Há algum tempo que insisto na urgência de se resgatar, no Ocidente cristão, uma narrativa que contrarie décadas de desconstrução e crítica às instituições tradicionais, como a Família. Os resultados dessa erosão cultural estão à vista de todos: uma sociedade hiperindividualista, estéril, profundamente fragmentada, composta por indivíduos que morrem sós e fragilizados perante o Grande Leviatã. No pós-Segunda Guerra, o cinema e a televisão souberam criar esse imaginário agregador, contribuindo até para o baby boom dos anos 50 e 60. Foi mesmo no final dessa vaga que surgiu a longa (205 episódios!) adaptação televisiva de A Casa na Pradaria (1974), protagonizada por Michael Landon. Quando a série chegou a Portugal, nos anos 80, eu era um jovem adolescente com interesses mais arriscados do que ver televisão. Ainda assim, ficou-me a memória de uma versão açucarada e sentimental da história.
A nova adaptação da Netflix, contudo, afasta-se desse tom aveludado. Baseada nos romances autobiográficos dos anos 30 de Laura Ingalls Wilder, a série de oito episódios acompanha a breve e dura passagem da sua família pelo Kansas. Se, por um lado, o argumento não esconde as contradições e o lado sombrio da colonização, por outro, assume-se “desavergonhadamente” como um hino ao comunitarismo, à família e à moral cristã. É a idealização do sonho americano — assente na liberdade, na livre iniciativa e na igualdade de oportunidades — erguida na forma de uma rústica casa de madeira.
Ao contrário da versão dos anos 70, a crueldade da natureza e da História não é aligeirada. A tensão com a tribo indígena dos Osage é retratada sem a romantização do “bom selvagem” — num momento tenso, dois jovens nativos invadem a casa dos Ingalls, confrontando com surpreendente insolência a mãe e as filhas para roubar mantimentos, com o argumento de que aquele território lhes pertence. Mais tarde, a mesma tribo surge como vítima de negociatas governamentais opacas, forçada a abandonar as suas terras. A par disso, a hostilidade do Oeste manifesta-se assustadoramente no encontro de Laura com uma matilha de lobos, nos incêndios que rondam a cidade de Independence ou na travessia perigosa de um rio. Tudo isto é emoldurado por uma fotografia soberba, paisagens de cortar a respiração e uma reconstituição histórica bastante rigorosa, onde talvez apenas os trajes femininos pecassem por excesso de vivacidade perante uma realidade tão austera.
Num momento em que os Estados Unidos celebram os 250 anos da sua independência (declarada em 1776, embora a série nos transporte para o ambiente de 1876), e arrisco dizer como nós, vivem uma crise de identidade, esta produção surge como um pretexto ideal para reunir as famílias em redor do ecrã. Resta saber: haverá hoje famílias e miúdos dispostos a acompanhar uma narrativa de aventura que, em vez de respostas fáceis, prefere expor ambiguidades e dilemas morais profundamente humanos?
Fica o desafio.
Publicado no Observador

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