quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Danos colaterais

 Várias pessoas sugerem, e às vezes sugerem-me, que vá ver o filme NAZA, não porque achem um bom filme, mas porque entendem que ver o filme é um acto de resistência, como dizia um dia destes o editorial do Público.

Compreendo as pessoas que, estando convencidas de que ocorreu e ocorre um massacre em Gaza, frequentemente acreditando que está em curso um genocídio palestiniano, acabem por desvalorizar um facto essencial sobre o filme: tudo o que é dito no filme não é verificável.

Achei aliás curioso que quando fiz referência à necessidade de usar fontes verificáveis em processos complexos, me tenham respondido que sim, era preciso usar fontes credíveis, como se verificável e credível fosse a mesma coisa.

A fonte que usei ontem no post que fiz sobre a mortalidade em Gaza não tem nada de credível, é o Hamas e, na verdade, os factos também não são facilmente verificáveis.

Por que razão a uso?

Porque é plausível que os dados do Hamas sejam torturados até que digam o que o Hamas quer dizer, mas não é plausível que sejam distorcidos contra o Hamas.

Logo, se os dados do Hamas sugerem fortemente (não são os únicos) que não há massacre nenhum em Gaza, provavelmente é porque não há mesmo massacre nenhum em Gaza.

Ora o filme de que estou a falar parte do pressuposto de que existem danos colaterais na guerra que o Hamas iniciou em Gaza, e existem com certeza.

O filme vai para lá disso e tem a tese (insisto, não vi o filme, digo-o com base na informação que fui obtendo aqui e ali) de que não só esses danos colaterais são em larga escala, como são pacificamente aceites na operação militar israelita, que terá desenvolvido mecanismos sem intervenção humana que assumem esses danos colaterais.

E é aqui que a porca torce o rabo, quando se começa a comparar o trabalho burocrático de Eichman com o que faz o exército israelita.

Com a maior das latas, assume-se que liquidar dois terços dos judeus em algumas zonas da Europa, com o objectivo claro de erradicar os judeus da face da terra, prendendo-os e eliminando-os pelos simples facto de serem judeus, tem alguma comparação com o facto de ter morrido menos de 3,5% da população de Gaza (não é pouco, a Ucrânia, até agora, terá perdido 0,3% da população), numa guerra urbana em zona de elevada densidade, iniciada pelo Hamas, com 70% da mortalidade a coincidir com homens entre os 15 e os 45 anos, presumivelmente combatentes do Hamas, na sua maioria.

Os dados não permitem certezas.

Mesmo sendo os dados do Hamas, a mim parece-me impossível que os danos colaterais sejam tão baixos, mesmo considerando a assimetria militar e de informação entre o exército israelita e o Hamas, que permite ao exército israelita infiltrar profundamente o Hamas e ter informação que lhe permita fazer ataques muito precisos, como tem feito.

Mesmo que não sejam tão baixos como os dados sugerem, são com certeza muito mais baixos que noutras guerras, como na Somália, Sudão, Nigéria, Etiópia, Síria, etc., o que levanta legítimas dúvidas sobre a seriedade do que é dito no filme Naza: se as coisas são como o filme descreve, como é possível que os danos colaterais sejam tão baixos?

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Poesia, íntimas emoções e grandes sobressaltos à parte...

 ... eis o que fica depois da revelação de toda a verdade por Cristiano Ronaldo, e das declarações de Proença e Jesus:

 1. Que Jesus é o seleccionador/treinador e é quem manda.

2. Que Jesus seleccionador/treinador às vezes mente ou volta atrás com promessas, segundo as circunstâncias.

3. Que, devido ao seu estatuto e carreira, Cristiano Ronaldo tem por vezes que pôr os pontos nos is, mas quer jogar na Selecção.

4. Que, visto que a declaração de Proença/Jesus de que CR pode «jogar na Selecção quando quiser» significa realmente que poderá «jogar na Selecção segundo as nossas regras», CR7 voltará a jogar na Selecção, com Jesus como treinador e segundo as regras dele e de Proença.

5. Ou seja, que o caso está arrumado, e quanto a prazos basta que decorram umas semanas.

6. Que, apesar disto e inevitavelmente, os media continuarão a arrastar o caso como sendo o nec plus ultra da relevância até todos se cansarem, cerca de 5 semanas depois de as audiências confirmarem que toda a gente estava cansada.


PS1. Como se sentirá o grande Rui Santos, único e legítimo titular do único e excepcional furo jornalístico, que ontem «revelava» em absoluto exclusivo que CR nunca jogaria enquanto Jesus fosse o treinador?

PS2. O quê, o Marques Lopes também tem que proferir as suas verdades?!

PS3. Parabéns a Vítor Pinto, provavelmente o melhor comentador desportivo da praça, pelo excelente equilíbrio das suas análises sobre o comportamento de um accionista do seu orgão de comunicação social.

Os delírios da imprensa

 Quanto mais se afunda a viabilidade eleitoral da extrema esquerda que promove sindicatos de inquilinas e manifestações pelo controlo dos preços, mais a imprensa delira com a sua propaganda, repetindo-a.

À medida que a extrema esquerda parece perder qualquer hipótese eleitoral em França, mais a imprensa delira com os números de liceus fechados que os sindicatos de estudantes indicam (e é fácil saber, é pegar nos números oficiais, multiplicar por três, e quase sempre bate certo), da mesma maneira que não perdiam uma oportunidade, durante a campanha contra Fernando Alexandre feita na altura das correcções das provas do secundário, para ouvir a "Missão Escola Pública", que ninguém sabe o que é, o que faz e quem representa, mas tem a grande virtude de dizer o que os jornalistas querem ouvir.

Gaza é a mesma coisa, agora são as imagens de satélite que mostram bairros terraplanados, como demonstrações do grau de destruição em Gaza e não como primeira condição para dar segurança a zonas onde abundam edifícios com danos estruturais perigosos, e condição sine qua non para a futura reabilitação.

Para variar, a imprensa podia pegar neste relatório.

É o relatório oficial do Ministério da Saúde de Gaza sobre mortalidade em 2025 e está na página oficial do Ministério da Saúde de Gaza (versão em Inglês, não sei verificar se está disponível também em árabe).

Escolhi um boneco para trazer para aqui:

Seria fácil eu dedicar-me à demagogia barata e fazer notar como a percentagem de crianças mortas em Gaza em 2025 é muito mais baixa (cerca de um terço) da de 2022, antes da guerra e pôr-me a tecer grandes considerações sobre a treta da mortalidade de bebés, mas eu não sou a Francesca Albanese e portanto recuso-me a fazer demagogias desse tipo, embora de sinal inverso ao da querida Francesca.

