terça-feira, 25 de agosto de 2026

Nobreza e política

É uma verdade desconfortável: o conservadorismo e o liberalismo são ideologias contra-intuitivas. Guiados pelo princípio instrumental da satisfação imediata dos ensejos mais utópicos da populaça, o progressismo e o socialismo ganham sempre a corrida da simpatia imediata, já dizia o meu pai. Afinal, quem não desejaria um mundo idealizado onde todos acedêssemos, de forma igual, a todos os bens e satisfações? Acontece que este belo impulso é um erro de palmatória económico e humano – o Homem é por natureza insatisfeito, e de facto não somos todos iguais.

Por isso, sempre vi uma nobreza especial na política que em democracia, com pedagogia e coragem, rema contra a maré do instinto populista. Há dignidade no governante que assume o fardo de explicar o que parece injusto numa primeira análise. É preciso coragem para demonstrar que um sistema que premeia o mérito, estimula a competitividade e tolera a desigualdade material é, paradoxalmente, o único capaz de gerar a riqueza real que mais tarde poderá ser redistribuída. Criar riqueza exige rigor; distribuí-la sem critério exige apenas demagogia e conduz inevitavelmente ao caos.

Qual não é, por isso, o meu espanto quando constato que, nestes tempos de ruptura e fragmentação, uma certa direita com gente válida, abdicou do seu papel histórico? Em vez de ensinar e lutar pelos valores da responsabilidade individual e do equilíbrio fiscal, preferiu cavalgar os instintos mais básicos do ávido eleitor desinformado. Assiste-se hoje a um bizarro mimetismo ideológico, onde forças que se dizem de direita se batem por políticas utópicas de distribuição de privilégios inviáveis, riqueza inexistente. Prometem-se reduções drásticas de impostos ao mesmo tempo que se exige o aumento desmedido da despesa pública, além do facilitismo na idade da reforma num país demograficamente falido - sol na eira e chuva no nabal. Estas medidas insustentáveis eram, outrora, o território exclusivo da esquerda populista, cujo objectivo claro era desestruturar o sistema para preparar um assalto revolucionário ao poder.

O paralelo com esse populismo de esquerda tradicional é para mim claro. Além da descredibilização metódica das instituições — que o mais das vezes as próprias não sabem cuidar —, os dois extremos utilizam as contas do Estado como uma máquina de ficção científica onde a escassez não existe, mudando apenas o inimigo de estimação. Enquanto a esquerda radical promete aumentos salariais por decreto financiados por uma taxação irrealista sobre os poucos ricos que persistem, a nova extrema-direita, encarnada em Portugal pelo Chega, faz exactamente o mesmo. Promete o aumento imediato de todas as pensões para o valor do salário mínimo, isenções massivas de IRS e IRC, a concessão de suplementos e progressões imediatas ao funcionalismo público, auto-estradas gratuitas e, pasme-se, propostas absurdas de reversão laboral – vale tudo. Se para a esquerda o pagador imaginário é a banca e “aqueles a quem o dinheiro sobra”, para o Chega a panaceia é o mítico combate à corrupção e o fim dos subsídios de reinserção. Embora a corrupção deva ser combatida, a poupança gerada nunca cobriria este poço sem fundo – se tal fosse viável há muito teria sido implementado. Ambos os lados recusam a pedagogia orçamental, preferindo a mentira confortável à realidade dos factos. E acham possível mudar a natureza humana, o que é ainda mais perigoso.

Ao adoptar esta estratégia, esta direita valida a tese económica da esquerda que sempre combateu, cometendo a maior das traições ao rigor liberal e conservador. Será o caos que a extrema-direita pretende? O que faria se um dia chegasse ao poder? Estará este populismo de sinal trocado intencionalmente a sabotar as fundações da nossa economia para colher os frutos políticos dum colapso inevitável?

Precisamos, urgentemente, de resgatar o princípio fundador da nobreza da política, caso contrário o espectáculo continuará confrangedor. A verdadeira liderança não se mede pelos aplausos fáceis, “likes” e “views”, ou pelo aproveitamento cirúrgico do rancor popular. A política nobre é aquela que, não acreditando no “homem novo”, ousa empreender medidas difíceis, por vezes antipáticas sem benefícios eleitorais a curto prazo, mas que prometem bons resultados a médio e longo prazo. É a política que planta árvores cuja sombra o governante sabe não usufruirá no tempo da sua vida.

Um dia, um amigo meu culto e verdadeiramente reaccionário, no tempo da geringonça, dizia-me que a direita não sabe conquistar o poder, porque não sabe utilizar as artimanhas da esquerda, segundo o próprio, a única maneira possível de governar em democracia. Será esta a verdadeira novidade do Chega?

Não consigo concordar. Sou contra todos os populistas que cavalgam o descontentamento com agendas obscuras. E fico confortável na utopia de exigir a coragem da verdade e a pedagogia da responsabilidade – na certeza da imperfeição humana.

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