"a pessoa que está em casa e sem atividade profissional não ter uma fonte de rendimento que lhe permita ter a escolha de abandonar o lar, se necessário. Independentemente do resto, isso é, objetivamente, um handicap. Alguém que nunca esteve no mercado de trabalho (ou que está há anos fora dele) e que queira sair de uma relação está numa situação de inferioridade evidente".
Este comentário é muito interessante e vale a pena olhar para ele com atenção, até por ser uma ideia comum, a de que a gestão familiar é um handicap profissional que desvaloriza profissionalmente uma pessoa, pelo que o membro da família que opta para dedicar o seu tempo à gestão familiar está numa situação de inferioridade evidente.
Note-se que este argumento é válido para quem dedique tempo a qualquer outra coisa que não a sua carreira e o seu curriculum, sendo um argumento que parte do princípio de que as carreiras profissionais são evoluções lineares de acumulação de vantagens futuras, o que está longe de ser indiscutível.
Para algumas carreiras, com carreiras académicas que vivem da acumulação progressiva de "pontos" reconhecidos por estruturas rígidas de progressão, o argumento é bastante válido.
Para muitas outras carreiras, pelo contrário, a experiência da gestão familiar pode ser uma grande vantagem profissional, como em carreiras de vendas, por exemplo.
O mais interessante, no entanto, é a dificuldade em sair da visão baseada na vantagem individual, face ao contributo para a família e, por essa via, para a sociedade.
Esse é o ponto central, famílias estruturadas e razoavelmente estáveis em prazos relativamente longos representam um grande activo social.
Uma coisa é reconhecer-se o custo de não ter uma carreira linear, com mudanças de percurso, com alterações de funções e todas essas coisas que trazem incerteza ao futuro profissional de qualquer pessoa (o que não quer dizer que não tragam também vantagens em muitas carreiras) e, consequentemente, reconhecer que a opção pela dedicação do tempo e capacidades à família poder ter um custo futuro relevante para quem faça essa opção, outra coisa é concluir que para evitar essa desvantagem a melhor solução é nunca fazer a opção de valorizar mais a família que a carreira.
Reconhecer esse custo pode significar que vale a pena discutir as políticas públicas que existem actualmente e penso que a forma como tratamos o desemprego é uma boa analogia.
Quando alguém fica desempregado, tem direito a apoios sociais e a políticas públicas de retorno à actividade profissional, incluindo formação profissional e outro tipo de apoios que facilitam a reconversão profissional, quando é caso disso.
Por que razão essa opção não existe para quem queira dedicar-se à família?
A verdade é que há valor social na gestão familiar, na presença junto dos filhos, etc., e também é verdade que as circunstâncias de cada família mudam com o tempo (por exemplo, há apoios que só existem enquanto há filhos até aos dois anos, há outros que só existem enquanto há filhos até aos doze anos, o que significa que é possível desenhar apoios para as diferentes fases das diferentes famílias, sendo a existência ou não de filhos uma questão relevante).
Sem reconhecer esse valor, incluindo no momento da contratação posterior, reconhecendo a gestão familiar como dando competências que dificilmente podem ser negadas, é claro que é difícil desenhar políticas que valorizem as famílias.
E as pessoas, querendo ou não, acabem empurradas para modelos familiares socialmente sub-óptimos.
A oposição ideológica à ideia de que escolher a dedicação à família como uma opção profissional legítima e razoável, parece-me a maior dificuldade nesta discussão.
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