Sem ter estudado o assunto com profundidade suficiente, suspeito que se trata apenas de um efeito estatístico: antes da guerra a mortalidade era muito menor, muito menos dependente da guerra (o relatório fala em cerca de 70% das mortes atribuídas à guerra e acidentes) e, consequentemente, a mortalidade normal acaba por ter um peso relativo menor.

Sem surpresa, partindo do pressuposto acima, são as classes de maior mortalidade, os dois extremos (crianças com menos de um ano, revelando uma elevada mortalidade infantil antes da guerra, e que se deve ter mantido, e velhos a partir dos 50 anos, crescentemente até ao grupo dos que têm mais de 75% anos), que apresentam um peso relativo menor em 2025 quando comparado com 2022, sem que isso signifique uma mortalidade menor nesses grupos (à mortalidade normal soma-se a mortalidade decorrente da guerra com tudo o que implica).

O relevante do gráfico é que a diferença de peso na mortalidade decorrente da guerra se concentra sobretudo nos grupos a partir da faixa dos 10 aos 14 (o Hamas começa a recrutar por volta dos doze/ treze anos, depois da puberdade, isto é, quando as crianças deixam de ser biologicamente crianças, mas continuam a ser administrativamente crianças, até aos 18), mas sobretudo nas faixas entre os 15 anos e os 44, o que é tanto mais notável quanto a população de Gaza se caracteriza por ter uns 50% de pessoas abaixo dos 18 anos.

O relatório, como digo, do Ministério da Saúde de Gaza, diz "These successive waves of escalation made deaths resulting from military operations the leading cause of mortality in the Gaza Strip for the second consecutive year, with the number of deaths resulting from the direct targeting of civilians reaching 17,286 cases — 70.1% of all deaths registered during the year — claiming thousands of victims, the majority of them civilians, among them large numbers of children, women, and the elderly".

É uma típica frase de propaganda que seria repetida rapidamente no Ocidente se algum jornalista lesse este relatório, mas tem dois truques retóricos.

O primeiro, uma constante da propaganda do Hamas e aliados, a de insistir que são quase todos civis, sem que haja qualquer fonte fidedigna que permita verificar se são combatentes ou civis.

O segundo, a afirmação de que entre os mortos há uma grande quantidade de crianças, mulheres e velhos, quando os números do próprio relatório são o que está acima por idades, e por sexo, cerca de 70% das mortes são do sexo masculino.

Homens e rapazes entre os 15 e os 45 anos são o grosso da mortalidade da guerra e são todos civis?

O que é extraordinário não é que o Hamas, através das estruturas que controla diga isso, mesmo quando os números do próprio Hamas dizem o contrário, o que é extraordinária é a facilidade com que no Ocidente se engole esta propaganda barata, mesmo quando são os números do Hamas, disponíveis em qualquer sítio, que dizem que é treta.

domingo, 4 de outubro de 2026

Domingo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 

Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos». 

Palavra da salvação.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O mercado e a sensibilidade social

 No tempo da troica há uma resposta célebre de Maria Luís Albuquerque a um deputada que a acusava de falta de empatia para com as pessoas prejudicadas pelas medidas do governo: "Senhor deputado, eu empatia tenho muita, não tenho é dinheiro".

Gosto muito desta resposta porque ela é clara a separar o que deve ser separado: uma coisa são os mercados, o mesmo é dizer, as interacções livres entre pessoas dispostas a comprar e vender bens ou serviços, outra coisa é assistência social, isto é, a relação desigual entre quem não pode e precisa e quem pode mas prescinde.

Comecemos no princípio: o único sítio em que há mercados perfeitos é nos livros de economia, na vida real há sempre assimetrias que não permitem a existência de mercados perfeitos.

Ainda assim, os mercados são o instrumento mais eficiente de alocação de recursos porque têm um sistema de produção de transmissão de informação sem paralelo, o sistema de preços.

Quando os preços de aproximam daquilo que os livros de economia dizem que são, o livre ponto de encontro entre o comprador e vendedor, a informação que transmitem a todos é brutal, muito rápida, muito eficiente e permite que todos se adaptem ao que o sistema de preços está a dizer, produzindo mais ou menos, comprando mais ou menos.

Por exemplo, o mercado da habitação em Portugal (eu diria, em toda a Europa e provavelmente em quase todo o mundo ocidental, embora com diferenças que não podem ser desvalorizadas) está a dizer, há uma quantidade de tempo inacreditável, que há falta de casas.

Ao mesmo tempo, os governos empenham-se a procurar controlar os preços, isto é, desligar os sensores que dão indicações aos produtores e consumidores, limitando os incentivos para que sejam produzidas mais casas e mantendo em vigor um sistema de controlo administrativo da construção que, na verdade, impede uma resposta eficaz ao problema central: há demasiada gente que não consegue ter rendimentos suficientes para ter uma casa que considere razoável.

O caso de Maricarmen, que deu origem a uma proposta de lei relâmpago no sentido de desligar o sistema de preços em algumas situações, teve como efeito imediato uma baixa relevante do número de anúncios de casas para alugar, um efeito mais que estudado e clássico: o controlo de preços, limitando os incentivos para que a oferta e a procura se adaptem, não geram preços mais razoáveis, geram escassez.

Pretender que deve ser nos mercados que se deve procurar a solução para as situações sociais de Maricarmen (e nem sequer estou a discutir se a informação sobre a sua fragilidade social é rigorosa ou não) é um erro, situações sociais resolvem-se com filantropia ou com o Estado, ou com uma combinação de filantropia e Estado, não se resolvem "domesticando os mercados", como uma vez disse Capoulas Santos, quando era ministro da Agricultura.

Os mercados, por definição, sendo interacções livres entre pessoas dispostas a comprar e vender, não se domesticam, eles reaparecem ou através da escassez ou através de mercados paralelos, fora do controlo do Estado (como acontece, actualmente, com o mercado de arrendamento em Portugal, em que senhorios e inquilinos preferem prescindir da protecção da lei e confiar na palavra uns dos outros, de tal maneira os riscos de regulamentação são elevados para uma das partes).

A justiça procura-se nos tribunais, não nos mercados, a sensibilidade social encontra-se na acção voluntária ou na canalização dos recursos dos contribuintes através do Estado, não peçam aos mercados mais do que aquilo que podem dar: uma eficiente alocação de recursos que cria riqueza de forma desigual.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

No choque CR7 - Jorge Jesus o que interessa menos é o futebol

 Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus estavam destinados a não se entender. Era tão evidente como inevitável.

Cristiano Ronaldo fez bem em deixar a selecção?

