quinta-feira, 25 de junho de 2026

Equívocos

"pôr um dos membros da família no centro, em vez de pôr a família no centro", É aquilo que qualquer liberal faz: põe o indivíduo ao centro, não o grupo do qual esse indivíduo faz parte".

Os comentários completamente despropositados de Luís Lavoura a propósito de questões marginais dos textos que lê são uma lenda na internet, sendo impossível acompanhar o nível médio de absurdo, delírio e desonestidade intelectual frequente (é preciso primeiro truncar o que os outros dizem, para conseguir encaixar um comentário aparentemente lógico e completamente delirante).

Este comentário, a propósito do costume de discutir a família partindo da ideia de que uma família é uma soma simples de indivíduos, evitando assim a discussão da família enquanto instituição formada por indivíduos livres, com certeza, mas com responsabilidades mútuas, é um bom exemplo de uma patetice sem grande utilidade a não ser esta, a de permitir realçar o erro de confundir o liberalismo com o individualismo.

Não é muito diferente da alegre ignorância da jovenzinha que, feliz pela sua inteligência e arejamento intelectual, resolve informar metade do seu partido que estão ali por engano, quem sabe é a menina, dizendo que liberal não é conservador.

O liberalismo clássico defende o indivíduo dos abusos do Estado, não põe o indivíduo num mundo em que não tem responsabilidades, pelo contrário, conhecendo a natureza humana, a responsabilização individual é central para que se consigam combater os abusos da intervenção do Estado na esfera individual sem os substituir por outros tipos de abuso.

Eu não conheço um único liberal que defenda o direito dos pais a maltratarem os filhos, os filhos são eles próprios indivíduos que têm direitos intrínsecos, mas também não conheço liberais que defendam a liberdade dos filhos não estudarem se não quiserem, antes de terem maturidade para fazer opções conscientes sobre o seu futuro.

Do mesmo modo, tirando uns quantos libertários (e, mesmo assim), não conheço liberais que não reconheçam o primado da lei e a consequente necessidade de instituições fortes que defendam a liberdade dos mais fracos dos abusos de poder do Estado, mas também dos abusos dos mais fortes (tenho ideia de que as mais eficazes leis anti-monopólio foram criadas e aplicadas com forte apoio liberal, dentro da lógica de limitação do abuso da posição dominante).

A socialização das crianças tem três caminhos centrais: 1) é feita sem regras nem instituições fortes, substituídas por gangues informais, prevalecendo a lei do mais forte, sem instituições que limitem o abuso sobre os mais fracos, que é o modelo dos miúdos de rua dos grupos sociais mais miseráveis; 2) é feito pelas famílias e pelo senso comum das comunidades em que se integram; 3) é feito pelo Estado.

A realidade concreta de cada comunidade está, de maneira geral, numa mistura, em diferentes proporções, destes três caminhos.

A senhora que feliz com a sua superioridade moral entende que liberal não é conservador, muito provavelmente, quando chega a altura de discutir o peso relativo destes três caminhos em situações concretas, diria, como Luís Lavoura, que o indivíduo tem prevalência sobre o grupo, portanto, o ideal é investir em creches para que os pais não sejam prejudicados pelas suas obrigações para com os filhos, e em lares de terceira idade para que os filhos não fiquem esmagados pelos cuidados de fim de vida dos pais.

É este o caminho que tem sido seguido, o da progressiva diluição da importância institucional das famílias, em especial das suas responsabilidades colectivas para com cada membro da família, substituindo a "caridadezinha" pelos direitos sociais individuais, assegurados, naturalmente, pelo Estado.

Não faço ideia se este caminho é inevitável, em grande parte será, pelo menos enquanto os estados de bem estar não falirem ao descobrir que o Estado é muito menos eficiente a prover serviços sociais de proximidade que as famílias e as comunidades em que existem.

O progressivo aumento do poder do Estado na educação e velhice, libertando os indivíduos do fardo familiar, tem vindo a permitir uma aparente melhoria do apoio social, argumenta-se, o que não deixa de ser um bocado estranho porque não se consegue perceber por que razão se diz que as crianças estão melhor nas creches que em casa (ou numa distribuição diferente entre o tempo da creche e da família), não se percebe com que base se diz que os velhos estão muito mais protegidos na sua fragilidade, nem se percebe como há sítios do mundo em que os números de sem abrigo e dependentes é impressionante face ao passado (não sejamos demagógicos, boa parte do aumento deste tipo de problemas resulta do facto das pessoas mais frágeis morrerem mais tarde nas actuais circunstâncias).

As discussões polarizadas, nesta matéria, são completamente inúteis, cada circunstância aconselha uma resposta que pode ser diferente da que é dada à pessoa ao lado, o que não faz sentido nenhum é não reconhecer o papel central da família (seja qual for o seu modelo concreto) na resposta social de proximidade.

Ou, respondendo à menina que acha que liberal não é conservador, o que não faz sentido é confundir um modelo liberal de sociedade com modelos individualistas, fortemente condicionados pelo wokismo dominante, que tem medo de tudo que vagamente possa estar relacionado com contextos institucionais que representam milhares de anos de experiência da humanidade.

Do conservadorismo também se pode dizer que funciona e faz falta a Portugal, mesmo a um Portugal liberal.

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