios. Os militares presentes em Cascais podem testemunhá-lo.

É absolutamente útil e desopilante a continuação deste tipo de espectáculos. A Arte e a Liberdade são os melhores amigos...

J. L. Barreto

O Observador e Israel

 Ao contrário de uma convicção generalizada na esquerda, e mais limitada na direita, o Observador não é um jornal de direita, é um jornal cujos accionistas gostariam que fosse liberal, o que se reflecte no conjunto de colunistas que escrevem regularmente, mas que tem uma redacção que é a que é possível.

E a primeira impossibilidade é fazer uma redacção de um jornal sem jornalistas.

Como o jornal tem uma rádio associada, e como a rádio tem muitos dos seus jornalistas a dar opiniões (a produção de notícias não enche 24 horas do dia e, mesmo repetindo programas de comentário no mesmo dia, como acontece, 24 horas por dia, sete dias por semana, é muito tempo), é muito fácil perceber que a redacção do Observador não é muito diferente da redacção do Público,.

Basta ouvir, por exemplo, Judite França a falar do pacote laboral, ou os jornalistas da secção de política a conversar sobre politiquinha, sem o menor interesse nas políticas que se reflectem no dia a dia dos ouvintes, comentando o que este e aquele disseram (o jornal até tem o hábito de escrever artigos a explicar aos leitores as entrelinhas de discursos políticos, como se os destinatários precisassem dos jornalistas para entender o que lhes é dito), raramente discutindo factos reais e resultados reais das opções políticas feitas (bem podiam aprender com o Instituto +Liberdade, que regularmente publica factos sobre assuntos da actualidade).

É o que é, a redacção faz-se com os jornalistas que existem e os jornalistas que existem chegam de escolas de jornalismo que acham que explicar o mundo futuro é mais importante que descrever o mundo realmente existiu.

Há, no entanto, coisas que manifestamente estão para lá do aceitável, é o caso de toda a cobertura que é feita sobre Israel e assuntos conexos, de que é exemplo o que escreve, por exemplo (é um mero exemplo, com variações, todos escrevem no mesmo sentido, ao contrário do que escrevem os cronistas do Observador) Madalena Moreira.

Debaixo de um título completamente absurdo ("Israel e Hezbollah trocam ataques apesar de cessar-fogo.", como se o Hezbollah tivesse aceitado o cessar fogo que Israel assinou com o Estado do Líbano, a quem o Hezbollah não reconhece qualquer autoridade), escreve-se "Uma das zonas mais fustigadas do país foi a cidade de Tiro, onde pelo menos doze pessoas ficaram feridas num ataque israelita contra o hospital Jabal Amel".

Acontece que nunca houve um ataque israelita contra tal hospital, o que houve foi um ataque próximo desse hospital, que provocou danos no hospital, havendo alegações israelitas de que isso é assim porque o Hezbollah se coloca sempre perto destas infraestruturas civis, exactamente para se proteger.

O que a redacção do Observador escreve é objectivamente falso, mas isso não demove o jornalismo militante que caracteriza a redacção do Observador, tal como as restantes redacções.

Ainda vão conseguir transformar o jornalismo num activo tóxico que justifica a actuação da polícia inglesa no caso da morte do rapaz acusado de racismo.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Os heróis do dia

Periodicamente, o país real tem de suportar com estoicismo uma greve geral – acho até que já escrevi vários textos parecidos com este. É como uma punição que temos de sofrer, uma penitência que vem directamente das calendas revolucionárias, um resquício do domínio comunista da revolução, devidamente consolidado e protegido nos sindicatos que tomaram conta da função — ou melhor, da corporação — pública e das empresas do Estado.

Chegados a este estágio da nossa democracia, assistimos a uma ironia modernamente bizarra: a conivência dos “fascistas” do Chega com este bloqueio. Unidos pelo oportunismo, todas as corporações profissionais privilegiadas dedicam-se a encerrar transportes públicos, tribunais, escolas e hospitais – porque podem. O objectivo é claro: boicotar a actividade do país precário, o país produtivo, a esmagadora maioria das pessoas que precisam, efectivamente, de trabalhar, de pôr comida na mesa ao fim do dia.

Esses milhões, sim, são os heróis do dia. Aqueles que, contra ventos, marés e grevistas, marcaram presença nos seus empregos. No sector privado, convém lembrar, apenas 7% dos trabalhadores são sindicalizados. Ali, o privilégio de parar não existe.