Fez o que não poderia deixar de fazer. Cristiano Ronaldo é uma marca, é um multimilionário que se fez com a sua inteligência, talento e trabalho; foi o melhor jogador do mundo; tem um avião seu que o leva à sua casa no país que lhe apetecer; tem investimentos financeiros, na hotelaria, na comunicação social, etc., e é o rosto de várias marcas. Quando joga futebol pode algum treinador dizer-lhe que depois lhe diz como vai ser? Obviamente não pode; claramente ele não tem idade nem estatuto para destratos e brincadeiras. Inevitavelmente virou costas, meteu-se no avião, e foi para a sua casa de Madrid. Nada a obstar.

Jorge Jesus fez bem em não pôr "o Cris" a jogar?

Fez bem em não pô-lo a jogar e faria se o tivesse posto; fez o que não poderia deixar de fazer. Jorge Jesus é um treinador premiado, vencedor de competições UEFA, de campeonatos e taças em Portugal, Brasil, Turquia e Arábia Saudita. É dos melhores treinadores do mundo. E quando joga futebol não tolera nem poderia tolerar que algum jogador - nem mesmo um jogador multimilionário que já foi o melhor jogador do mundo - lhe diga se joga ou não, quanto tempo, com quem e quando. Inevitavelmente, pôs os pés no prato, e ficou ali onde está. Nada a obstar.

Mas e então o futebol?! Mas e então a Selecção?!

Ora, o futebol e a Selecção que vão dar uma curva. Nada disto tem a ver com "a bola". Tem tudo a ver com pessoas e relações. Se a malta "da bola" não previu isso, tanto pior para "a bola", fiquem para aí a torcer-se, enquanto a vida continua.

A última página

O meu principal hobby será, porventura, a História europeia do século XX. E a personagem que mais admiro será, muito provavelmente, Churchill. 

Churchill é, para mim, em muitos domínios, uma figura simultaneamente inspiracional e aspiracional. Tem imensas características nas quais me revejo ou que aprecio de forma aspiracional. 

Churchill, tal como eu, gostava da liberdade. Foi o primeiro grande inimigo de Hitler. Foi aquele que nunca se deixou iludir, nem mesmo quando quase todos festejavam os acordos de Munique. 

Escrevia muitíssimo bem e fazia-o de forma prolífica, qualidade que admiro particularmente. A sua História da Segunda Guerra Mundial é deliciosa. A esse propósito, Churchill dizia: «A História irá tratar-me bem, pois tenciono escrevê-la.» 

Aliás, outra das qualidades de Churchill que muito admiro era o seu enorme sentido de humor e a sua fina ironia. Existem inúmeras citações de Churchill absolutamente deliciosas. 

Churchill gostava de champagne, whisky e charutos. Eu também, embora os consuma em doses muito mais parcimoniosas. Quanto aos charutos, consumo-os em doses quase homeopáticas, até porque o seu preço está pela hora da morte. 

E pronto: o grande Churchill, com todas as suas qualidades, tornou-se o símbolo maior dos conservadores britânicos. 

No entanto, no fim, Churchill acabou por se tornar também, de certa forma, um embaraço para os próprios conservadores. Depois de ter deixado de ser primeiro-ministro aos 80 anos, não soube «deslargar» o partido, mantendo-se penosamente como deputado até aos 89 anos. 

Era evidente que o seu tempo já tinha passado. Já não era o Churchill que fora. Já não acrescentava ao partido aquilo que acrescentara durante décadas. E, por vezes, era até penoso vê-lo. 

Também Mário Soares teve dificuldade em retirar-se a tempo. A sua última candidatura presidencial, aos 81 anos, não lhe acrescentou nada e terminou num pouco abonatório terceiro lugar. 

Sim, por vezes pessoas absolutamente excepcionais têm grandes egos e, como tal, têm dificuldade em perceber quando chegou a altura de sair. 

E talvez seja essa uma das ironias da grandeza: quanto maior foi aquilo que se fez, maior pode ser a dificuldade em aceitar que já não se é aquilo que se foi. 

Mas não é por isso que serão recordadas. 

Serão recordadas pelos seus feitos, pelo que construíram, pelo que conquistaram e pelo lugar que ocuparam na História. Não pela forma menos airosa como geriram a saída. Ou, pior ainda, pela dificuldade em perceber que era tempo de sair. 

Aliás, grande parte da beleza e do fascínio dos seres humanos reside precisamente na sua complexidade e nas suas contradições. A ideia de seres humanos sem defeitos, sem fragilidades ou sem contradições, quimicamente puros, não me seduz particularmente. 

A perfeição tem tanto de aborrecida como de enganadora. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

interrail aos 57: breve relato.

Em 1990, tinha eu 21 anos, fiz o meu primeiro Interrail. O Muro de Berlim tinha acabado de cair. Depois de uma passagem por Paris e pela Holanda, rumei a Leste. Visitei a Hungria, a Checoslováquia e a Roménia.

A Roménia, na altura um país muito pobre, foi o que mais me impressionou. Tendo optado por visitar apenas cidades de média dimensão, deparei-me com pessoas que tinham enorme interesse e curiosidade em falar com estrangeiros. Muitas nunca tinham tido essa oportunidade. Estávamos em Agosto e Ceaușescu tinha sido fuzilado apenas oito meses antes.

Aliás, e isso é algo que ainda hoje se mantém, uma das coisas de que mais gosto nas viagens é falar com as pessoas. É curioso ver como as coisas mudam: a Checoslováquia já não existe enquanto país e a outrora paupérrima Roménia tem hoje um nível de riqueza semelhante ao de Portugal.

Este ano, desafiado por amigos, voltei às lides. Aos 57, neste Setembro, lá fui eu para mais um Interrailzito.

O espírito do Interrail foi, digamos, um bocadinho aldrabado. Não saímos de Santa Apolónia: apanhámos um avião para Budapeste, onde iniciámos a marcha. Não dormimos em comboios nem em albergues, optámos por hotéis e até fizemos um, quanto a mim desnecessário, upgrade para primeira classe, serviço que, aliás, nem sequer está disponível em muitos comboios.

Se tivesse decidido sozinho, teria feito the hard way: partir de Santa Apolónia, dormir em sítios manhosos e, naturalmente, viajar em segunda classe.

Mas isso sou eu, que sou um rústico serrano. Os meus amigos são finos como o azeite.

Do espírito interrailista manteve-se, entre outras coisas, a mochila às costas — não houve cá malas de rodinhas — e a inevitável lavagem intermédia de roupa.

Andámos por Budapeste, Bratislava, Viena, Hallstatt, Salzburgo, Nuremberga, Estrasburgo, Colmar — as aldeias em redor são lindíssimas —, Cochem e Luxemburgo, onde apanhámos o avião de regresso.

