sábado, 18 de julho de 2026

O caos na educação

Está consolidada a mais recente opção jornalística em matéria de escrutínio do poder, a ideia de que há um caos na educação.

Em que se traduz esse caos?

Três dias de atraso na publicação das notas do secundário (e ainda o atraso das notas do nono ano).

Os governos do PS comprometeram-se politicamente com um processo de digitalização do processo de correcção dos exames (tenho ideia de que se comprometeram com a digitalização total do processo, mas não tenho a certeza e portanto vamos deixar a questão dos alunos fazerem os exames electronicamente para outra altura).

O actual ministro (ou ainda o anterior, não sei bem) optou por não digitalizar a realização dos exames mas avançar com a digitalização da correcção, optando pela solução de digitalizar as provas em papel e montar um sistema de correcção a partir daí.

Um primeiro teste foi feito no ano anterior, numa disciplina, tendo sido identificados muitos problemas que, presumo, alguém terá analisado e corrigido (não sei, ainda não apareceu aqui ninguém que tivesse informação verificável demonstrando que o que é lógico e normal não se verificou tendo sido substituído pela grosseira negligência de ninguém ter ligado nenhuma aos erros detectados, repetindo-os, por razões que ninguém explica).

O processo foi generalizado este ano e, pelo que percebi da entrevista que ontem ouvi do ministro, houve inicialmente um problema de software que provocou uma série de problemas na distribuição e alocação das provas aos classificadores e ficou tudo ensarilhado.

Aparentemente, o ministério demorou alguns dias a perceber a dimensão dos problemas, pelo que demorou uma semana a contratar a Deloitte para apoiar tecnicamente o processo de maneira a ir resolvendo os problemas, numa situação que já estava ensarilhada.

Com isso tudo, o ministro, porque foi ele, contra o parecer dos serviços, decidiu adiar por três dias o prazo de publicação das notas e, com maiores ou menores dificuldades (é inacreditável que o júri nacional de exames inscreva 500 professores classificadores que depois não corrigem prova nenhuma, ao mesmo tempo que há professores a dizer que estão disponíveis para classificar provas e não sejam inscritos, a ser assim, é evidente que isto tem de ser verificado e compreendido, mas estranhamente não parece suscitar perguntas aos jornalistas), o prazo foi cumprido.

Pelo meio, há um conjunto de agentes políticos (Missão Escola Pública, Filinto Lima, FENPROF, activistas vários, reaccionários militantes no mastodôntico ministério da educação, etc., etc., etc.) que alimentam uma opção jornalística racional: vender emoções a pais e alunos nervosos com a sua situação, fabricando um caos onde existe um ensarilhamento que está paulatinamente a ser resolvido.

Ouvir apenas (ou sobretudo) os classificadores militantes que dizem o que for preciso para fazer avançar as suas agendas políticas e pessoais, dar relevância a hipóteses sobre o que pode correr mal, independentemente da sua plausibilidade, omitir totalmente os ganhos para todos que advêm do novo processo de classificação de exames, focar-se na pequena falha (se se afixam as pautas em papel ou não, omitindo que há a possibilidade de consulta on line, por exemplo, ou valorizar as centenas de notas suspensas em detrimento das centenas de milhar publicadas, enfim, é ver as técnicas todas de apimentar a coisa que a imprensa tem vindo a usar, incluindo inventar títulos sobre entrevistas que não estão fundamentados nas notícias nem na entrevista sobre que falam as notícias).

E pronto, está montada a caldeirada mediática.

A prazo o resultado é ampliar o medo dos políticos tomarem decisões arriscadas (as outras, normalmente, não mudam nada de essencial), a descredibilização do jornalismo.

Para já, Fernando Alexandre sairá imensamente reforçado se as coisas agora, na segunda fase, correrem sem grandes sobressaltos.

1 comentário:

  1. Excelente análise, factual. Muito mais que qualquer peça jornalística, em papel ou tv, que sem saber de certeza todos os factos tiram conclusões baseadas nas suas posições ideológicas.
    Serviço público aqui

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