Dizia-se antigamente que a meteorologia era a arte de prever o tempo depois de ele ter acontecido. Hoje, na era do excesso de comunicação, transformou-se numa filial do drama grego. Bastam dois dias de calor acima da média no centro da Europa para que os ecrãs se inundem de gráficos a vermelho-sangue e termos sonoros como “cúpula de calor” ou “génese de intempérie”. A avaliar pelo tom alarmista dos especialistas de serviço, o cidadão comum deveria trancar-se em casa, cobrir as janelas com papel de alumínio e esperar pelo pior. Chegou-se ao ponto — herança, por certo, de traumas pandémicos mal resolvidos — de sugerir o fecho de escolas por causa dum pico de temperatura. Só uma sociedade anestesiada pelo excesso de conforto e pela fobia do risco se pode dar ao luxo de querer parar a vida produtiva porque o termómetro decidiu lembrar-nos de que estamos no Verão.
Felizmente, a natureza humana ainda é mais forte do que o medo enlatado dos telejornais. O medo vende, promove audiências, sabemos bem. A imagem recente dos parisienses, imunes aos relatórios de salubridade, a refrescarem-se alegremente nas águas do Sena e nos fontanários públicos é o mais belo hino à bonomia. O povo sabe, por puro instinto, que o sol é vida. E entre o sacrifício do calor e o cinzentismo de uma existência enclausurada, a escolha é óbvia – têm é de aprender a nadar. Além disso, para desespero dos profetas da desgraça, o tempo continua a ter a audácia de ser imprevisível: anunciam-se infernos tropicais e acordamos com uma brisa agradável; promete-se a secura de um sol inclemente e para quinta-feira já anuncia a chuva. O tempo, no fundo, continua a gozar connosco — e ainda bem, porque isso faz dele a conversa mais sedutora e emocional dos nossos dias. Reparaste como as noites estão amenas?
Temos a Primavera, que é um ensaio geral florido e promissor, onde a chuva e o sol se gladiam para anunciar os dias maiores, cada vez maiores. E depois explode o Verão, essa estação luminosa e sensual, onde os corpos perdem a vergonha, os tecidos encolhem e as esplanadas e praias se enchem num hino à frivolidade e às aparências. É um tempo excessivo, sim, mas deliciosamente vital.
Mas a beleza do nosso cardápio climático é que a euforia nunca é eterna. O Outono chega sempre a tempo de nos recolher, acalmar para os deveres, preparando-nos para o fechamento que o Inverno exige. É na recolha do frio e das chuvas persistentes que a rotina produtiva se reorganiza — nas escolas, nas fábricas, nos escritórios. Sem excessos de distracções da rua, encamisolados, bem atabafados, somos empurrados para o interior, para uma introspecção necessária – o exterior já não brilha tanto. O Inverno é a democracia para os corpos desavergonhados da praia. É então que a tristeza que às vezes nos espreita de dentro (ou simplesmente o tédio), indisfarçável, não é um defeito de fabrico; é o solo fértil onde cresce a intimidade, a reflexão e o conhecimento.
Os portugueses terão, por certo, imensos defeitos, e o nosso território não será o mais rico ou produtivo, antes pelo contrário. Mas temos a felicidade desta diversidade meteorológica, que as alterações climáticas não conseguem aplanar. O saldo joga sempre a nosso favor. Que venham as cúpulas de calor, os rios atmosféricos, as bicas de água e os dias cinzentos: enquanto houver quatro estações, haverá sempre uma razão para celebrar a vida na nossa varanda à beira-mar.
Quanto ao mais, a cada dia basta o seu cuidado.
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