Um olhar empírico na minha zona, além de me mostrar o liceu aberto, revelou o comércio e os serviços em pleno funcionamento. E no pouco tempo que estive na rua, para desespero dos profetas do caos, ainda vi passar um comboio em direção ao Cais do Sodré.

Apesar da punição imposta, apesar do folclore habitual dos grevistas — devidamente amplificado e mimado pelos média ao serviço —, a realidade é o que é e teima em desmentir os comunicados sindicais: a esmagadora maioria do país hoje foi trabalhar.

Os sindicatos e a extrema-esquerda deram, é certo, a sua habitual prova de vida, em contraciclo com a sua representatividade eleitoral. E continuaremos, infelizmente, reféns desta minoria ruidosa, que se comporta como um verdadeiro frúnculo na nossa democracia.

Novas greves? Haverá em breve, tão certo quanto o Natal ser em Dezembro. Até lá, só pedimos uma coisa: deixem-nos trabalhar.

terça-feira, 2 de junho de 2026

A prova do fogo

 Está aí, à porta, a balnear época dos incêndios. O Governo não se tem cansado de lhe fazer múltiplas alusões e, em passagem recente pela zona de Pedrógão Grande, pude constatar o que são hectares e hectares de pinheiros e eucaliptos tombados nas tempestades do inverno transacto. Agora - lenha, simplesmente lenha, o regalo dos serões natalícios ou o desespero para muito breve.

Mantendo a minha convicção de que a maioria dos incêndios tem uma origem criminosa - criteriosamente escolhida para os dias de calor intenso e vento favorável, não espero senão as televisões transbordando notícias de casas, aldeias, vilas, com as chamas à porta. Tal é o quadro a partir do qual as competentes autoridades devem estabelecer programas adequados de combate a essa chaga.

Acredito no ministro Luís Neves. Um homem de acção e serviço, um não-político, com provas dadas na Judiciária. E de voz firme. Oxalá isso seja uma garantia de eficácia.

O termo comparativo é o desatino dos anos anteriores. Mais o passa-culpas que se generalizou entre SIRESP, bombeiros, Protecção Civil, forças policiais, meios de comunicação, autarquias e tudo o mais que estiver a jeito.

Assim o Ministério da Administração Interna consiga disciplinar as hostes. E lograr a desejável coordenação entre elas. Estou em que o futuro do Governo (que pode sempre contar com as demolidoras oposições) dependerá em absoluto da prevenção e, sobretudo, do combate ao apocalipse que se adivinha. O País está pronto a arder; pois que os responsáveis e os intervenientes saibam enchê-lo de água e o apaguem nas suas labaredas. Será, enfim, a primeira proeza palpável do Governo. E o seu passaporte para um futuro estabilizado.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O suicídio sindical

Como a generalidade das pessoas, ligo pouco ao que fazem, e menos ainda ao que dizem, os sindicatos, organizações que estão tão desligadas dos trabalhadores que a anterior Secretária Geral da CGTP era uma senhora que toda a sua vida profissional se limitava a funcionária sindical.

Achei curioso um título sobre os quatro dias de greve convocados pelo Sindicato dos Trabalhadores da Migração numa semana em que há uma greve geral à quarta feira e um feriado à quinta, que resolvi ver a notícia para saber que greve era essa.

É uma greve à segunda, terça, quarta (o dia da greve geral), interrompe à quinta (feriado) e retoma a sexta-feira, num princípio de Junho de tempo ameno.

Ri-me, naturalmente, da caricatura em que os funcionários dos sindicatos estão a transforma o movimento operário e iria passar à frente quando reparei nas reivindicações que justificavam os quatro dias de greve.

 “crescente degradação das condições de trabalho e o aumento da pressão sobre os trabalhadores, sem o correspondente reforço de meios humanos e técnicos” e “preocupação com o recurso ao ‘outsourcing’ em funções de elevada complexidade técnica, colocando em causa a qualidade do serviço público”.

Os funcionários dos sindicatos vivem num mundo de fantasia em que, com milhares de migrantes dependentes do seu trabalho, acham bem decretar quatro dias de greve com um feriado pelo meio, isto é, ir uma semana para férias, com o argumento de que o trabalho é muito e de que o Governo está a contratar trabalho externo porque o trabalho é muito.

