Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão sobre algum tímido regresso da ideia de que uma família pode ser melhor quando há uma dona de casa (ou dono de casa, como John Lennon, durante cinco anos), isto é, alguém tem como função principal optimizar o funcionamento da família enquanto tal.
O ponto de vista dominante pode ser visto neste comentário encontrado por aí e cuja autoria é irrelevante para este post, a sua utilidade é mesmo ser uma ideia comum "Quando se romantiza a mulher sem rendimento próprio, sem carreira, sem descontos, sem conta independente e sem rede, não se está apenas a falar de “escolhas de vida”. Está-se a falar de vulnerabilidade. E essa vulnerabilidade é terreno fértil para a violência económica: controlar o dinheiro, impedir que ela trabalhe, decidir o que ela pode gastar, fazê-la pedir autorização para tudo, deixá-la sem meios para sair".
É um ponto de vista muito comum, mas tão ao lado das questões centrais que impede qualquer conversa racional, ao pôr um dos membros da família no centro, em vez de pôr a família no centro, como fazem as pessoas que querem discutir as vantagens de haver "uma dona de casa" na família.
Em primeiro lugar, não se trata de romantizar nada, as famílias não são o paraíso, é onde ocorre a esmagadora maioria dos abusos sobre crianças, sejam eles sexuais, violência física, manipulação psicológica e emocional, é onde ocorrem os conflitos mais irredutíveis (é por isso que se diz que as guerras civis são as mais violentas e destrutivas de todas as guerras), é onde se manifestam as mais estranhas relações de poder e submissão entre pessoas individuais supostamente livres e autónomas, é onde ocorrem as mais humilhantes destruições de personalidades de terceiros, não há nada de romântico nas famílias, as famílias são espaços de organização social que tanto correm bem, como correm mal e, quando correm mal, podem correr mesmo, mesmo muito mal.
Ouço a história como sendo atribuída ao Cardeal Cerejeira que, quando ouvia dizer que havia uma família em que os irmãos se davam muito bem, perguntava sempre se já tinham feito partilhas.
As famílias têm é a grande vantagem de ser a grande escola de socialização e realização pessoal ao longo da história da humanidade, de tal forma que, seja qual for a cultura, são muito raras as sociedades com algum sucesso que não reconhecem o valor fundamental da família, seja em contratos formalmente validados pela sociedade, como o casamento, seja em concepções de honra mais informais, que atribuem à família o direito de excluir, às vezes matar, os membros que, pelas suas opções individuais, põem em risco o que se consideram pilares essenciais da família.
Desde sempre essa forma de organização dos grupos sociais tem uma tensão latente, por vezes insuportável para alguns, em relação à liberdade individual (há uns pândegos que se espantam pela importância que a igreja católica confere ao sexo e às questões de cama, isso apenas acontece por falta de atenção às outras culturas e sociedades, onde os instrumentos de coesão social, o que implica alguma partilha de valores, dão importâncias semelhantes, embora de formas muito variadas, aos mesmos tipos de assunto, por terem uma importância fundamental na base da coesão dos grupos familiares).
As famílias não existem de forma monolítica, as famílias têm formas imensamente diversificadas, quer entre diferentes culturas, quer ao longo do tempo na mesma família, regulando duas questões relevantes: a socialização das crianças e a transmissão de património (isto é, de meios de sustento da família, até ao advento das sociedades baseadas em serviços, isto é, às sociedades que assentam na síntese da amónia).
A ideia expressa acima de que o rendimento é uma questão individual e não do colectivo da família é uma ideia recente, não era habitualmente assim e o que não faltam são exemplos de milhares e milhares de famílias em que todo o dinheiro ganho pelos homens no seu trabalho era entregue à mulher que era responsável por gerir a casa.
Se dúvidas houvesse, basta ver a quantidade de literatura do século XIX em que as desgraças que caem sobre a família são imputadas à incapacidade da mulher gerir bem os recursos da família, independentemente de não fazer qualquer trabalho remunerado.
Na minha família mais restrita, a minha mulher resolveu ser dona de casa durante algum tempo, primeiro para acompanhar a doença da mãe, ainda antes de casarmos, depois para apoiar o pai, depois para apoiar as duas mais velhas, até que à terceira filha resolveu retomar a sua actividade profissional remunerada.
Mais tarde, fui eu que passei a estar em casa mais tempo, pedindo uma licença sem vencimento que me permitia trabalhar a partir de casa, quando sentimos que as coisas poderiam não correr bem com a evolução de alguns dos nossos filhos a poderem fugir do padrão que entendíamos ser melhor.
Nunca, em nenhum momento, senti que havia o meu dinheiro e o da minha mulher, sempre tivemos contas diferentes, mas o dinheiro sempre foi da família (durante anos, num sentido alargado, dadas as dívidas que tínhamos para com o resto da família alargada).
Há tempos vi um estudo (confesso que não dou demasiada importância a este tipo de estudos, a menos que haja muitos estudos a dizer consistentemente o mesmo) em que se avaliava o grau de satisfação de pessoas, ao fim de cinco anos, depois de terem decidido divorciar-se ou não, quando estavam infelizes com as suas relações familiares.
Contra o que para mim seria de esperar, o grau de "infelicidade" era maior ao fim de cinco anos nos que, insatisfeitos com a sua relação familiar, tinham decidido divorciar-se face aos que, mesmo assim, tinham decidido manter-se casados.
O que é coerente com o facto que Patrícia Fernandes tem referido sobre o grau de insatisfação das mulheres hoje, em relação a umas décadas atrás.
Aparentemente, o ganho real e justo no campo dos direitos individuais das mulheres nem sempre deu como resultado uma melhoria da sua qualidade de vida (ainda hoje li uma coisa qualquer num jornal sobre o facto de haver cada vez mais famílias menores, em especial, de um ou dois membros e, sem grande surpresa para quem tenta ter uma visão menos emocional da natureza humana, o tempo médio das mulheres que vivem sozinhas é substancialmente maior que o tempo médio dos homens que vivem sozinhos (não, não me vou pôr a fazer piadas sobre a fragilidade dos homens que os impede de tomarem conta deles próprios)).
Ou seja, muito mais que uma discussão sobre direitos individuais, a discussão sobre as novas donas de casa é uma discussão sobre modelos familiares e sobre a clássica dificuldade em conciliar a necessidade de socializar crianças e transmitir património com um mínimo de conflitualidade, e a liberdade de cada um de nós se estar nas tintas para os outros.
Pelo menos, é o que me parece, a mim que não costumo passar muito tempo a pensar no assunto, nem a estudá-lo, mas sobre o qual leio sempre que me surge oportunidade.
Nota final sem qualquer relação com o post.
Recentemente morreu Abdullah Ibrahim, antes conhecido como Dolar Brand. Vi o seu obituário no Público, feito por Lucinda Canelas, que fala mais de apartheid que da sua música. A sensação com que fiquei é que Lucinda Canelas não tem grande interesse na sua música. Eu também não tenho, não é bem o tipo de música que oiça, mas sugiro que ouçam isto, eu sei que demora quase um quarto de hora, e não desistam logo, é o meu obituário do senhor, que me parece mais que suficiente.
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