Nenhuma cidade me desiludiu.

Interagi um bocadinho menos com as pessoas do que gostaria. Aliás, os meus companheiros de viagem, mais contidos, já gozavam comigo por eu gostar de meter conversa com toda a gente. Mas, ainda assim, foi uma óptima experiência.

Gosto de comboios. Gosto de não ter o stress de estacionar o carro. E continuo a achar que os comboios são uma forma superior de civilização.

Prefiro muito mais uma viagem deste tipo, de mochila às costas, a estar num resort all inclusive a beber Negronis.

E até gosto muito de beber Negronis.

O direito de propriedade e Maricarmen

 A ideia de Proudhon de que a propriedade é um roubo tem resistido por anos e anos, com mais ou menos matizes.

É hoje uma ideia dominante nas redacções dos jornais, mesmo que poucos jornalistas a reconheçam como sua, na sua crua e inicial forma.

É a ideia que está, por exemplo, por trás da manchete de hoje do Público "um quinto dos novos contratos de arrendamento tem empresas como senhorio", que é reforçado no título interior da peça com "já": "Mais de 20% dos novos contratos de arrendamento já têm empresas como senhorios".

Qual é a diferença de ter empresas ou indivíduos a arrendar casas e, consequentemente, qual é o interesse atribuído a esta informação pelos jornalistas que os leva a transformar uma informação razoavelmente irrelevante no título de primeira página do jornal?

Nenhum, ter a casa alugada a uma pessoa ou haver uma pessoa ou várias que se juntam para investir numa casa, organizando-se numa empresa que depois alugam, é irrelevante, no máximo, poder-se-á discutir os efeitos do imobiliário ter ganho peso como activo financeiro, mas para quem quer viver na casa, é igual e para a generalidade da sociedade tem uma importâncias marginal.

Por trás da atribuição de importância ao assunto está, lá ao fundo, a ideia de que a propriedade é roubo, negando a Declaração Universal dos Direitos da Humanidade, que taxativamente reconhece a propriedade como um direito humano fundamental.

E não vale a pena dizer que esse é um direito das pessoas, não das empresas (um argumento, em qualquer caso, intelectualmente indigente, as empresas são uma das organizações possíveis que as pessoas inventaram e escolhem para atingir os objectivos que querem) porque essa declaração é bem explícita: "Artigo 17 1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros. 2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade".

E é aqui que chegamos a Maricarmen, a espanhola que usava a propriedade de terceiros a troco de uma renda e que deixou de poder pagar a renda que lhe era pedida pelos donos da propriedade, sendo despejada da sua casa.

Naturalmente, vendo uma velhinha a ser despejada de casa, qualquer pessoa normal fica angustiada, mas em vez de dirigir essa angústia para os seus vizinhos (não podiam ajudá-la?), para as obras de misericórdia (não podiam acolhê-la?), para o Estado (não podia dar-lhe abrigo?) ou mesmo para a comunidade mais alargada, organizando, por exemplo, um crowdfunding, a generalidade da imprensa (os políticos fazem o seu trabalho em função do que acham que os eleitores querem, não vale a pena perder tempo a tentar mudar isso) vira-se para o proprietário exigindo que o proprietário ceda parte da propriedade à senhora (o direito de uso é uma das características da propriedade, cedê-lo por preços de favor é um favor, como o nome indica, que consiste em doar parte da propriedade ao utilizador que não paga o preço justo pelo uso).

O absurdo desta ideia é muito clara nesta entrevista de um dos familiares do antigo dono da casa.

Mesmo admitindo que o que está na entrevista seja apenas um dos pontos de vista, e as coisas não sejam exactamente assim, ela traduz bem o essencial: a propriedade é acumulação de capital que resulta de opções de vida das pessoas envolvidas, não respeitar o direito de propriedade, para além da eventual injustiça pelo que envolveu essa acumulação (digo eventual porque a acumulação de capital pode ser feita de muitas maneiras, incluindo algumas injustas e outras indignas), resulta em conflitualidade social ineficiente, em que todos perdem (é perguntar a países como Moçambique, que nacionalizaram toda a terra, quanto investimento e criação de riqueza subsequente se tem perdido desde a independência com esta opção).

A compaixão por Maricarmen, justa ou injusta, é perfeitamente compreensível, mas usá-la para limitar e restringir os direitos de propriedade, dá asneira: o Estado ou a filantropia (que até pode ser dos proprietários, como parece ter acontecido durante anos) que resolvam o problema da senhora sem mexer nos direitos de propriedade.

Hoje, no parlamento, seria bom que a importância do direito de propriedade fosse clara para todos os deputados, mas não tenho a menor esperança nisso: a esquerda continua embevecida com Proudhon, mesmo quando não o reconhece, o Chega tem demonstrado ter mais medo da influência da imprensa nos eleitores do que seria de esperar.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Cristino Ronaldo, o renascido Conselho de Revolução?

Cristiano Ronaldo não se dignou agradecer, findo o jogo com a Noruega, aos adeptos portugeses no estádio; CR7 apareceu no treino de hoje e logo desapareceu, após breve conversa com Jesus (Jorge). Carlos Daniel foi solicitado para exprimir o seu parecer sobre o sucedido, e outros tantos especialistas também; a notícia vale um bom punhado de minutos nos jornais televisivos, uma tarde inteira deles.

CR7 foi, decerto, o maior jogador português de todos os tempos e uma carreira de mais de vinte anos. A Pátria agradece-lhe muitas e muitas alegrias. Mas o tempo não perdoa, e CR7 parece não querer perdoar o tempo. Que já não vai lá das pernas é natural, e disso nos demos conta no último Mundial. Não obstante, foi ainda convocado para a Liga das Nações. Não alinhou nem jogou no sobredito derradeiro confronto. Ficou no "banco", o que para CR7 constituirá uma humilhação e uma razão para amuo. Jesus, por seu turno, não será exactamente um paradigma de diplomacia nem no caso, acrescente-se, tem de ser. A novela ainda vai no adro, em suma.

E é pena, mesmo descontando a desestabilização que possa causar no "grupo de trabalho". Porque se recusará CR7 abandonar a lide em beleza? O que lhe terá subido à cabeça? Sobraria sempre algum tempo, em posteriores e mais desafogados desafios, para nos deixar com algum seu inesquecível brilharete.