Caros sindicalistas, tenho uma notícia para vos dar.

Da mesma maneira que políticas completamente irresponsáveis sobre migração acabaram em medidas anti-migração e votações expressivas em quem defende excessos securitários como solução para os problemas daí decorrentes, a acção sindical completamente irresponsável e conduzida por um partido que tem três deputados como representação parlamentar (e menos de 3% dos votos) vai, seguramente, desaguar numa revisão da legislação sobre sindicalismo e greve de que os actuais funcionários sindicais vão, de certeza, gostar muito pouco.

É uma questão de tempo e oportunidade política, camaradas.

A pegada que deixamos

 Vivemos na ditadura do instantâneo. Entre o desejo e a sua satisfação, o mundo moderno, vergado ao niilismo, vai eliminando o espaço do compasso de espera, necessário à busca de um sentido mais profundo e fértil da existência. No entanto, há uma verdade desconfortável que o tempo teima em nos sussurrar ao ouvido: do gozo que fruímos sós, não fica nada. Os prazeres mundanos, as paixões que nos consumiram, os banquetes, as experiências sensuais e os muitos troféus que o ego anseia não deixam rasto: desvanecem-se como fumo, evaporando-se no ar assim que a luz se apaga.

As paredes da casa de que nos orgulhamos, decorada com esmero anos a fio, um dia apenas reflectirão o eco do vazio. As sofisticadas bibliotecas e as colecções que juntámos — de discos, de porcelanas —, metodicamente erguidas com o fetiche da posse, serão amanhã desmanteladas pelos nossos extremosos, desleais e indiferentes filhos. Acontece que o prazer individual não gera legado; extingue-se em si mesmo. Que o diga o alfarrabista, que sabe, como poucos, que dias após a morte de um bibliófilo será contactado pelos herdeiros.

Não se trata de menosprezar o bom convívio, a alegria quotidiana, os nossos hobbies — entretenimentos que nos enfeitam a existência. Eles constituem-nos, equilibram-nos na corda bamba de uma vida de exigências que pede tréguas. Mas não tenhamos ilusões: são só distracções. O que realmente faz história, o que deixa um sulco na terra, é a caligrafia do esforço, da doação. 

É na tese que nos roubou noites, na família que teimámos (contra ventos e marés) em manter unida, no livro que escrevemos ou na descoberta científica que falhou — mas que abriu caminho para o passo seguinte — que nos tornamos verdadeiramente humanos. A obra maior exige o suor do treino persistente para o recorde, a dor do cansaço, a teimosia da superação. É o serviço que nos realiza, na dádiva, às vezes sacrificada, dos nossos dons aos outros ou a uma causa. É a partilha com os outros que atribuirá valor àqueles bens que, afinal, não são para nós. Daqui não levaremos nada. É na comunhão que nos é legítimo sentir uma ponta de orgulho na vida que construímos, nos dons que nos foram outorgados.

Esta resistência ao efémero encontra o seu eco teológico e antropológico mais recente na encíclica papal Magnifica Humanitas. Num mundo saturado de gratificação instantânea — onde o algoritmo nos entrega o desejo antes mesmo de o formularmos —, o Sumo Pontífice resgata um conceito esquecido: o do prazer diferido. 

 A encíclica recorda-nos que a verdadeira grandeza humana (magnifica humanitas) não se mede pela nossa capacidade de consumir o presente, mas pela nossa audácia em semear o futuro. O “prazer diferido” não é uma punição ou uma autonegação masoquista; é a chave da transcendência. É a capacidade de abdicar do gozo imediato em nome de uma catedral que talvez nunca vejamos concluída, mas onde os nossos filhos e netos se abrigarão. 

 Como disse um dia o Papa Bento XVI, “O mundo oferece-vos o conforto, mas vós não fostes feitos para o conforto. Fostes feitos para a grandeza.” No final, a história não guarda registo dos nossos momentos de conforto. Guardará, talvez, a memória dos nossos combates. É no cuidado desafiante do outro e na entrega desinteressada que deixamos de ser apenas sobreviventes para nos tornarmos construtores. O esforço dedicado a algo maior que nós é o que nos poderá imortalizar. O resto é cinza, como bem sabemos. 

Publicado também aqui

domingo, 31 de maio de 2026

Domingo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita n'Ele já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus». 

Palavra da salvação.

