domingo, 19 de julho de 2026

Os professores que admiro e a classe que me desilude

 Todas as profissões têm a sua dignidade. No entanto, há profissões — ou, mais do que isso, verdadeiras vocações — pelas quais tenho um apreço muito especial. Médicos e enfermeiros, sacerdotes católicos e professores estão entre elas. Cuidam da nossa saúde física, da nossa vida espiritual e da nossa formação. Em boa medida, ajudam-nos a tornarmo-nos naquilo que somos.


No que respeita aos educadores e professores, conservo, desde o jardim de infância até à universidade, recordações quase fotográficas daqueles que mais me marcaram. Tive professores extraordinários, alguns dos quais se transformaram em verdadeiras referências para a vida.

É precisamente por isso que a excelente impressão que tenho dos professores, considerados individualmente, é inversamente proporcional à péssima impressão que tenho da classe docente enquanto coletivo, em especial no ensino público.

Deixaram-se capturar, por sua livre vontade, por uma estrutura sindical, a FENPROF, que não passa de uma correia de transmissão de um partido político, o PCP, um partido cúmplice de algumas das piores ditaduras da História. Ainda ensaiaram uma aproximação a outro radicalismo, desta vez através de André Pestana e do sindicato STOP, confirmando uma preocupante deriva de radicalização.

Os professores serão, provavelmente a par dos maquinistas do Metropolitano de Lisboa, a classe profissional que mais recorre à greve. E em cada uma dessas greves, quase sempre decididas com uma ligeireza desconcertante, quem mais perde são os alunos da escola pública. Os alunos dos colégios privados continuam a ter aulas, continuam a aprender e continuam a ganhar vantagem competitiva.

É impossível que os professores não tenham consciência disto. Sabem perfeitamente que cada greve amplia as desigualdades entre quem pode pagar uma escola privada e quem depende exclusivamente da escola pública. Sabem que são os alunos mais desfavorecidos os primeiros a pagar a fatura. E, apesar disso, continuam a utilizá-los, de forma absolutamente leviana, como instrumento de pressão sindical.

Os mesmos professores que hoje aparecem nas televisões, de ar muito compungido, a falar da ansiedade, da angústia e do sofrimento dos alunos perante o caos das avaliações, são os mesmos que, durante anos, não hesitaram em transformar esses mesmos alunos em carne para canhão das suas lutas sindicais.

Em 17 de junho de 2013, a própria FENPROF gabava-se, ufana, de que cerca de 23 mil alunos não tinham conseguido realizar o exame nacional de Português, obrigando-os a fazê-lo apenas a 2 de julho.

Em junho de 2018, uma greve às avaliações fez com que, dos cerca de 160 mil alunos que realizaram exames nacionais do 11.º e 12.º anos, 36.700 fossem obrigados a fazê-los sem conhecer as suas classificações internas.

Em 2023, uma plataforma de nove estruturas sindicais voltou a anunciar greves às avaliações finais e às tarefas relacionadas com provas e exames.

Nessas alturas, não houve qualquer preocupação com a ansiedade dos alunos. Não houve entrevistas carregadas de emoção. Não houve discursos sobre o sofrimento dos jovens. Não houve lágrimas. Ou melhor, não houve as lágrimas de crocodilo que agora inundam os ecrãs das televisões.

Basta percorrer as redes sociais para encontrar professores que parecem torcer para que tudo corra mal. Quanto maior for o caos, quanto mais falhar o processo de exames, maior será o argumento contra o Governo. Em demasiados casos, já não parecem estar do lado da solução; parecem desejar o agravamento do problema.

Continuo, ainda assim, convencido de que esses professores são muito mais visíveis do que representativos. Beneficiam de uma extraordinária ubiquidade mediática. Num dia aparecem como professores. No seguinte como sindicalistas. Depois como dirigentes da Climáximo. A seguir como ativistas do Bloco de Esquerda ou do PCP. Logo depois como representantes de associações de utentes ou como simples encarregados de educação. Mudam de chapéu conforme a ocasião, mas chegam quase sempre aos mesmos estúdios de televisão e às mesmas redações.

Essa omnipresença cria a ilusão de que representam a generalidade dos professores, quando estou convencido de que representam apenas uma minoria particularmente organizada, particularmente ruidosa e extraordinariamente eficaz a ocupar o espaço mediático.

Quero, por isso, terminar exatamente como comecei.

Continuo a ter um enorme respeito e uma profunda gratidão pelos professores que tive. Muitos ajudaram a formar a pessoa que hoje sou e jamais esquecerei aquilo que lhes devo.

Mas tenho cada vez menos respeito por uma classe que se deixou capturar por estruturas sindicais e políticas que, demasiadas vezes, colocam a luta ideológica acima do interesse dos alunos.

E quando hoje vejo alguns desses mesmos protagonistas aparecerem de ar muito compungido, a dizer-se preocupados com a ansiedade dos estudantes, não consigo deixar de recordar uma verdade simples: quem, durante anos, utilizou os alunos como arma de arremesso nas suas lutas sindicais tem pouca autoridade moral para agora se apresentar como o seu grande defensor.

5 comentários:

  1. Extraordinário este texto.

    Devia ser publicado amanhã, com destaque, na primeira página de todos os jornais do País




    ResponderEliminar
  2. Concordo inteiramente com o texto.
    É uma perplexidade que tenho há imenso tempo, como é que grande parte, de uma classe profissional, sempre fundamental para o futuro de Portugal, se deixa controlar por sindicalistas militantes de ideologias totalitárias, completamente desacreditadas pelos miseráveis resultados económicos, sociais e horríveis crimes cometidos contra a humanidade, nos paises onde essas ideologias foram poder.
    Quem tem a culpa desta situação?
    É o centralismo do ministério da educação?
    São os governos que complacentes com a situação não estudam mudanças?
    Serão as escolas onde os professores se formam madrassas ideológicas totalitárias?
    Não há alternativas?

    ResponderEliminar
  3. "...Deixaram-se capturar, por sua livre vontade, por uma estrutura sindical, a FENPROF, que não passa de uma correia de transmissão de um partido político, o PCP..."
    "...Os mesmos professores que hoje aparecem nas televisões, de ar muito compungido, a falar da ansiedade, da angústia e do sofrimento dos alunos perante o caos das avaliações, são os mesmos que, durante anos, não hesitaram em transformar esses mesmos alunos em carne para canhão das suas lutas sindicais..."
    Corroboro! Pena que, de facto, os professores se deixem capturar por estes interesses de quem não quer largar o osso. Para além das inegáveis trapalhadas, e isso é outra história, a FENPROF e acólitos não querem mesmo que se mexa no status quo, nem valorizar reformas ou mudanças que possam contribuir para o seu esvaziamento.

    ResponderEliminar
  4. O problema não é a classe dos professores, o problema é o sindicato dos professores.
    Tal como o problema não são os médicos, o problema é a Ordem dos Médicos.
    O problema consiste em essas instituições extravazarem as suas funções e armarem-se em críticos da política governativa.
    A função do sindicato dos professores deveria ser exclusivamente defender os interesses laborais dos professores; não criticar a poítica governativa de educação.

    ResponderEliminar

Os professores que admiro e a classe que me desilude

  Todas as profissões têm a sua dignidade. No entanto, há profissões — ou, mais do que isso, verdadeiras vocações — pelas quais tenho um apr...