Na política também é assim. Passo por cima da II República. Driblo-a e vou directo ao Conselho de Revolução de má memória. O paralelo é injusto, porque CR7, já o disse, proporcionou-nos muitos momentos de euforia ao longo de muitos e gloriosos anos; enquanto o CR, encarregado de zelar pelo cumprimento do Programa do MFA, elevado à condição de orgão de soberania, pautou sempre a sua intervenção por uma abusiva e tendenciosa intromissão na democracia representativa. Extinto com a revisão constitucional de 1982, foi o cabo dos trabalhos para empurrar os seus membros para fora do Estado. Os militares tinham tomado o gosto ao estádio, já não dispensavam os aplausos da Esquerda minoritária que lhes era fiel.

Tudo isto é algo apenas porque, ainda agora, serão muitos aqueles para quem o futebol é a verdadeira política, e a política um futebol mal jogado entre meia dúzia de equipas somente. CR7 arrisca-se a (depois de uma fantástica carreira) perturbar mais os nacionais do que o defunto CR.

Nunca usar

Nunca usar «icónico» e «emblemático». Deixem as coisas em paz, chamem-lhes só o que são. Um repórter dizia, de Lourdes, aquando da visita do Papa, que a gruta das aparições é o local mais «icónico». A gruta das aparições não é «icónica», é a gruta das aparições.

Nunca usar «constrangimento». «Constrangimento» é o tigelão abstracto em que foram metidos incompetência, pobreza, falta de meios, engarrafamentos, falta de pessoal, má gestão, desordem, greves, acidentes de viação, descarrilamentos, intempéries, motins, bloqueios, ignorância, má-fé e o mais que preguiça e iliteracia ditem. Identificar o obstáculo ou dificuldade em concreto não é mais trabalhoso; é só mais inteligente, mais esclarecedor e melhor português.

Nunca usar «acabar por…». De um vendaval, em todos os noticiários falados passou a acontecer que nada acontece; em vez disso, tudo acaba por acontecer. O senhor Anacleto comeu demais e acabou por sentir-se mal; acabou por chamar o 112 e acabou por ser levado ao hospital; acabou por ser internado; mas o seu estado acabou por agravar-se e acabou por morrer. Vemos esta fórmula aplicada a tudo, casos e acontecimentos políticos, situações da economia, das empresas e do trabalho, efemérides vulgares. No entanto, e ao contrário da ilusão geral, a intencional complicação da língua portuguesa não é sinal de mais cultura, é de menos.

Nunca usar «corporativo» ou «corporações» para falar do mundo empresarial ou dos grupos empresariais. As traduções literais têm essa arte de gritar «Ignorância!» Sobretudo quando, como no caso, não conhecem a história política e social do país [Estado Novo, Corporativismo, Integralismo Lusitano, Sistema Corporativo, Direito Corporativo, Grémios, Sindicatos…]. O «mundo corporativo» de que falam uns empresários e economistas só existe na sua ignorância; o brilho com que creem falar de «corporações» só pode resultar de não saberem nem história, nem inglês, nem português.

Nunca usar «meios». Não existem «meios aéreos»; um meio só existe com um fim. Existem aeronaves, expressão que inclui aviões e helicópteros, os quais podem combater fogos ou não; existem bombeiros – é possível, chamar-lhes «meios humanos» de combate ao fogo, se a intenção for ofender ou complicar. Os bombeiros podem ir montados em jipes ou camionetas ou autotanques, sem necessidade de se lhes chamar «meios mecânicos», o que logo suscitaria a pergunta «para quê?».

Nunca usar «resiliente». É a ignorância, mais uma vez que, descobrindo uma nova palavra ou expressão (existentes, mas que a ignorância ignorava – como por exemplo «icónico», «emblemático», «constrangimento», «corporativo», etc.) suscita uma vontade irreprimível de a utilizar. Resiliência é, na física, a propriedade de um material que sofre deformação sob impacto ou tensão e consegue voltar à sua forma inicial sem quebrar; há também a legítima metáfora psicológica. Mas, visto que campeia o exagero, convém abstermo-nos, não vá alguém dizer que o homem que perdeu um braço e as duas pernas num acidente é muito resiliente. Temos pena, mas não consegue ser.

"Os escravos na ONU"

 O título é justo, mas pouco comercial, diria que me parece demasiado burocrático.

Comecei o livro com curiosidade em saber se José Pimentel Teixeira teria escrito um texto burocrático sobre a resolução das ONU que considera o tráfico transatlântico de escravos como o maior crime contra a humanidade.

Uma resolução, note-se, que só teve três votos contra, dos EUA, de Israel e da Argentina.

Teve muitas abstenções, incluindo a de Portugal, provavelmente por se pensar que a resolução não vale um caracol (é um facto) e portanto mais vale não levantar ondas (não percebi em que é o que voto contra uma estupidez levanta assim tantas ondas, mas deixemos isso para outras núpcias).

Não, não escreveu um texto burocrático, pelo contrário, escreveu um texto bem interessante de contextualização, lê-se muito bem (até alguns arabescos de linguagem que aparecem noutras coisas escritas por José Pimentel Teixeira tiveram falta de comparência).

O livro é pequeno, no sentido de ter poucas páginas, mas tem um horizonte largo de contextualização da escravidão e das razões pelas quais alguns dos países que descendem dos escravizadores (como o Gana, que propõe a dita declaração) agora se fazem de vítimas (bem apanhado o uso de John Coltrane, na apresentação do livro, para mostrar como a qualidade da música, Dahomey Dance, não tinha correspondência com o conhecimento do assunto que a motiva. John Coltrane escolher o reino de Daomé para fazer uma afirmação anti-esclavagista é ignorar que essa era uma das grandes potências escravistas de África, fortemente implicada na captura e comércio de escravos).

Francamente, gostei do livro e aconselho-o a toda a gente que tenha um interesse, mesmo que vago, na exploração política actual da escravidão por parte de agentes políticos mais interessados nas suas agendas que na compreensão do passado.

Pensando bem, basta ter um bocadinho de curiosidade pelo mundo que nos rodeia para ser um gosto, e haver proveito, na leitura do livro.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Ramalho Ortigão - o último cavalheiro do século XIX

 





No contexto da literatura do século XIX, Ramalho Ortigão é, talvez, subvalorizado. Uma sombra por detrás do colossal amigo Eça de Queiroz, mas também encoberto pela originalidade poética de Antero e pela produção de Oliveira Martins. Injustamente assim acabou. Ramalho não foi romancista de craveira, porque a objectividade da análise não se coadunava com as divagações da imaginação; nem um lírico, porque às reminiscências poéticas preferia a sobriedade das ideias. Podia ombrear com os melhores historiadores, mas não foi prolífero nem profundo no campo. E, contudo, dentro do estilo foi o mais inovador. "As Farpas" não seriam o mesmo sem o seu brio. No ensaio foi primoroso e, na crónica, um esteta. Aliás, o que deixou escrito em vários volumes reúne a melhor prosa do século XIX. 