Volta para a tua terra

Sempre que surgem notícias sobre a hipótese de ser promovida e facilitada a migração voluntária que pessoas que vivem em Gaza, surgem não sei quantas pessoas a protestar com essa hipótese, dizendo que se trata de uma limpeza étnica.

Diga-se que uma das principais dificuldades de materialização desta possibilidade de migração voluntária se prende com os destinos de acolhimento, que são poucos e nada fáceis.

Há poucos países, por mais solidários que sejam com a causa palestiniana, disponíveis para receber palestinianos.

Tem sido sempre assim, há décadas, em que a integração dos refugiados palestinianos nas sociedades de acolhimento tem sido um fracasso que nos envergonha a todos.

Outra das dificuldades é ideológica, há um conjunto de pessoas que entendem que não se deve facilitar a saída de palestinianos porque isso seria reconhecer que não tem direito à sua terra.

É um argumento que não compreendo, quem tem de decidir se fica ou não na sua terra, é o próprio e um dos muitos dos problemas dos habitantes de Gaza é que, mesmo que queiram, sejam quais forem as suas razões, têm enormes dificuldades em sair dali.

Mais absurdo é o argumento de que quem tem de sair são os israelitas, porque são colonos ocupantes que deveriam ser obrigados a voltar para as suas terras de origem.

Conheço várias pessoas que se indignam com o "volta para a tua terra" dirigido a imigrantes ou seus filhos, mas acham normal que se diga a israelitas exactamente o mesmo, até em situações em que a pessoa em causa nunca conheceu outra terra, nem os seus pais nem, às vezes, os seus avós.

Para além disso, a terra de onde os seus bisavós migraram há três ou quatro gerações é hoje uma terra francamente hostil para os judeus, com políticas de Estado antissemitas (escusam de vir com a especiosa distinção entre políticas antissemitas e antissionistas, essa distinção não existe em países como o Irão e Iémen, só para citar dois países de origem de grandes comunidades judias que migraram para o território do que é hoje o Estado de Israel).

Não discutindo a imensa complexidade de toda a situação no médio-oriente no que diz respeito a Israel, não se percebe o que raio querem dizer as pessoas que defendem que os israelitas deveriam desocupar o que ocuparam indevidamente e voltar para as suas terras de origem.

Razão teve Mandela quando percebeu que a estupidez racista do seu aliado Mugabe, que tinha uma política evidente de expulsão dos rodesianos com a cor de pele errada, não só era injusta, como era pior para todos.

sábado, 30 de maio de 2026

Um país manhoso

 Neste mês desenrolou-se um psicodrama que, em si, não vale grande coisa, mas é um retrato tão fiel do país, que resolvi dar-lhe algum destaque.

A 11 de Maio, se não me engano, uma revista ambientalista faz uma peça a dizer que há um drama enorme sobre a conservação do lince ibérico, o ICNF queria mudar a gestão do aviário de linces de Silves, o que poria em causa a conservação da espécie.

Há 17 anos que, sem que se conheçam bem os processos de decisão, um empresário da área da veterinária e conservação de espécies tem contratos de gestão de uma infraestrutura pública ligada à conservação do lince ibérico, infraestrutura essa que foi justificada com a necessidade de produzir linces de forma mais ou menos industrial, para libertar e reforçar as populações selvagens que teriam menos de 200 animais na natureza (hoje são mais de dois mil).

A forma como surge essa infraestrutura e a adjudicação da sua gestão a este empresário é bastante opaca, mas não vou perder muito tempo a descrevê-la, resulta do processo de avaliação de impacte ambiental da barragem de Odelouca em que os decisores (o Estado português) acaba a impor às águas do Algarve (igualmente do Estado) que financie a dita infraestrutura a título de sobrecompensação dos impactos da barragem.

Não é caso único, é uma tendência muito marcada, o uso de medidas compensatórias para financiar obrigações que são do Estado, ao arrepio da legislação comunitária que diz respeito a estas medidas compensatórias, veja-se o que se passa com o ferries de Tróia ou os parques eólicos da serra da Arada, processos que refiro por os conhecer directamente, tal como o de Odelouca, e não por serem excepcionais.

O Estado descobriu que se gerisse os processos de impacte ambiental de forma manhosa, conseguia sacar uns milhares de euros a terceiros, com a justificação das medidas compensatórias de projectos com impacte ambiental negativo sobre valores protegidos pela directiva habitats, sem que ninguém protestasse porque ambientalistas, académicos e jornalistas de ambiente acham óptima esta versão moderna do "rouba mas faz".

