quarta-feira, 26 de agosto de 2026

"Esta reforma da Segurança Social não é para pobres"

Este é o título do artigo de opinião de Pedro Ferreira Esteves, no Público de Sábado.

Compro todos os dias o Público em papel (embora possam passar dias antes de o ler, como aconteceu com este, que só li ontem), mas nunca tinha reparado neste nome, Pedro Ferreira Esteves, que, pelos vistos, é editor de economia no Público.

A sua formação é simples, é licenciado em Comunicação Social (nada contra, também tenho uma filha que é licenciada nisso) e, desde aí, escreve sobre economia, há bastantes anos.

E agora vou fazer uma coisa que, de maneira geral, evito, vou usar um argumento de autoridade.

De um lado temos Jorge Bravo, economista, professor de economia, consultor do INE e de várias grandes seguradoras, que toda a vida tem trabalhado sobre questões relacionados com os sistemas de previdência e seguros (para o caso de haver quem não tenha reparado, um sistema previdencial é um seguro especial, mas continua a ser um seguro) que faz um relatório de 600 páginas, com apoio de um grupo alargado de pessoas que trabalham no assunto há anos.

Do outro temos um jornalista, formado em jornalismo, que nunca fez profissionalmente outra coisa na vida que não fazer jornalismo sobre economia em geral e que faz uma página com um artigo cujo título é exactamente o título deste post.

Se me perguntarem qual terá mais repercussão no mundo mediático, eu diria que é a página do jornalista e não o relatório das 600 páginas.

Por uma razão simples, a página será lida por todos os outros jornalistas e diz o que a generalidade dos jornalistas querem ouvir, o relatório será lido por muito pouca gente e não está alinhado com o rebanho mediático.

Não há grande novidade no artigo de Pedro Ferreira Esteves, segue, linha por linha, o argumentário de Ricardo Paes Mamede.

"O relatório apresenta fragilidades políticas, sociais e ideológicas e alguma desonestidade intelectual", é o resumo que Pedro Ferreira Esteves faz do relatório.

O arranque é um processo de intenções, o jornalista não quer analisar o relatório, quer destruí-lo "O quadro negativo - facilmente contrariado pelas contas da OCDE ou da Comissão Europeia - serviu um propósito: justificar a urgência e mérito das propostas incluídas no documento, no sentido de garantir que os actuais trabalhadores podem ter pensões mais em linha com as expectativas para a parte final da vida".

Note-se, o jornalista contesta as contas dos economistas que toda a vida estudaram o assunto, não com contas alternativas, mas com uma frase oca: a OCDE e a Comissão Europeia desmentem facilmente essas contas.

Seria normal, num jornalismo menos militante, que o jornalista nos explicasse por que razão as contas do relatório lhe parecem desmentidas pelas contas da OCDE e da Comissão Europeia, mas não, isso não é relevante para o jornalista, o que interessa é o processo de intenções: aldrabaram o diagnóstico para poderem vender as conclusões que querem.

A desonestidade intelectual, na opinião do jornalista, é terem feito as contas em relação à evolução do sistema, sem alterações, mas não terem feito as contas em relação ao que propõem (até consigo ver Paes Mamede, como o grilo do Pinóquio, a sussurrar ao ouvido do jornalista).

Mas se as contas estão mal e são facilmente desmentidas, qual é o interesse dessa discussão?

O relatório faz uma discussão de modelos previdenciais, não tenho a certeza de que seja preciso fazer as contas a cada alteração proposta, sabendo que cada alteração pode dar resultados completamente diferentes em função da forma concreta escolhida para a executar.

Tomemos o exemplo do sistema complementar que o relatório, de acordo com o jornalista, prevê que seja financiado com um desconto adicional de 8% a 10% (claro que o relatório não diz nada disso, é imensamente mais complexo e diz que essa taxa pode ser modelada em função do rendimento).