Ramalho estava ao nível do humanista. Tivesse nascido em Inglaterra seria o protótipo do cavalheiro vitoriano, o verdadeiro gentleman, versado nas artes, ciências e letras. Elegante e sofisticado, comprazia-se nas andanças da boa sociedade. Dedicou páginas ao lazer burguês de forma tão incisiva como criticou aquela mesma sociedade. Foi homem público e tribuno. Um senador. Não ficou retido nas bibliotecas: participou na vida cívica. Por excelência, o escritor-cidadão, que não deixou de ser fiel ao seu rei, servindo como bibliotecário da Real Biblioteca da Ajuda. 

Autodidacta multifacetado, sobre tudo escreveu. A análise apurada deslocava-se por dimensões variadas do conhecimento. Politicamente muitos o apodam de republicano e, contudo, nunca o foi (como Eça lembrou). Ramalho não atacava a monarquia, mas a partidocracia. E mais tarde opõe-se à República. Poucos dias após a proclamação da República escreve ao amigo Teófilo Braga (então Presidente do Governo Provisório) a indignação por ter a casa assaltada e revistada por um bando republicano. Não aceitou o regime e preferiu o exílio em Paris. Foi coerente. 

Em carta ao jovem João do Amaral aplaude o Integralismo Lusitano, um último fôlego de um velho patriota redimido. Talvez pela independência, superioridade intelectual e espírito crítico tenha acabado renegado. Cavalheiresco e académico, elegante e erudito, Ramalho Ortigão foi talvez o intelectual que melhor soube encarnar o espírito do século XIX português. 


"Feeble news" e o mundo real (*)

 Se a nossa comunicação social reconhecesse ainda o papel da informação teria reparado nas conclusões da cimeira Xi Jiping/Trump em Maio, em Pequim, e a cimeira Trump/Xi Jiping, agora, em Washington, na prática uma definição de áreas de influência. Mas em vez de informação sobre acordos comerciais efetivos e acordos geopolíticos, a nossa comunicação social preferiu ater-se ao seu canto duma nota só de que Trump é incompetente, a administração americana é cega, e tudo o que fazem é vão. De notícias, portanto, só o habitual folclore [por exemplo, a historieta de que a Primeira Dama se recusara a cumprimentar Xi Jiping, - informação falsa, sem mais].

Se a nossa comunicação social pudesse suscitar ainda uma réstea de respeito teria notado que a divisão de áreas de influência entre Estados Unidos e China resultou em que Washington guarda especial atenção a Américas do Norte, Central e do Sul, Gronelândia, e Atlântico. Que ao Atlântico pertencem as Lajes, o Reino Unido e Portugal. A Europa nem é referida. E que Portugal e o Reino Unido têm, portanto, especiais interesse e trunfos na concertação com EUA [o especial cumprimento de Marc Rubio ao nosso MNE nas Nações Unidas mereceria atenção].

Se a nossa comunicação social vislumbrasse além da bolha corporativa [o que a fez reagir em indignada matilha contra ostracização por Trump da CNN, resultante de persistentes mentiras e invenções de que a estação teve que retratar-se], e da ignorância, e da preguiça e da estupidez, o tema da compra das novas fragatas teria sido tratado em termos de interesse nacional, geografia e alianças, e política de segurança e mar. Tivemos em vez disso, e apenas, um esforçado e obsceno esbracejar para encontrar algum sinal de corrupção num negócio inteligente e limpo.

(*) feeble - débil, frouxo, medíocre, inconsistente.

Colonialismo e limpeza étnica

 Está agora na moda dizer "colonialismo" e pronto, está descrito um sistema.

Acontece que não é assim, colonialismos há muitos, de muito tipo, desde sempre, e os efeitos negativos e positivos dos sistemas coloniais dependem muito da forma como esse colonialismo se desenvolve e se materializa na história.

Tal como todos os processos complexos, é muito tentador e fácil deitar fora a complexidade e dizer que o facto do luso-tropicalismo ser mais um mito ideológico que uma realidade invalida quaisquer diferenças entre o colonialismo português, espanhol, inglês, belga ou do império otomano.

Já várias vezes tenho referido aqui o livro "Exploradores Portugueses e Reis Africanos: Viagens ao Coração de África no Século XIX" de Filipe Verde e Frederico Delgado Rosa, e lembrei-me dele outra vez por causa da descrição do encontro entre David Livingstone e Silva Porto, dois inegáveis defensores do colonialismo da segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX.

Mas as semelhanças entre os dois acabam aí e as suas diferenças, parcialmente, reflectem dois modelos coloniais radicalmente diferentes.

Livingstone era um padre obcecado com a evangelização e o combate à escravatura, ao serviço do império britânico, com o objectivo de levar o seu conceito de civilização, cristão, humanista e anti-esclavagista, ao coração de África.

Silva Porto era um comerciante estabelecido num improvável interior de África, tão improvável que Livingstone nem acreditou quando lhe disseram que havia outro branco por aquelas terras, ficando genuinamente surpreendido com isso, sendo as suas viagens pelo interior de África, geograficamente muito mais limitadas que as de Livingstone, embora preciosamente documentadas sob muitos pontos de vista, viagens essencialmente comerciais e diplomáticas.

Em qualquer caso, primeiro ponto a chamar a atenção, a esmagadora maioria de África, a África de onde provinham os escravos que eram comercializados no litoral e, em grande medida, levados através do Atlântico, não tinha qualquer poder colonial efectivo a ser exercido pelos impérios europeus.

A colonização de África, com exércitos, padres, comerciantes e uma administração pública real, é um processo que só ocorre muito tardiamente, se exceptuarmos uma estreita faixa litoral.

Os velhos colonos, cuja caricatura ainda hoje serve de arma política, os Silva Porto (sem a sua grandeza e sensibilidade, na maior parte dos casos, infelizmente) desta colonização eram manifestamente poucos e nem todos eram brancos (se não me engano (não confio nem um bocadinhos na minha memória) o livro citado fala dos Ambacas, conhecidos, reconhecidos e temidos bastante para o interior do que é hoje Angola, que eram frequentemente considerados brancos, mesmo quando a pele era preta retinta, por causa da maneira de vestir, e viver, manifestamente mais próxima dos modelos do colonizador que dos modelos tradicionais africanos).

Em Angola, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, o número de colonos vai crescendo e vai-se tornando relevante, mas em Moçambique, uma colónia que vivia essencialmente da sua relação com a Índia, a população branca, que inclui esses velhos colonos, é residual.