Saltemos pois por cima disso e vejamos o que sucedeu desde esse dia 11 de Maio.

Levantou-se um clamor nos jornais, com apoio dos jornalistas, associações ambientais, académicos, partidos e etc., dizendo que uma espécie que produz mais de 800 ciras por ano, em liberdade, ficava em risco se uma infraestrutura deixasse de produzir, em cativeiro, mais dez crias a somar a essas.

A ministra, que inicialmente, e bem, disse que era uma decisão de gestão do Institudo de Conservação da Natureza e Florestas (a minha entidade patronal), afinal resolveu intrometer-se nessa gestão e mandar reverter a decisão.

O Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, como era de esperar, perante as circunstâncias, reverteu a decisão inicial e adjudicou mais catorze meses de gestão da infraestrutura ao mesmo empresário, suponho que por adjudicação directa (não acredito que haja tempo e contexto para simular uma consulta pública).

E, com isto, o assunto vai morrer por mais um tempo.

Ninguém parece interessado em saber as razões pelas quais o ICNF tomou a decisão anterior, nem as razões que o levam a reverter a decisão inicial.

Ninguém parece interessado em saber quem foi responsável pela decisão anterior, e pela reversão posterior.

Ninguém parece interessado em discutir se a decisão anterior estava errada (e, nesse caso, quem é o responsável e de que maneira será responsabilizado por esse erro de gestão), ou se estava certa e se trata de uma cedência da tutela política à pressão pública, beneficiando um empresário em detrimento do bem comum.

E, sobretudo, todos acham irrelevante discutir o essencial: se a espécie está em expansão e produz mais de 800 crias em liberdade, qual é a relevância de produzir mais dez em cativeiro, quanto isso custa aos contribuintes e porque razão o beneficiário é sempre o mesmo empresário, em vez de haver um processo claro, transparente e concorrencial para adjudicação da gestão privada de uma infraestrutura pública.

Somos um país manhoso, isso sim, parece claro e transparente.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O 28 de Maio contado aos totós

 


O Alexandre Borges, na sua crónica de opinião de ontem, escreve que o 28 de Maio passou ao lado de muita gente e que o pronunciamento que marca o fim da Primeira República deveria fazer-nos pensar. O artigo todo reflecte um mar de ambiguidades, que me levam a acreditar que a história da revolução republicana passou ao lado do Alexandre Borges, ou que os seus preconceitos são mais firmes do que os factos acontecidos naqueles tenebrosos tempos.

O que levará o autor a afirmar que o 28 de Maio significou a queda da “república livre e democrática” que promoveu “a laicização do Estado, o projecto de alfabetizar, enfim, a população, iniciativas valorosas na saúde e no ensino superior” fracassando na intenção de “implantar em Portugal um regime determinado pelos portugueses, os portugueses “reais”, que não os da realeza, o povo, os indivíduos, as classes trabalhadoras, sem privilégios de classe”?

O facto é que o caderno de encargos dos republicanos portugueses de cultura jacobina e anticlerical continha um projecto burguês (nunca foram postas em causa as questões de propriedade) de criação de um "Homem Novo", liberto do obscurantismo da coroa e do altar, que traria a Portugal as delícias do progresso. Entender tal projecto como benigno, ou achar que ele seria possível sem muita repressão e violência, é de uma ingenuidade comovente. Já acreditar que os projectos de alfabetização alguma vez passaram do papel é, simplesmente, falta de informação.

Ao Alexandre Borges aconselho a leitura do livro As Causas do Atraso Português, de Nuno Palma, que descreve os resultados trágicos dos delírios revolucionários de Pombal, dos Liberais e dos republicanos — com gráficos e tudo, para facilitar. Pretender que a monarquia constitucional, na passagem do século, era a causa do atraso económico e social em Portugal é, no mínimo, desonestidade intelectual ou apenas preconceito ideológico. Não enquadrar a realidade sociocultural dessa época com o que se passava no resto da Europa também não ajuda. O facto é que as monarquias europeias que não perderam guerras tornaram-se, numa evolução natural ao longo do século XX, nos regimes mais democráticos e prósperos do mundo.

