Nuno Crato dá hoje uma entrevista, por escrito, ao Público, mas o Público, na chamada de primeira página, prefere destacar a página anterior à entrevista, onde está uma brincadeira irrelevante sobre números.
No primeiro dia de inscrição para candidatura ao ensino superior, inscreveram-se menos de 400 pessoas, contra dez mil no ano anterior, no segundo dia há 2722 em vez dos 16339 do ano passado. Se alguém quer dar importância a isto, então talvez fosse melhor notar que, dadas as confusões, no primeiro dia inscreveu-se 4% do primeiro dia do ano passado, percentagem que subiu para mais de 16% no segundo dia, mas isto é o tipo de brincadeiras com números que não tem interesse nenhum.
O relevante é o Público achar que para fazer uma chamada de primeira página, é melhor alimentar a fantasia de que há uma enorme desconfiança no processo que se traduz numa recusa de candidatura ao ensino superior, em vez de destacar a entrevista de Nuno Crato, onde ele claramente assume uma diferença política estratégica com Fernando Alexandre.
A jornalista que faz a entrevista é a militante o Público destacou para alimentar e a alimentar-se da ideia de caos no ministério da educação, e por isso todas as perguntas, que às vezes são maiores que as respostas, se centram no drama, no horror, na tragédia que ocorre no Ministério da Educação a propósito de exames.
Nuno Crato, a responder por escrito, isto é, com grande margem de ponderação, não alimenta esta tolice, e diz que a opção de Fernando Alexandre é arriscada e pouco interessante porque quer reformar uma coisas irreformável (o ministério da educação), em vez de se concentrar nas discussões que Nuno Crato acha relevantes, como curricula, metas curriculares e outras questões de fundo.
Infelizmente para nós, a jornalista não está nada interessada nesta diferença de pontos de vista, o que Nuno Crato, típico de um académico da pedagogia e a de Fernando Alexandre, típica de um gestor que entende que não consegue gerir nada com o grau de ineficiência do ministério que tutela.
Digo infelizmente porque esta é uma discussão que vale mesmo a pena, de resto, discordando do derrotismo de Nuno Crato, em especial do seu argumento de que não vale a pena procurar ganhar eficiência porque é muito arriscado, também tenho reservas em relação à opção de Fernando Alexandre, um genuíno social-democrata que não quer avançar num sentido, esse sim, muito arriscado e a que sei que falta apoio social, mais liberal, transferindo para as escolas e as comunidades capacidade de decisão que hoje depende do Ministério da Educação.
Por exemplo, para que raio andamos nós a discutir mecanismos centralizados de acesso ao ensino superior, em vez de deixar cada escola definir os seus critérios, da forma como entenderem?
Uma das razões aparece bem clara nas perguntas da jornalista a Nuno Crato e na opção do Público chamar à primeira página uma irrelevância sobre números transitórios que podem servir a tese do jornal, em vez de chamar a entrevista de Nuno Crato: o jornalismo está completamente viciado na pequena política e no "viver como habitualmente" (já agora, frase cujo sentido é frequentemente deturpado, como estou a fazer agora, por raramente ser lida no contexto em que Salazar a disse), de tal maneira que optar por fazer seja o que for, o que eu defendo, o que Nuno Crato defende, o que Fernando Alexandre defende, se torna incomparavelmente mais tóxico, politicamente, que dizer umas lérias e não fazer nada.
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