terça-feira, 30 de junho de 2026

Criação de riqueza não é apropriação de riqueza

Elon Musk terá sido a primeira pessoa cuja fortuna foi avaliada em mais de um bilião de dólares na notação portuguesa (ou um trillion na notação americana).
Pelo que li, isso incomodou muita gente. No entanto, penso que muitos dos argumentos normalmente invocados para condenar uma fortuna desta dimensão não fazem grande sentido, pelo menos do ponto de vista económico.
O único argumento de fundo com o qual consigo concordar, ainda que apenas parcialmente, é o de que pessoas extraordinariamente ricas podem constituir um risco para a democracia. Quem controla quantidades gigantescas de capital dispõe inevitavelmente de uma enorme capacidade de influência, influência essa que não resulta de qualquer escrutínio democrático.
Esse argumento tem alguma consistência histórica. No início do século XX, quando os grandes capitães da indústria americana, aqueles que povoam o imaginário popular de cartola e charuto, concentravam um poder económico sem precedentes, o Presidente Theodore Roosevelt lançou uma ofensiva política e jurídica contra os grandes monopólios, recorrendo à legislação antitrust para desmantelar alguns dos maiores conglomerados da época.
E convém recordar que Roosevelt não era propriamente um "perigoso esquerdista". Era um republicano conservador que acreditava profundamente no capitalismo, mas também na regulação dos monopólios, na proteção dos consumidores, na conservação ambiental, na fiscalização das condições de trabalho e na intervenção do Estado sempre que o interesse público o justificasse.
Fora este argumento, porém, vejo poucos motivos sólidos para condenar a existência de fortunas como a de Musk. Pelo contrário, encontro vários argumentos a favor.
Comecemos pela origem dessa riqueza.
Ao contrário do imaginário popular, Musk não possui um bilião de dólares depositado numa conta bancária. Muito pelo contrário. Enquanto empresário e investidor, a maior parte do seu património encontra-se imobilizada nas participações que detém nas suas empresas.
Nem a Tesla nem a SpaceX distribuíram dividendos aos seus acionistas. Durante anos, a Tesla reinvestiu praticamente todos os lucros na expansão do negócio e a SpaceX continua a consumir enormes quantidades de capital para financiar o seu crescimento e os seus projetos tecnológicos.
Então porque é que Musk "vale" tanto?
Porque os investidores acreditam que essas empresas produzirão, no futuro, fluxos de caixa muito superiores aos atuais. Em boa medida, o valor de mercado dessas empresas representa uma aposta coletiva de que elas terão um papel determinante nas próximas décadas.
Estas empresas possuem relativamente poucos ativos físicos quando comparadas com empresas industriais tradicionais. O seu principal ativo é o conhecimento, a tecnologia, a capacidade de inovação e a concentração de capital humano altamente qualificado. Em larga medida, a valorização de Musk corresponde ao valor que o mercado atribui à sua capacidade de criar empresas inovadoras, atrair talento e mobilizar investidores.
Isto distingue-o profundamente dos oligarcas russos ou dos cleptocratas de alguns países ricos em recursos naturais, que acumularam património através da captura do Estado ou da apropriação de riqueza coletiva. Os grandes magnatas tecnológicos criaram empresas que geraram valor económico novo. Não se limitaram a redistribuir, em seu favor, riqueza existente.
Repare-se que, em termos pessoais, nem sequer nutro especial simpatia por este tipo de figuras. São frequentemente pessoas extremamente competitivas, obcecadas pelo trabalho, pouco empáticas e com egos desmedidos. E os egos gigantescos nunca me despertaram grande admiração.
Mas essa é uma apreciação de caráter. O que aqui me interessa é a análise económica.
E, desse ponto de vista, é difícil sustentar a ideia, tantas vezes repetida nas redes sociais, de que a existência destas grandes fortunas explica a persistência da pobreza no mundo.
Não é por Musk ter criado a SpaceX, Bezos a Amazon ou Zuckerberg o Facebook que continuam a existir milhões de crianças sem acesso a condições de vida dignas.
A pobreza persiste sobretudo por razões como a cleptocracia, a corrupção, a guerra, a fragilidade institucional e a má governação, muitas vezes disfarçada sob a forma de populismo.
Existem vantagens em haver pessoas capazes de mobilizar enormes quantidades de capital?
Penso que sim.
Grande parte da inovação tecnológica exige investimentos colossais e de muito longo prazo. Desenvolver novos sistemas de mobilidade, como procura fazer a Tesla, criar uma indústria espacial privada, como pretende a SpaceX, ou desenvolver medicamentos revolucionários exige investimentos que ascendem a dezenas de milhares de milhões de dólares.
É precisamente aqui que surge um problema estrutural português.
Portugal sofre de um enorme défice de capital.
Ao contrário do que muitas vezes se imagina, há muito pouco capital disponível para financiar projetos empresariais verdadeiramente ambiciosos.
E convém distinguir riqueza ostensiva de capital transformador.
Riqueza ostensiva é haver meia dúzia de milionários que desfilam Ferraris, relógios de luxo e iates na marina de Vilamoura.
Mas três, cinco ou mesmo vinte milhões de euros representam muito pouco quando o objetivo é criar empresas de elevada intensidade tecnológica. Desenvolver um novo medicamento, construir uma fábrica de semicondutores, lançar uma constelação de satélites ou criar uma empresa de inteligência artificial capaz de competir globalmente exige frequentemente centenas de milhões ou mesmo milhares de milhões de euros.
É essa escala de capital que escasseia em Portugal.
Dinheiro "a sério" não é conseguir comprar um Ferrari. Dinheiro "a sério" é conseguir mobilizar recursos suficientes para impedir que as nossas melhores empresas sejam vendidas ao estrangeiro, financiar sucessivas rondas de investimento em empresas tecnológicas ou transformar investigação científica em empresas globais.
Como esse capital praticamente não existe, o investimento acaba por concentrar-se em atividades pouco intensivas em tecnologia; pastelarias, alojamento local, restauração ou frotas de Uber. São negócios perfeitamente legítimos, mas que dificilmente conseguem gerar salários elevados, ganhos significativos de produtividade ou empresas líderes à escala mundial.
O resultado está à vista: muitos dos nossos melhores profissionais acabam por emigrar, procurando desafios, financiamento e remunerações compatíveis com as suas qualificações, porque o ecossistema empresarial português, salvo raras exceções, simplesmente não dispõe da escala de capital necessária para os reter.
Naturalmente, uma cultura que tende a diabolizar a riqueza, alimentando frequentemente a inveja social e a suspeição perante quem cria grandes empresas, não favorece a acumulação de capital produtivo.
Isso explica uma parte do problema, mas não o explica por completo.
O insucesso de muitas políticas públicas, os incentivos errados transmitidos ao mercado, o triunfo de alguma demagogia política, o excesso de assistencialismo e a incapacidade das nossas elites para pensarem estrategicamente o desenvolvimento económico terão, provavelmente, um peso ainda maior.