Quanto às repúblicas que vingaram, desiluda-se o autor da crónica: os regimes trataram rapidamente de criar as suas próprias aristocracias e distinções honoríficas. É da natureza humana — algo que as democracias devem preservar e respeitar.

Talvez um dia o Alexandre Borges, porque tem boa cabeça para isso, perceba que contrariar a natureza humana e sociológica das comunidades, forçando um “progresso” idealizado por algumas cabeças iluminadas instaladas à força nas cadeiras do poder, dá maus resultados e é contraproducente. Mesmo quando não significa extrema violência e opressão, que foi, aliás, o resultado da revolução republicana em Portugal — à qual o povo respondeu com a adesão a Fátima e continua católico, Graças a Deus.

Finalmente, termino com a convicção contrária à do Alexandre Borges de que em 1926 quem “falhou” não fomos “todos nós” – nada disso! Foram os utópicos aventureiros revolucionários, que em dezasseis anos nos iam dando cabo do país.

Permitir a migração voluntária de pessoas é um crime desumano

 Lê-se e não se acredita.

Num território pequenino (para se ter uma ideia, a grande Lisboa, que tem mais ou menos o número de habitantes de Gaza, tem 1390 quilómetros quadrados e Gaza tem 352, ou seja, Gaza, sem grande actividade económica conhecida, tem uma densidade populacional que é mais de três vezes maior) e cheio de gente a viver em péssimas condições, alguns países e pessoas, nas quais me incluo, defendem que se deve facilitar a migração voluntária de quem quiser ir procurar melhorar a sua vida para outro lado qualquer.

É um ponto de vista discutível, até porque a definição de voluntária pode variar muito, o tipo que me aponta a pistola e me diz para eu escolher entre a bolsa ou a vida, pode sempre argumentar que lhe entreguei a bolsa voluntariamente.

E, para além da ideia geral de que as pessoas devem poder procurar vida melhor noutro lado para que seja possível migrar, há muitos aspectos concretos das regras que se possam aplicar que podem e devem ser discutidos para haver mais segurança de que a migração é voluntária.

Agora continuar com a conversa de que permitir a migração de um território sobrepovoado por gente que vive da caridade alheia é uma desumanidade, isso eu não compreendo.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

"O problema que Trump criou no Irão"

 Estou cada vez mais irritado (e é difícil ficar ainda mais irritado, partindo do ponto em que estou) com a falta de qualidade e a estupidez do jornalismo.

O nível de intriga, bem evidente na cobertura mediática das declarações de Passos Coelho que pretende explicar-me o que eu devo entender do que se passou, é estratosférico e activamente promovido, por exemplo, na secção de política do Observador (antes fossem os únicos).

A indigência intelectual de uma manchete do Público dizendo que o Estado vendeu imóveis abaixo do preço de mercado, baseando-se na comparação do preço por metro quadrado do resultado de um leilão de edifícios a necessitar de investimento para serem postos no mercado e o preço mediano a que são feitas vendas depois de todos os investimentos, ultrapassa tudo o que é admissível.

Hoje é o Público com a grande manchete do seu destaque a dizer que, três meses depois, Trump ainda não resolveu o problema que criou no Irão.

Fui tentar perceber qual era o problema e, tanto quanto percebi, é o fecho do estreito de Ormuz, que o Público (antes fossem os únicos) acha que é um problema criado por Trump.

Estranhamente, não acha que o bloqueio naval dos Estados Unidos ao Irão seja um problema criado pelo Irão, é também um problema criado por Trump, se bem percebo.

O Médio Oriente estava imerso num clima de paz e prosperidade próximo do paraíso, vai daí, Estados Unidos e Israel, para conseguir uns negócios imobiliários, resolveram bombardear o Irão e, com isso, entregar o poder, no Irão, aos generais, que antes não tinham poder nenhum.

Os generais iranianos aproveitaram a oportunidade para fechar o estreito de Ormuz, para liquidar o Grande e o Pequeno Satã, como vinham prometendo há muito tempo, mas toda a gente sabe que era só a reinar, não era para levar a sério.

Ou seja, Trump criou o problema do fecho de Ormuz (que, como se pode ver aqui, tem barcos a passar todos os dias, embora numa pequena percentagem do tráfego normal, até porque barcos com destino ou proveniência do Irão não passam), e não o Irão, como resposta ao ataque de que foi alvo, o que deu origem à resposta americana de bloqueio naval ao Irão.

