sexta-feira, 24 de julho de 2026

Que triste, triste, comentariado

Susana Peralta, no mesmo estilo exaltado e de auto-evidência com que exigiu o encerramento das escolas ao mais leve sinal de Covid, para depois passar meses a criticar a manutenção do seu fecho, resolveu escrever hoje no Público um balanço muito útil das questões à volta dos exames nacionais.

Útil e exemplar, não porque seja útil para a discussão do assunto, mas porque resume bem o que tem sido a conversa mediática sobre a matéria, nas suas omissões, nas suas falsidades, nas suas interpretações criativas e no uso sistemático de duplo critério na análise de declarações de responsáveis políticos.

Como Susana Peralta é mais sólida e articulada que a Fenprof, a maioria dos jornalistas e os responsáveis da oposição, é excelente como demonstração de como a cegueira política afecta as pessoas mais bem preparadas.

A tese central é a de que "a empatia pelos miúdos e miúdas ... foi engolida pela (ambição) política".

A tese, em si, parece-me intelectualmente indigente, para ela ter validade seria preciso que o ministro soubesse que as coisas iam correr mal e se estivesse nas tintas porque queria aplicar uma política, mesmo que à custa de problemas que afectam milhares de eleitores (a esquerda dos gambuzinos tem muito esta tese dos maus e dos bons, políticos que dependem de eleitorados têm uma espécie de prazer sádico em torturar esses eleitorados, como fez Passos Coelho).

Comecemos pelas omissões do artigo.

Qual era o objectivo da dita ambição?

O artigo omite completamente toda essa discussão e omite que a digitalização dos exames é um processo que decorre há alguns anos, querendo o governo anterior digitalizar a própria realização dos exames, objectivo que foi travado por este governo, que achou preferível digitalizar apenas o processo de classificação.

A crítica a uma decisão precipitada e mal preparada é uma crítica perfeitamente razoável (com o que sei hoje, não estou convencido disso, mas é preciso manter essa hipótese, até ser demonstrado o contrário), mas para avaliar essa crítica, é preciso medir custos (e as razões desses custos) e benefícios.

Optar por omitir qualquer referência aos benefícios potenciais da política substituindo-as por um processo de intenções ao ministro é típico de uma argumentação populista irracional.

A segunda omissão relevante é da avaliação generalizada (generalizada não quer dizer unânime, caros comentadores, poupem-me os exemplos de classificadores que dizem coisas diferentes ou, a esmagadora maioria que, provavelmente, não diz nada publicamente) dos professores classificadores no sentido dos ganhos processuais da "operação logística" como frequentemente se chama à alteração do processo de classificação dos exames.

A opção por se focar apenas nos custos, que Susana Peralta atribui à falta de empatia pelos "miúdos e miúdas", tem sido a pedra de toque da discussão, de forma generalizada, mas como é curto, é preciso ir buscar coisas irrelevantes, como o que diz Sebastião Bugalho, por exemplo, para transformar num caos o que são dificuldades de gestão de um processo complexo.

Insistir que o piloto de filosofia correu mal (com base em que informação Susana Peralta resolve manter esta ideia favorável à sua tese? Nos problemas reportados pela imprensa na altura, de que cuidadosamente Susana Peralta não dá nenhum exemplo), que foi inventada uma regra nova para classificações que desçam abaixo de 9,5 por correcção de erros e reclassificações (caramba, a plataforma de inteligência artificial mais básica explica o que toda a gente sabe, desde sempre: "Nos regulamentos dos exames nacionais do Júri Nacional de Exames (JNE), existe historicamente a salvaguarda de que o pedido de reapreciação de uma prova não pode resultar numa despromoção que prejudique o aluno a ponto de inverter a sua aprovação original injustamente, ou proteções específicas para mitigar descidas em situações de erro apurado"), a insistência na fantasia de que o ministro culpou os agrafos (o ministro falou de problemas de leituras do QRCODE, que foi de facto o problema maior que existiu, por deficiências do software usado, e deu o exemplo de escolas que agrafaram provas em cima dos QRCODE, contra as regras estabelecidas), etc., etc., etc., são bem o exemplo de um comentariado para quem a realidade é mais ou menos irrelevante, quando é preciso defender uma tese.

Considerar ridículo que se tenha voltado aos papéis para resolver problemas de digitalização que poderiam ser evitados da mesma forma que é sempre possível acertar no número da lotaria, desde que se espere pelo dia seguinte, em vez de interpretar como um cuidado extra, que saiu do trabalho e empenho extra dos digitalizadores, para haver certezas de que não se prejudicavam os alunos, é de bradar aos Céus.

Por mim, espero impacientemente que grande parte destes comentadores e jornalistas tenham de gerir alguma coisa, e depois voltem ao comentariado, para ver se têm a dignidade de Nuno Crato, que discordando politicamente do Ministro, manteve-se num nível de discussão racional, não populista e, esse sim, com utilidade social.

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