sexta-feira, 24 de julho de 2026

O regresso à pradaria


Há algum tempo que insisto na urgência de se resgatar, no Ocidente cristão, uma narrativa que contrarie décadas de desconstrução e crítica às instituições tradicionais, como a Família. Os resultados dessa erosão cultural estão à vista de todos: uma sociedade hiperindividualista, estéril, profundamente fragmentada, composta por indivíduos que morrem sós e fragilizados perante o Grande Leviatã. No pós-Segunda Guerra, o cinema e a televisão souberam criar esse imaginário agregador, contribuindo até para o baby boom dos anos 50 e 60. Foi mesmo no final dessa vaga que surgiu a longa (205 episódios!) adaptação televisiva de A Casa na Pradaria (1974), protagonizada por Michael Landon. Quando a série chegou a Portugal, nos anos 80, eu era um jovem adolescente com interesses mais arriscados do que ver televisão. Ainda assim, ficou-me a memória de uma versão açucarada e sentimental da história.

A nova adaptação da Netflix, contudo, afasta-se desse tom aveludado. Baseada nos romances autobiográficos dos anos 30 de Laura Ingalls Wilder, a série de oito episódios acompanha a breve e dura passagem da sua família pelo Kansas. Se, por um lado, o argumento não esconde as contradições e o lado sombrio da colonização, por outro, assume-se “desavergonhadamente” como um hino ao comunitarismo, à família e à moral cristã. É a idealização do sonho americano — assente na liberdade, na livre iniciativa e na igualdade de oportunidades — erguida na forma de uma rústica casa de madeira.

Esta versão eleva-se acima do mero entretenimento familiar graças à densidade das suas personagens. O patriarca Charles Ingalls (Luke Bracey) surge atormentado pelas memórias do suicídio do irmão, decorrente dos traumas da Guerra Civil. Ele é mais do que um corajoso carpinteiro; é um homem em fuga do passado que luta por uma nova vida. Ao seu lado, a sua mulher Caroline (Crosby Fitzgerald) exibe uma comovente e resiliente beleza campestre, enquanto a jovem Laura (Alice Halsey) brilha com uma interpretação fabulosa, cheia de atrevimento e esperteza. A faceta mais sombria da fronteira reflecte-se na figura rústica de Isaiah Edwards (Warren Christie). Longe do tom bonacheirão do passado, o “Sr. Edwards” desta reedição é um homem profundamente marcado pelo vício do álcool, cujos demónios internos testam os limites da solidariedade daquela comunidade. Já a mundividência da actualidade reflete-se, por exemplo, na abordagem ao tema do racismo através do Dr. Tann (Jocko Sims), o médico da região que é negro. 

 Ao contrário da versão dos anos 70, a crueldade da natureza e da História não é aligeirada. A tensão com a tribo indígena dos Osage é retratada sem a romantização do “bom selvagem” — num momento tenso, dois jovens nativos invadem a casa dos Ingalls, confrontando com surpreendente insolência a mãe e as filhas para roubar mantimentos, com o argumento de que aquele território lhes pertence. Mais tarde, a mesma tribo surge como vítima de negociatas governamentais opacas, forçada a abandonar as suas terras. A par disso, a hostilidade do Oeste manifesta-se assustadoramente no encontro de Laura com uma matilha de lobos, nos incêndios que rondam a cidade de Independence ou na travessia perigosa de um rio. Tudo isto é emoldurado por uma fotografia soberba, paisagens de cortar a respiração e uma reconstituição histórica bastante rigorosa, onde talvez apenas os trajes femininos pecassem por excesso de vivacidade perante uma realidade tão austera. 

 Num momento em que os Estados Unidos celebram os 250 anos da sua independência (declarada em 1776, embora a série nos transporte para o ambiente de 1876), e arrisco dizer como nós, vivem uma crise de identidade, esta produção surge como um pretexto ideal para reunir as famílias em redor do ecrã. Resta saber: haverá hoje famílias e miúdos dispostos a acompanhar uma narrativa de aventura que, em vez de respostas fáceis, prefere expor ambiguidades e dilemas morais profundamente humanos? 

Fica o desafio. 

Publicado no Observador

8 comentários:

  1. esta produção surge como um pretexto ideal para reunir as famílias em redor do ecrã

    Ver televisão dá-me sono. A família que se reúna à vontade à volta do écrã, mas não conte comigo.

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  2. no Ocidente cristão

    O Ocidente atualmente não é cristão. Pelo menos na Europa, cerca de metade das pessoas não são cristãs; boa parte dela está-se nas tintas para a vida espiritual, outra parte é de outras religiões (predominantemente o Islão).

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  3. A maioria dos telespectadores, mesmo quando consegue ler as legendas, tem dificuldade em entender o que está a ler.

    E também estou farto de ouvir lamentos porque quando conseguem ler duas palavras, a legenda já desapareceu.

    Acredite, só a rasquice cola nas massas.

    Porque pensa que nos hospitais as TVs estão sempre ligadas naquelas coisas tristes da TV publica, com muita música xunga e meninas a dançar ??



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    1. Recentemente estive 4 dias internado num hospital público. A TV do meu quarto estava quase sempre desligada. Nem eu nem os meus companheiros de quarto (quatro pessoas no total), manifestava interesse em tê-la ligada. E ninguém no obrigava a tê-la ligada.

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    2. Pois eu estive internado uns dias e a TV esteve ligada dia e noite, felizmente sem som.

      Também, devo dizer, estava colocada num plano elevado de modo que se não se olhasse directamente, não incomodava.

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  4. Entretanto, em Almada o bebé morreu, num carro com os vidros fechados (penso que o sistema de ventilação também estaria fechado, dado o horror nacional a ares circulantes, as famosas correntes de ar) á porta da creche.

    Se alguém começar a pensar nos pormenores desta história incrível neste país de pandeireta, ou dá em rir desalmadamente, ou começa a chorar ou as duas coisas

    Senão vejamos;

    Creche. Creche ??

    Motorista. Motorista ??

    Que paízeco xunga






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  5. "resgatar, no Ocidente cristão, uma narrativa que contrarie décadas de desconstrução e crítica às instituições tradicionais, como a Família"

    Cero, vamos resgatar essa narrativa, mas não chega, é preciso destruir o marxismo/socialismo/comunismo, etc. muito rapidamente, e nada melhor do que implementar, rapidamente e m força, reformas estruturais a começar, repito, a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos seguindo-se outras reformas estruturais.


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  6. ver americanices ??? já dei para esse peditório e não volto a dar.

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