domingo, 8 de outubro de 2023

5 de Outubro, sete da manhã

Voltei atrás, para perguntar ao casal que estava em frente à Conservatória dos Registos Centrais se estavam à espera de alguma coisa.


Eram sete e picos da manhã, dizem-me que estão ali desde as quatro à espera que um serviço público abra as portas às nove da manhã.


Explico que nesse dia é feriado em Portugal, comentam que realmente tinham estranhado porque todos os dias àquela hora há já uma bicha (são brasileiros, devem ter dito fila) de cerca de cinquenta metros, informam-me que no dia seguinte, Sexta, há greve e no Sábado voltam para o Brasil sem ter conseguido entregar os seus papéis.


Por coincidência, no dia anterior tinha-me telefonado uma das minhas filhas a perguntar se poderia ir buscar netas à escola: a rapariga que as costuma ir buscar, depois de semanas a tentar contactar o SEF, tinha finalmente uma marcação para ser atendida ... em Portimão.


Eu sabia que a rapariga andava há muito tempo a tentar contactar o SEF, com a ajuda da minha filha, que até conhece alguém que lá trabalha, mas a informação era taxativa: o primeiro contacto é sempre por um número de telefone, em que 99,9% das vezes ninguém atende (dizem-me que há uns advogados que têm uma aplicação que está permanentemente a marcar o número, à espera do instante imediatamente posterior ao fim do contacto anterior, mas não sei se é assim, sei é que existe um negócio montado de venda de senhas de marcação em alguns serviços públicos, não sei se funciona na conservatória dos registos centrais ou no SEF).


Isso tinha sido confirmado no grupo de whatsapp da família, em que um sobrinho tentava desesperadamente ajudar alguém que precisava urgentemente de contactar o SEF, e sabia que a minha família tem uma rede de contactos extensíssima (somos muitos e quase todos socialmente muito mais competentes que eu), que se concluiu ser inútil, neste caso.


Tudo isto se passa num Ministério em que o ministro é considerados dos melhores e mais competentes do governo actual (como não sei quais são os critérios na base dos quais se fazem estas avaliações, não tenho opinião sobre isso).


A síntese é muito simples de fazer: se pensam que os problemas no SNS, fecho de urgências e tal, resulta de uma questão entre o Ministério e os profissionais de saúde, pensem outra vez, porque não há nada de específico no que lá se passa, excepto ser uma coisa que é mediaticamente mais impactante, porque se considera o fecho de uma urgência como socialmente inaceitável, ao contrário da impossibilidade de contacto do serviço de estrangeiros e fronteiras, uma coisa quase sempre longe das nossas bolhas sociais.


É o Estado, é a administração pública, que está em decomposição, com a nossa complacência, como a minha, que todos os dias úteis me cruzo, às sete da manhã, com uma bicha de cinquenta metros à espera da abertura de um serviço público duas horas depois e, ainda assim, vou calmamente comprar pão e um jornal, limitando-me a dizer aos meus botões como é triste conviver com uma administração pública do terceiro mundo, mesmo que a minha posição de privilégio me defenda das suas principais consequências.

32 comentários:

  1. Ha duas soluções para um sistema estragado. Arranjar, ou destruir.
    Pronto, há uma terceira, que é ir aguentando...
    Em Portugal a opção é quase sempre a segunda.


    Por outro lado, assiste-se a uma degradação de serviços que por vezes soa e parece premeditada e planeada.
    Um (de bastantes) exemplo com que me deparei: o "bairro" tinha um posto dos Correios, que trabalhava diariamente (8-18) e sábados de manhã,  tendo bastante afluência. Primeiro cancelaram o sábado, depois foi o período de almoço que, sabe-se lá porquê, era a altura em que mais gente lá ia tratar dos seus assuntos. O posto passou a ficar às moscas, até que encerrou, porque já não tinha "clientes" suficientes que justificassem a sua existência. 

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  2. E esse "bairro"  é onde?  É que aqui em Lisboa não me lembro de nenhum posto dos correios abrir antes das 9h.