4 comentários:

  1. Pois, é isto. E
    > a incapacidade das nossas elites para pensarem estrategicamente o desenvolvimento económico
    por um lado é das elites fracas, por outro do exército de burros semi-instruídos com umas cartilhas do profeta Marx, que quando vêem capital acumulado só zurram "mata! mata!" em coro.
    É difícil ter conversas produtivas com esse ruído de fundo.

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  2. Se a nossa classe política tivesse a literacia economico-financeira aqui exposta e a quisesse aplicar sem receio de perder votos, Portugal teria liderança e seria rico em menos de uma geração.
    Porém, continuamos no «vamos andando» de um país capitalista sem capital.

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  3. Desenvolver um novo medicamento [...] exige frequentemente centenas de milhões ou mesmo milhares de milhões de euros.

    Mais do que dinheiro, esse tipo de feitos exige sobretudo a capacidade de por muitas pessoas muito dotadas a colaborar eficazmente e produtivamente umas com as outras. Isso requer capacidades organizativas e de gestão muito grandes, o que é muito mais difícil do que amealhar o dinheiro necessário para investir.

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  4. Parabéns

    Este Post está excelente e o Parágrafo final é de antologia e meditação obrigatória.

    O Elon Musk vai dar á Humanidade a rede StarLink e acho muito bem que ganhe dinheiro com isso

    Parece-me que o mundo ganhará muito mais

    Claro que a malta da flotilha ao ver a caravana, vai começar a gritaria do costume.

    Mas a rede StarLink estará em órbita e nem saberá das tristes inexistências







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