É uma verdade desconfortável: o conservadorismo e o liberalismo são ideologias contra-intuitivas. Guiados pelo princípio instrumental da satisfação imediata dos ensejos mais utópicos da populaça, o progressismo e o socialismo ganham sempre a corrida da simpatia imediata, já dizia o meu pai. Afinal, quem não desejaria um mundo idealizado onde todos acedêssemos, de forma igual, a todos os bens e satisfações? Acontece que este belo impulso é um erro de palmatória económico e humano – o Homem é por natureza insatisfeito, e de facto não somos todos iguais.
Por isso, sempre vi uma nobreza especial na política que em
democracia, com pedagogia e coragem, rema contra a maré do instinto populista.
Há dignidade no governante que assume o fardo de explicar o que parece injusto
numa primeira análise. É preciso coragem para demonstrar que um sistema que
premeia o mérito, estimula a competitividade e tolera a desigualdade material
é, paradoxalmente, o único capaz de gerar a riqueza real que mais tarde poderá
ser redistribuída. Criar riqueza exige rigor; distribuí-la sem critério exige
apenas demagogia e conduz inevitavelmente ao caos.
Qual não é, por isso, o meu espanto quando constato que,
nestes tempos de ruptura e fragmentação, uma certa direita com gente válida,
abdicou do seu papel histórico? Em vez de ensinar e lutar pelos valores da
responsabilidade individual e do equilíbrio fiscal, preferiu cavalgar os
instintos mais básicos do ávido eleitor desinformado. Assiste-se hoje a um
bizarro mimetismo ideológico, onde forças que se dizem de direita se batem por
políticas utópicas de distribuição de privilégios inviáveis, riqueza inexistente.
Prometem-se reduções drásticas de impostos ao mesmo tempo que se exige o
aumento desmedido da despesa pública, além do facilitismo na idade da reforma
num país demograficamente falido - sol na eira e chuva no nabal. Estas medidas
insustentáveis eram, outrora, o território exclusivo da esquerda populista,
cujo objectivo claro era desestruturar o sistema para preparar um assalto
revolucionário ao poder.
O paralelo com esse populismo de esquerda tradicional é para
mim claro. Além da descredibilização metódica das instituições — que o mais das
vezes as próprias não sabem cuidar —, os dois extremos utilizam as contas do
Estado como uma máquina de ficção científica onde a escassez não existe,
mudando apenas o inimigo de estimação. Enquanto a esquerda radical promete
aumentos salariais por decreto financiados por uma taxação irrealista sobre os
poucos ricos que persistem, a nova extrema-direita, encarnada em Portugal pelo
Chega, faz exactamente o mesmo. Promete o aumento imediato de todas as pensões
para o valor do salário mínimo, isenções massivas de IRS e IRC, a concessão de
suplementos e progressões imediatas ao funcionalismo público, auto-estradas
gratuitas e, pasme-se, propostas absurdas de reversão laboral – vale tudo. Se
para a esquerda o pagador imaginário é a banca e “aqueles a quem o dinheiro sobra”,
para o Chega a panaceia é o mítico combate à corrupção e o fim dos subsídios de
reinserção. Embora a corrupção deva ser combatida, a poupança gerada nunca
cobriria este poço sem fundo – se tal fosse viável há muito teria sido
implementado. Ambos os lados recusam a pedagogia orçamental, preferindo a
mentira confortável à realidade dos factos. E acham possível mudar a natureza
humana, o que é ainda mais perigoso.
Ao adoptar esta estratégia, esta direita valida a tese
económica da esquerda que sempre combateu, cometendo a maior das traições ao
rigor liberal e conservador. Será o caos que a extrema-direita pretende? O que
faria se um dia chegasse ao poder? Estará este populismo de sinal trocado
intencionalmente a sabotar as fundações da nossa economia para colher os frutos
políticos dum colapso inevitável?
Precisamos, urgentemente, de resgatar o princípio fundador
da nobreza da política, caso contrário o espectáculo continuará confrangedor. A
verdadeira liderança não se mede pelos aplausos fáceis, “likes” e “views”, ou
pelo aproveitamento cirúrgico do rancor popular. A política nobre é aquela que,
não acreditando no “homem novo”, ousa empreender medidas difíceis, por vezes antipáticas
sem benefícios eleitorais a curto prazo, mas que prometem bons resultados a
médio e longo prazo. É a política que planta árvores cuja sombra o governante
sabe não usufruirá no tempo da sua vida.
Um dia, um amigo meu culto e verdadeiramente reaccionário, no tempo
da geringonça, dizia-me que a direita não sabe conquistar o poder, porque não
sabe utilizar as artimanhas da esquerda, segundo o próprio, a única maneira possível
de governar em democracia. Será esta a verdadeira novidade do Chega?
Não consigo concordar. Sou contra todos os populistas que
cavalgam o descontentamento com agendas obscuras. E fico confortável na utopia
de exigir a coragem da verdade e a pedagogia da responsabilidade – na certeza da
imperfeição humana.

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