Esta situação mantém-se até muito tarde no século XX, quer porque há uma forte comunidade indiana que ocupa o espaço disponível e tem mais apoios (casam entre si, mandam os filhos estudar em Goa, etc.), quer porque em Moçambique se estabelecem companhias majestáticas, de acordo com o modelo colonial mais clássico, que procuram manter o seu poder e influência até meados do século XX (é o Estado Novo que acaba com este modelo), afastando qualquer possibilidade de autonomia de terceiros, incluindo os colonos no sentido que tenho usado aqui.

No momento da independência de Angola e Moçambique, a população branca (com todas as dificuldades que existam nestas classificações, e esquecendo os muitos mulatos que não são identificados como brancos) andava pelos 5% em Angola e apenas 2% em Moçambique.

Há um aspecto relevante que convém não esquecer, desde os anos 30 e 40 e com a deslocação de milhares de militares nos anos 60 (muitos dos quais se fixavam por lá no fim das suas comissões), há um crescimento muito grande (em termos relativos, naturalmente, continua a ser uma população quase residual) da população branca nestas regiões.

Boa parte dessa população não são propriamente colonos no sentido clássico do termo, são funcionários administrativos, professores, técnicos ligados aos projectos de desenvolvimento ou de empresas, sem grande relação com o sentido de ocupação colonial da segunda metade do século XIX.

Embora muito poucos em termos relativos, estas populações concentravam grande parte do capital humano mais valioso e produtivo, porque mais qualificado, destes países, enquanto se ia formando uma classe média local branca, mulata e negra (no caso de Moçambique, também com forte peso de indianos, sobretudo oriundos de Goa, e alguns chineses) para responder ao processo de transformação que estava em curso.

As novas ideias anti-colonialistas e de autodeterminação, que estão, aliás, na declaração universal dos direitos humanos, geram diferentes modelos de contestação do status quo, tendo resultado nas independências desses países, nas circunstâncias conhecidas.

A opção, mais velada, ou menos velada, por uma limpeza étnica no início desses países, expulsando grande parte do capital humano instalado, usando critérios ideológicos que se cruzaram com critérios racistas implícitos traduziu-se na redução de 2% de brancos para 0,08% actuais, em Moçambique, e na redução de 5% para 1% em Angola, é um dos maiores desastres para as populações desses países que, de um momento para o outro, se viram privados de uma grande parte das qualificações necessárias à transformação do país.

Esta opção, conjugada com outras opções ideológicas, como a falta de segurança jurídica associada à propriedade privada, nomeadamente da terra, traduziu-se num empobrecimento global dessas sociedades, paralelo a um enriquecimento estratosférico de uma pequena elite com acesso ao poder.

Pretender, nestas circunstâncias, que são os velhos colonos e seus descendentes os responsáveis pela pobreza das pessoas comuns nesses países, traduzindo uma desigualdade estrutural criada pelos sistemas de escravidão (e posteriores sistemas de trabalho forçado), é uma coisa que só pode ser racionalmente classificada como o luso-tropicalismo: um mito ideológico.

domingo, 27 de setembro de 2026

Ironias da vida


Após o terramoto, com Lisboa de pantanas ainda a cheirar a queimado, o ambiente político e social degradava-se de dia para dia, pesado. Pombal, implacável, cortava a direito qualquer sombra de insurreição e com o mesmo vigor aplacava quem lhe fizesse frente nos meios da corte. É nesse contexto que " (...) O descontentamento com os membros da Companhia de Jesus logo iria somar-se ao ódio de fidalgos da Corte, onde corria a seguinte anedota: D. José, pasmado diante da assombrosa actividade de Pombal comentara com um fidalgo sobre o facto de a providência divina lhe ter poupado a vida e a residência na Rua Formosa. A resposta veio fulminante: Também as casas da Rua Suja (a das meretrizes) ficaram de pé." 

(In "O mal sobre a terra - História do grande terramoto de Lisboa", por Mary del Priori - Objectiva 2020)

Como historiadora, não, mas como cidadã, sim

 Ontem estive no lançamento do livro "Os escravos na ONU" de José Pimentel Teixeira.

Sobre o livro, não posso dizer nada, que ainda não li, excepto que gosto da maneira informada e livre com que José Pimentel Teixeira tem escrito sobre a inacreditável resolução da ONU considerando o tráfico transatlântico de escravos (e apenas esse) como o maior crime contra a humanidade da história.

A apresentação, para além do autor, foi feita pela historiadora (com formação jurídica) Cristina Nogueira da Silva, que tem, sobre o assunto, uma visão radicalmente diferente da do autor.

O que me interessa é uma afirmação que, pelos vistos, tinha sido feito no programa Contra-corrente, do Observador, na Sexta-feira, e que foi ali repetida.

A escravidão foi um crime? perguntava-se Cristina Nogueira da Silva.

A resposta é de antologia: como historiadora não posso dizer isso, mas como cidadã, digo que sim.

Ou seja, com a melhor informação produzida pela investigação, digo uma coisa, como as minhas emoções, digo outra.

Uma ilustração perfeita da confusão mental que povoa muito do discurso woke, seja sobre isto, seja sobre Gaza, seja sobre a distinção entre mulheres e homens.

Racionalmente, e com a melhor informação disponível, eu tenho umas conclusões, mas na vida prática, no meu voto, no meu activismo social, funciono com outras conclusões, a coberto de noções subjectivas como empatia e outras abstracções impossíveis de verificar.

Por exemplo, o artigo 13º da declaração universal dos direitos humanos (note-se, os valores dessa carta não são os valores do Ocidente, são valores universais, a especificidade ocidental é tentar levá-los a sério) diz taxativamente: "Artigo 13 1) Todos os seres humanos têm direito à liberdade de circulação e residência dentro das fronteiras de cada Estado. 2) Todos os seres humanos têm o direito de deixar qualquer país, inclusive o seu próprio e de regressar ao seu país".

Aplicando à situação de Gaza, deveríamos estar empenhados em que cada habitante de Gaza tivesse liberdade de sair dali, se quisesse.

"Limpeza étnica, limpeza étnica" dizem os activistas que querem impedir um palestiniano de ser feliz noutro lado qualquer porque o melhor para esse palestiniano em concreto é que seja feliz na sua terra, decreta esta gente cheia de empatia, ignorando olimpicamente a vontade concreta daquela pessoa concreta, dentro do seu contexto concreto.

O mesmo tipo de dissonância entre razão e emoção acontece nas discussões sobre escravidão, uma constante histórica que atravessa quase toda a história da humanidade até que no Ocidente o sentimento de profunda injustiça associado à condição de escravo (convém não confundir com trabalhos forçados e outras malfeitorias associadas à exploração do homem pelo homem, o que define a escravidão é muito mais profundo, é a negação da personalidade) cresceu o suficiente, não só para acabar com a escravidão nessa parte do mundo, mas para a combater em qualquer lado.