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  3. No caso do SEF é normal ser assim, é que os advogados cobram 8000 euros para começar a tratar dos assuntos, que podem chegar a 4 milhões de euros, para resolver coisas bicudas. Desde 2014 que é um negócio que já passa dos 20000 milhões de euros, dando mais lucro que os 400000 milhões de processos que são intentados para ganharem dinheiro de oficiosos e darem 3000 milhões aos funcionários judiciais, com o arquivamento de 200000 milhões de processos, de 1 só página com 3 linhas e o cabeçalho. 
    Só que 99% dos problemas das filas nas lojas do cidadão e registos é proveniente das mesmas coisas: desconhecimento, meios de comunicação social e redes sociais. 99% das pessoas que lá estão não precisavam de lá ir ás 3 da manhã, pois há formas muito simples de marcação, só que exigem uma procura de email e envio dos dados correctos. 
    Um exemplo: 99,91% das pessoas que usaram a loja do cidadão das Laranjeiras (Lisboa) não fizeram marcação e/ou não se apresentaram lá com os documentos necessários, obrigando a novas visitas. E isto desconta os advogados, solicitadores e funcionários judiciais, que passam à frente de toda a gente e tratam dos assuntos todos, bloqueando 1 a 40 funcionários, durante toda a manhã, sem poderem atender mais ninguém. 
    Trabalho no ramo e sempre consegui tratar dos assuntos (não trabalho com o SEF pois não é da nossa área, apesar de fazer renovações de cartas de condução de cidadãos brasileiros, junto do IMTT) sem precisar de passar "18 meses". Procurar o registo/conservatória mais perto, ter os documentos necessários e validados (ir tratar de cartas de condução/aquisição de veículos, com cartões do cidadão caducados, é coisa que acontece mais de metade das vezes, nos mais jovens), procurar os emails dos locais mais próximos e pedir o agendamento, explicando a razão e que a pessoa possui todos os documentos. Nunca tive marcações para mais de 2 semanas, na covid cheguei a ter marcações para os próprios dias, pois os advogados marcam 5000 horas, mensais, que mal lá aparecem e os funcionários sabem disso. A pessoa chegar, ter toda a documentação, demora 5 a 10 minutos e está feito. No caso dos CC (que agora só são presenciais em caso de alteração de dados ou pessoas com menos de 30 anos) é fácil conseguir marcações para a semana seguinte, recebem a carta dos códigos e 3 dias úteis depois, o carteiro entrega o CC novo. Só que 96%, dos portugueses não sabe que o registo civil, registo predial e registo comercial, são entidades diferentes... 

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  4. non capisco ou não entendi



     mariscià = sargento

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  5. "... e sabia que a minha família tem uma rede de contactos extensíssima..."


    Engraçado, como a pequena corrupção é tratada eufemisticamente se os conhecimentos forem meus. Eu imagino se fossem os membros do governo a tratarem assim dos seus assuntos em proveito próprio, o que não faltaria de artigos de escárnio e maldizer. 

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  6. Corrupção?
    Tem mesmo a noção do que está a dizer?
    Desde quando perguntar a alguém que sabe qual é a melhor maneira de tratar um assunto é corrupção? Para sua informação, é isso que fazem (e bem) permanentemente, os membros do governo.
    Corrupção é outra coisa: "Corrupção é uma forma de desonestidade ou crime praticado por uma pessoa ou organização a quem é confiada uma posição de autoridade, a fim de obter benefícios ilícitos ou abuso de poder para ganho pessoal".

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  7. O crime de corrupção implica a conjugação dos seguintes quatro elementos:
    - Uma ação ou omissão;
    - A prática de um ato lícito ou ilícito;
    - A contrapartida de uma vantagem indevida;
    - Para o próprio ou para terceiro.


    Se o contactam porque tem alguém conhecido que trabalha no organismo em questão. Não é para obter vantagem é para quê?

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  8. Na província. Era preciso sair de Lisboa e ir pelas picadas. E já lá vão uns bons anos.
    Posteriormente passou para 9:00 (e penso que fecho às 17:30), depois foi algo como fecho entre 12:30 e 14:00 ou parecido. 

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  9. Para obter informação que o serviço público tem obrigação de prestar.
    O que se pretende é simplesmente saber se há alguma outra maneira de contactar o SEF sem ser pelo mecanismo que é publicitado e que não funciona.
    Quer um exemplo, quando foi a loucura dos sefarditas, em que dormiam pessoas à porta, a bicha fazia-se desde as sete da tarde do dia anterior, o tipo do quiosque onde compro o jornal, e que tem uma papelaria, explicou-me que havia uma data de pessoas que iam à papelaria, quase ao lado da conservatória, despachar documentos via DHL, porque funcionava (apesar de ninguém naquela bicha saber disso).
    É extraordinário que perante uma evidente incompetência do Estado a sua primeira ideia seja acusar-me de corrupção.

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  10. Não se trata de nada disso, trata-se de ter informação, nada mais que isso.

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  11. Eu não estou a acusá-lo de nada, estou apenas a constatar um facto. Aliás é tipico do português este tipo de actuação. Quando quer tratar de um assunto qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?
    " Deixa cá ver quem é que eu conheço lá dentro que me possa safar?"
    É precisamente este tipo de comportamento que faz com que os serviços atrasem ainda mais, porque altera a rotina e provoca o caos ao introduzir no serviço uma hierarquia de pequenos favores.

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  12. Na Espanha é que fazem fila para a amnistia,senão vejamos:

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  13. Não só fez uma acusação grave sem qualquer base, como reitera a acusação com base em mentiras.
    Não se trata da "primeira coisa que lhe vem à cabeça", trata-se sim de tentar perceber se há maneira de contactar um serviço público cujo meio de contacto é experimentado dezenas de vezes, por milhares de pessoas, e não funciona.
    Não se trata de "ver quem é que eu conheço lá dentro que me possa safar", trata-se a ajudar uma estrangeira, fora da sua terra, fora do seu círculo familiar, sem saber o que fazer ou a quem se dirigir, desesperada com a possibilidade de ficar ilegal por ausência de resposta do Estado na coisa mais simples de todas, marcar um atendimento.
    E com base nas mentiras que usa, reitera a acusação de corrupção e ainda atira a responsabilidade do mau funcionamento do Estado para cima das vítimas.
    O senhor é verdadeiramente uma besta.