De resto, a recente escaramuça entre os EUA e o Irão, em que os Estados Unidos fizeram questão de explicar militarmente ao Irão que não têm liberdade de actuação no estreito, a que o Irão respondeu com retórica, mas não militarmente, diz bem do que é a relação de forças actual (amanhã não sabemos) no estreito de Ormuz.

Pretender que o problema no Irão é o que Trump faz em vez de aceitar que o fecho do estreito de Ormuz é uma opção iraniana, é de uma infantilidade que nem num jornal escolar deveria ser admissível, quando mais num jornal que se pretende sério.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

No centenário da "Revolução Nacional"

 

Em 1915, um obscuro periódico provinciano, "Os Ridículos", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se «no seu estado interessante», pelo que não demoraria a «dar à luz um neto da de 5 de Outubro. Que tenha ao menos boa hora e um parto feliz... sem incomodar muito os vizinhos...».

Caíra, ainda recentemente, o Governo chefiado pelo General Pimenta de Castro, o militar que Manuel de Arriaga, o primeiro Presidente da República, chamara aflitíssimo: «Vejo-me violentado a intervir novamente nesta amaldiçoada barafunda política (...). Se não se acode desde já com firmeza e prontidão ao incêndio em que as facções estão ardendo há muito tempo, como desejando reduzir tudo isto à podridão e à miséria, estamos perdidos, careço de ti (...). Em duas palavras: preciso de um governo extrapartidário (...). Esta ideia que, há um mês atrás, era repelida pelos políticos militantes hoje (...) será aceite pela força das circunstâmcias».

Pimenta de Castro anuiu. Os "democráticos" de Afonso Costa, não. E, desenvolvendo a mais demagógica campanha contra o velho General, acusando-o de conluio com monárquicos e católicos, manipularam, exaltaram e armaram o povo lisboeta (melhor dizendo: os muitos carbonários sempre a postos na Capital). A revolução ocorreu em 12 de Maio de 1915, os mortos superaram os 200 e os feridos o milhar; Pimenta de Castro foi preso e deportado e Arriaga pagou cara a sua romântica ingenuidade, ameaçado e julgado, com a turbamulta invectivando o seu fuzilamento... Viveria mais dois anos apenas.

Daí para a frente... Não será necessário prosseguir o enunciado de vilezas desta 1ª República de 16 anos e 45 governos e duas juntas; com um presidente, só um, a concluir o mandato respectivo. (Pobre António José de Almeida, em 1922 incapacitado de viajar para o Brasil, em visita oficial, porque o navio, de máquinas avariadas, e o erário público, esvaziado, não lhe consentiram zarpasse do Tejo...)

E assim andando, o dia chegou em que, aberta a sessão do parlamento, se verificou estarem presentes somente 37 deputados. Não havia quorum e o seu encerramento foi logo declarado. Era 31 de Maio de 1926. A 28, o Marechal Gomes da Costa, à frente de 15 mil militares, viera triunfalmente de Braga até Lisboa, sob os aplausos delirantes de um povo inteiro. Era a "Revolução Nacional" que perfaz hoje cem anos. O Marechal, um sanguíneo, quase explodia explicando o seu gesto aos portugueses: «Para homens de dignidade e de honra, a situação política do País é inadmissível. Vergada sob a acção de uma minoria devassa e tirãnica, a Nação, envergonhada, sente-se morrer. Eu, por mim revolto-me abertamente (...). Portugal, às armas, pela Liberdade e pela Honra de Portugal».

Há um século, pois, nascia a 2ª República. É bem verdade que, em menos de um fósforo, o Marechal Gomes da Costa era emprateleirado, emergindo na Presidência o General Óscar Carmona, já com um Ministério e Salazar na Pasta das Finanças... Nada mais é preciso acrescentar senão o óbito desta 2ª República, ocorrido em 25 de Abril de 1974; quando então, justamente, nasceu a neta 3ª República, essa que "Os Ridículos" haviam futurado em 1915. Aliás, hoje uma madura já cinquentona e muito dada a certas promiscuidades... Viverá ela eternamente? Sobreviverá ao julgamento de José Sócrates?. Eis o que, aqui no meu Reino, somente me preocupa pelo lado tributário do problema...

A estupidez como argumento

 Apesar do banco de horas não ter qualquer relação com horas extraordinárias (não há qualquer alteração do tempo trabalhado, o que se permit...