domingo, 23 de agosto de 2026

Quantos são? Quantos são?

Tenho cada vez menos paciência para o jornalismo (onde incluo o comentário, até porque está cada vez mais difícil separar notícia de opinião) de forcados fictícios.

Não falo sequer de pessoas como Daniel Oliveira, que não tem problemas em acusar de corrupção Maria Luís Albuquerque, sem ter o menor indício disso, apenas porque discorda politicamente dela, como faz no seu último artigo sobre a reforma da segurança social, no Expresso.

Claro que sendo um malabarista das palavras e das ideias, não diz directamente que Maria Luís Albuquerque é corrupta, diz que ela não esquece quem lhe pagou o ordenado e, por isso, enquanto comissária europeia, não está a executar políticas que acha que são as melhores, mas a executar políticas que servem os interesses dos seus anteriores patrões.

Isso é escumalha a que ninguém verdadeiramente liga, fazem uma vida a escrever canalhices destas porque são filhos de quem são e se integraram bem no meio mediático da burguesia lisboeta que controla o acesso ao comentariado pago mas, na verdade, nem as pessoas que o lêem devotamente ligam verdadeiramente ao que escreve.

Falo dos outros, os que têm poder neste meio mediático e passam o tempo a citar toiros que não existem, para mostrar a sua valentia.

Luís Neves é uma má escolha que se tornou um incómodo para o governo?

Esquecem o facto de o terem andado a tratar das palminhas quando ele, como manda-chuva da PJ dizia o que queriam ouvir, e atiram-se ao primeiro-ministro que não o  demite à mínima (no caso de Luís Neves, como aliás tentei deixar claro aqui, não acho que seja assim tão mínima) perturbação, mesmo que isso tenha custos políticos para o governo que sejam maiores que ir deixando andar uma situação que se resolverá melhor a seu tempo.

Mas o caso mais evidente é o da reforma da segurança social.

Lembro-me perfeitamente da forma como a imprensa tratou Passos Coelho, na campanha eleitoral de 2015, quando ousou falar da reforma da segurança social, imediatamente tratada pela imprensa como uma proposta de Passos Coelho cortar 600 milhões nas pensões, sendo perfeitamente admissível que a forma populista como a imprensa tratou o assunto, dando apoio às teses também populistas do PS sobre o assunto, tivesse influenciado marginalmente as eleições, permitindo que a coligação de derrotados tivessem impedido que os mais votados formassem governo.

Depois disso, a imprensa, sempre que o assunto aparece, desata a dar palco aos agoirentos do costume, que a propósito de tudo e de nada agitam o fantasma da privatização de bens públicos (como se o dinheiro dos descontos das pessoas fosse um bem público e não um bem privado que o Estado impõe que seja gerido da forma que entende).

Quando alguém resolve mexer minimamente no status quo, como pretende Fernando Alexandre (que considera essencial reformar o sistema educativo, e tem tomado decisões nesse sentido), é queimado na fogueira mediática (felizmente isso é melhor que as anteriores opções de se ser queimado em fogueiras reais) ao mínimo percalço do processo de alteração do que está.

Quando um governo, como o actual, encomenda um estudo e, desde sempre, foi dizendo que não ia mexer na segurança social neste mandato (veremos a utilidade do estudo na próxima campanha eleitoral, e o que faz a imprensa sobre o assunto, perguntando a todos os partidos o que farão na segurança social se ganharem as eleições) e diz que vai esperar pelas próximas eleições para fazer alguma coisa (logo veremos o que dirá o programa eleitoral dos apoiantes do governo), aparecem então os forcados mediáticos a citar o toiro, a dizer-lhe que tem de agir já, mesmo contra a vontade dos eleitores, porque a missão do governo é governar, não é ganhar eleições.

Eu percebo, se tivesse vender jornalismo, também gostaria de ver isto tudo aos berros, polarizado, com insultos de parte a parte, e com a imprensa a deitar gasolina para a fogueira, em vez de ter um estudo, sobre o qual se podem tranquilamente fazer propostas, que irão ser avaliadas nas próximas eleições (incluindo a ausência de propostas).

Quase se pode dizer que reconhecer que o governo depende dos eleitores, e não dos estudos técnicos, é um crime inaceitável, para estes forcados mediáticos.

1 comentário:

Quantos são? Quantos são?

Tenho cada vez menos paciência para o jornalismo (onde incluo o comentário, até porque está cada vez mais difícil separar notícia de opinião...