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  14. "É o Estado, é a administração pública, que está em decomposição, com a nossa complacência, como a minha, (...)."
    Tem mesmo razão. Infelizmente nos blogues vemos muitos que parecem estar preocupados com o país e os outros, mas na verdade estão preocupados com eles pois só os seus assuntos no seu espaço lhes interessa. Ninguém vai conseguir mudar nada para melhor com individualismo. A cultura da sociedade atual é preocupante.


    Se alguns esperam umas horas, há quem espere vários anos.

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  15. Espera e desespera.


    O "melhor" é ir a um SEF (válido para outras instituições) com o papel que o funcionário X indicou como obrigatório, mas afinal é preciso é o impresso Y em duplicado e com selo do notário.


    Portugal diz-se de esquerda e solidário, mas é altamente individualista (mas não liberal) e quanto muito adepto da caridade.

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  16. Capisco tutti-frutti ou chocolate(diz aquele sr que come gelados enquanto fala para a CS em Belém). 

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  17. PARA OS SONSAS A COISA CORRE SEMPRE BEM. ESSE É DOS PRIMEIROS DO GOVERNO, MAS TEM LÁ MAIS!

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  18. resumindo, escreve que temos uma administraçao publica de terceiro mundo, insinuando que no nosso mundo ocidental nao existem bichas/filas. 
    Fico até a duvidar se nos mais paises da comunidade existem governos...pois tá tudo tao arrumadinho!!!

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  19. quer aproveitar  e dizer o que é o SEF ?
    Sim, existem nos aeroportos...enquanto todos os dias entram em portugal autocarros lotadinhos de clandestinos ... 
    Basicamente tirando o bem bom nos aeroportos, por onde nao chegam clandestinos pois sabem que nao conseguem entrar,  o SEF é uma agencia de legalizaçao, para tanto bastando entregar papelada forjada. 

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  20. Não posso estar mais de acordo. Se não fossem essas redes de contactos extensissimas, tao típicas do portuga e dos pequenos poderes, podíamos ser um país civilizado e com uma administração pública eficaz. É mesmo uma desfaçatez ainda afirmar publicamente um comportamento ignóbil!!!

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  21. Explique-me de que comportamento ignóbil está a falar, pode ser?
    Deixe-me dar outro exemplo.
    Uma estrangeira, em situação regular, mas não totalmente resolvida, está em Portugal há anos, tendo deixado o marido e o filho em Cabo Verde.
    Ao fim de uns anos, o marido e o filho vêm para Portugal e o miúdo fica numa escola.
    Por voltas da vida, às tantas estão a viver muito longe dessa escola e têm uma escola ao lado, em que lhe dizem que não há lugar, e ela não consegue resolver (em grande parte porque não sabe as regras, etc.).
    Como tenho uma extensa rede de contactos sociais, perguntei a um dos meus primos, que por sinal é professor numa dessas escolas, quais são as possibilidades que ela tem de mudar o miúdo de escola.
    Ele responde-me e eu transmito à senhora as possibilidades que existem e os passos que ela tem de dar.
    Onde está o comportamento ignóbil?
    De resto, é preciso ser completamente idiota (daí eu supor que é a mesma pessoa que usa dois nomes diferentes, dada a baixa probabilidade de ter dois comentadores diferentes a dizer a mesma coisa igualmente estúpida) para achar que quando os serviços públicos funcionam mal, isso é porque há muita gente a incomodar os funcionários.

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  22. Sou profissional liberal e no exercício da minha actividade tenho necessidade de, diariamente, me dirigir a serviços públicos. Em quase todos só há atendimento por marcação. Se assim não for, fica-se para ali à espera duma vaga, se aparecer. Desculpem, Srs. FP (a sigla significa Funcionários Públicos e não Filhos da Puta), mas os senhores, com o consentimento de outros FD ao mais alto nível, como ministros e etc., estão a pôr o país na merda.

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  23. Pela resposta de HPS já pode ver que o comportamento ignóbil é considerado normal. Infelizmente não consegue perceber que se houver 100 pessoas a fazer exactamente o que ele faz, o serviço fica um caos porque os "primos" para lhe satisfazerem o pedido têm de alterar as rotinas dos "primos" dos outros.

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  24. o portuga sempre deixou para o ultimo dia o que podia fazer com tempo daí as bixas 

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  25. Esqueceu-se de mudar a identidade para Maria, mas como já disse acima, o senhor é uma besta, razão pela qual deixarei de lhe responder.

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  26. Eu assumo aquilo que digo, não preciso de mudar a identidade para nada, aliás por aqui se vê a sua perspicácia a analisar situações. 
    Talvez por estar habituado a que toda a gente lhe diga "sim" mas se sair da sua bolha vai ver que a realidade é diferente.

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  27. Na semana das JMJ parece que impediram umas dezenas de entrar no país. 
    E sem o sef não vai melhorar. 

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