Racional e objectivamente é claro que a escravidão foi combatida a partir dos países ocidentais e dos valores ocidentais, mas o discurso woke encontra umas conversas com afrodescendentes (um conceito que abrange os meus filhos, visto que africano sou eu, independentemente da quantidade de melanina da minha pele), em que conseguem identificar o sofrimento por uma escravidão que acabou há três ou quatro gerações, pelo menos.

Note-se que o uso do termo afrodescendentes é apenas uma maneira de disfarçar a brutalidade racista e paternalista do que estão a dizer: coitadinhos dos pretinhos, são de uma raça especial que absorveu geneticamente o sofrimento dos seus bisavós, e por isso têm direito a que os outros assumam responsabilidades para com eles porque, coitadinhos, esse sofrimento absorvido geneticamente os torna incapazes para fazer as suas próprias opções e governarem a sua vida de forma autónoma, independente e livre.

Não dou para esse peditório.

Domingo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 

Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’. Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’. Depois, porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo. Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’. Mas de facto não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?». Eles responderam-Lhe: «O primeiro». Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus. João Batistaveio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele». 

Palavra da salvação.

sábado, 26 de setembro de 2026

Uma administração em roda livre

 No meu post anterior parti de um pequeno comentário do Laboratório de Fogos Florestais - UTAD para a crítica aos actuais mapas oficiais de Perigo de Incêndio Rural, que servem para planeamento da supressão e é a base dos avisos constantes de concelhos em perigo máximo.

Volto ao assunto, não terei sido justo e gostaria de clarificar a minha questão base: o problema é uma administração pública perdida no seu labirinto, não são as pessoas concretas que acabam assombradas por processos em que se envolveram, sem nenhuma responsabilidade nas asneiras que resultaram desses processos.

O que eu, e tantos outros, mesmo dentro da administração como se vê por esta bonecada da AGIF, pretendem é que os mapas de Perigo de Incêndio Rural sirvam para distinguir os 12 a 15 dias do ano em que arde 80% da área do ano, adequando os avisos ao perigo real associado a determinadas condições meteorológicas.

O problema é que há duas questões manifestamente diferentes, que a administração pública, em especial do IPMA (os serviços meteorológicos), que é quem produz avisos, com o apoio do ICNF (para o que aqui interessa, os serviços florestais) e da ANEPC (a estrutura que o Estado criou com base nos bombeiros para tentar contentar os bombeiros, mas dar um ar mais profissional ao assunto), resolveram juntar, sem qualquer base técnica ou de conhecimento.

Uma coisa é o risco estrutural de incêndio, que se procura espacializar através de mapas que permitam saber onde há maiores acumulações de combustível.

É um instrumento útil para planear intervenções de médio/ longo prazo e foi isso que foi trabalhado por pessoas ligadas à geomorfologia e à gestão florestal, com o objectivo de apoiar os Gabinetes Técnicos Florestais que andavam a fazer Planos Municipais de Floresta Contra Incêndios com base em instrumentos toscos de mapeamento de risco estrutural (declaração ideológica, isto é o mecanismo típico de acção do Estado, que parte de uma ideia racional, sobre a qual começa a criar regras que criam depois a sua própria dinâmica que só por acaso tem alguma relação com a realidade e alguma utilidade).

Sem surpresa, a principal origem de informação é o histórico de incêndios (onde ardeu não há acumulação de combustível), a que juntam informação sobre declives e tipo de vegetação, para afinar a coisa, mas é o histórico dos fogos que conta.

Outra coisa é o risco meteorológico de incêndio, que internacionalmente é medido por um índice canadiano, o FWI (Fire Weather Index), sujeito a calibrações locais, com certeza, mas que é um índice meteorológico, como o nome indica, servindo para saber se o risco de um fogo progredir rapidamente aumenta ou diminui em função da meteorologia, e pode ser calculado hora a hora (veja-se a tal bonecada da AGIF, por exemplo).

Para saber se amanhã há um grande risco de incêndio, e onde, as metodologias de base meteorológica é que são úteis, é bastante irrelevante saber se há muito ou pouco combustível (genericamente há muito combustível em todo o lado, com excepção de áreas de agricultura intensiva, urbanas, planos de água e áreas ardidas há pouco tempo).

Para planear a gestão de combustíveis a médio/ longo prazo, a cartografia do risco estrutural é útil.

O que não é útil é misturar as duas coisas porque ao atribuir um peso relevante do risco estrutural na definição de Perigo de Incêndio Rural, o que vai acontecer é que o risco meteorológico, que é o que verdadeiramente conta, vai perder peso, ou seja, nos dias mais ou menos normais, temos a Administração Pública a emitir avisos atrás de avisos de que 50, 60, 70 concelhos estão em risco máximo de incêndio, e nos 12 a 15 dias de condições meteorológicas verdadeiramente excepcionais, o peso do risco estrutural mascara a verdadeira excepcionalidade meteorológica.

Isto é assim, e toda a gente que estuda o assunto sabe que é assim (o jornalismo de incêndios talvez não saiba porque consiste em mandar um repórter não especializado e sem capacidade de interpretação do fogo para uma frente de fogo, conversar com as pessoas com quem se cruza, os autarcas e os chefes de bombeiros).

Mas o Senhor Presidente do IPMA (este, ou outro qualquer) dirá, racionalmente, que se fizer um aviso e não acontecer nada, ninguém lhe pede contas, mas se houver um problema e não tiver havido aviso, o seu lugar está em risco, portanto, mesmo que isso signifique descredibilizar o sistema de avisos, dar indicações erradas para a gestão do dispositivo de supressão do fogo, é mais racional manter a situação actual e queixar-se da imprevisibilidade das situações excepcionais, vivendo como habitualmente.

O problema não é de pessoas concretas, é de um sistema institucional que não avalia resultados, portanto é incapaz de estabelecer nexos de responsabilidade e, por essa via, desenhar os incentivos adequados a que os dirigentes se preocupem mais com o país e as pessoas comuns, porque os seus lugares dependeriam de ser capazes de dar respostas eficazes aos problemas existentes.

Prognósticos só no fim do jogo, mas o meu prognóstico é que isto não vai melhorar tão cedo, mesmo numa coisa simples como a porcaria dos avisos por causa do risco de incêndio.

Danos colaterais

 Várias pessoas sugerem, e às vezes sugerem-me, que vá ver o filme NAZA, não porque achem um bom filme, mas porque entendem que ver o filme ...