Em primeiro lugar o jornalista diz que o relatório não presta porque tem soluções híbridas que não são ideologicamente claras (a sério não sou eu a inventar, eu seria incapaz de inventar um argumento tão exótico), o que o condena imediatamente, do ponto de vista ideológico, dizendo que esta proposta é a melhor demonstração deste erro ideológico profundo (eu posso estar a divertir-me escolhendo palavras mais patuscas para descrever o que o jornalista escreve, mas não estou a inventar nada, esta é mesmo a argumentação do editor de economia do jornal que vive da caridade da família Azevedo).

"Os peritos não querem assumir a privatização do sistema" (para o jornalista, o relatório não prevê a privatização, o facto de ela não constar do relatório é apenas porque os peritos não a querem assumir), "traçam um caminho para lá chegar, mas recusam sequer beliscar as taxas contributivas em favor de um desconto integral para as contas individuais".

"Perante esta postura tímida, é impossível ter um debate claro e limpo sobre o que os portugueses querem para as suas pensões".

É isto o jornalismo, um relatório faz propostas moderadas, é uma chatice para o jornalista que fica sem argumentos para contestar o relatório, o que é inaceitável.

O relatório deveria ter propostas claramente más para que o jornalista brilhasse a destruí-las, agora fazer um relatório sensato que uma pessoa tem dificuldade em contestar as propostas que existem, é desagradável.

"Medidas como o plano de pensões complementar, a conta individual nocional (que permite ir acompanhando as reformas futuras, como um saldo de uma casa de apostas desportivas)" - a sério que as citações entre aspas são mesmo do artigo, não estou a inventar - "ou as soluções complementares individuais (em particular, a poupança jovem ou a hipoteca invertida) são dirigidas a uma elite que vive num patamar salarial muito superior ao resto do país".

Será que o editor de economia do Público não sabe que 70% dos agregados familiares vivem em casa própria (provavelmente a percentagem é muito maior nas pessoas a entrar na idade de reforma), ou acha que em Portugal há uma elite de 70% das pessoas?

"É natural que quem ganha mais ambicione um sistema como aquele que existe nos países anglo-saxónicos em que os seus semelhantes são livres de acumular riqueza para as reformas sem as amarras de um sistema de solidariedade que os força a partilhar demasiado do seu património".

Este é um parágrafo notável por parte do editor de economia de um jornal que vive da caridade da família Azevedo.

"Um país que tem vindo a acumular elogios sobre a reforma de 2006 que permite gerar uma almofada para momentos críticos do sistema, ao mesmo tempo que foi ficando mais perto de uma improvável auto-suficiência".

A reforma de 2006 tem várias coisas, uma delas consiste em passar as contribuições dos novos funcionários públicos (ou seja, dos que só vão passar a receber pensões em 2046, mais coisa, menos coisa) para a Segurança Social (incluindo os descontos do Estado patrão, que passaram a ser iguais aos dos outros patrões), mantendo as obrigações de pagamento de pensões de todos os que se vão reformando na Caixa Geral de Aposentações, com um evidente reforço dos saldos da segurança social, e uma evidente degradação dos saldos da Caixa Geral de Aposentações.

Que o editor de economia do Público escreva o parágrafo acima sem explicar o que explico no parágrafo seguinte, isso sim, só não será desonestidade se for ignorância, bom jornalismo não é com certeza.

Francamente, mas mesmo francamente, não percebo como se chega quase aos cinquenta anos com o grau de arrogância e inconsciência da própria ignorância, que o artigo de opinião que tem o mesmo título deste post demonstra.

Admito que seja uma mistura de ausência de escrutínio sério do trabalho dos jornalistas feito internamente, uma fonte de financiamento que dispensa a atenção aos leitores e as palmadinhas nas costas dos restantes jornalistas e alguns académicos que ficam felizes por se dar mais um passo na resistência contra a elite que manda nisto tudo: "agradecia que a elite não pensasse só no seu próprio futuro, dado que o país depende dela para governar a sua vida" é a última frase do artigo.

Camarada Pedro, para governar a sua vida depende, efectivamente, da elite de que faz parte a família Azevedo, mas a maioria do país não vive da caridadezinha de terceiros e agradece que assuntos sérios sejam tratados de forma séria pelo jornalismo.

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