quarta-feira, 1 de julho de 2026

O fino verniz da civilização

Hoje estive no Observador e não foi a falar de fogos, mas sim por causa do que escrevi sobre família e carreira.

Algures, a propósito da discussão clássica sobre o que é genético ou cultural, trazida por Helena Garrido, eu repeti um argumento velho e relho: o cérebro é um orgão biológico e, consequentemente, resulta da evolução biológica e está adaptado para produzir o resultado esperado que permite essa evolução: sobreviver para que se possa transmitir a informação genética à geração seguinte.

Patrícia Fernandes achou que havia uma contradição em eu dizer que tudo resulta da liberdade individual e, ao mesmo tempo, dizer que tudo resulta de factores biológicos anteriores.

O argumento é bom, não gostei da forma como respondi, preferia ter sido mais claro: um fino verniz da civilização existe na dependência de factores culturais, e tem efeitos reais, mas é uma fina camada de verniz sobre a bruteza biológica que também nos define.

Dizer que a posição da mulher na sociedade é uma criação cultural, que em parte é, não significa que então podemos fazer uma criação cultural alternativa à nossa escolha, porque essa criação cultural, para existir e ter expressão muito alargada, tem de respeitar a natureza do bicho que somos.

Não há nada na evolução biológica que sugira a existência de cintos de castidade, que são uma criação de um ambiente cultural concreto, mas há muito de evolução biológica no medo masculino de que o filho seja do padeiro, sobretudo num ambiente cultural em que a transmissão de riqueza e estatuto social dependia essencialmente do berço em que se nascia.

A forma como diferentes sociedades lidam com esse medo é cultura, a existência desse medo é também natureza selvagem, sem cultura.

A liberdade individual decorre do fino verniz de civilização - parece também ser por escolha social que nos afastamos da lei do mais forte, substituindo-a por leis de que resultam grupos mais fortes - mas a construção desse fino verniz de civilização é, em grande medida, resultado da forma como o cérebro evolui para nos ajudar a sobreviver e nos reproduzirmos.

Se na base da biologia evolutiva está o interesse próprio do indivíduo, como chegámos a regras cujas vantagens colectivas só se conseguem perceber depois de aplicadas?

Teria sido útil lembrar-me que Matt Ridley, para além de escrever a Rainha de Copas, também escreveu "The origins of virtue", em que tenta explicar como, do ponto de vista da biologia evolutiva, podem ter surgido regras sociais cuja origem biológica nos parecem difíceis de explicar.

4 comentários:

  1. há muito de evolução biológica no medo masculino de que o filho seja do padeiro, sobretudo num ambiente cultural em que a transmissão de riqueza e estatuto social dependia essencialmente do berço em que se nascia

    Esta frase está um bocado mal escrita, diz que o referido medo tem "muito de evolução biológica" mas que ao mesmo tempo ocorre "sobretudo num ambiente cultural".

    Das duas uma, ou o medo referido é essencialmente resultado de evolução biológica, ou ele é essencialmente resultado do ambiente cultural.

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    1. Tem toda a razão, está muito mal escrito, é preciso ler três vezes este parágrafo para perceber a ideia
      "Dizer que a posição da mulher na sociedade é uma criação cultural, que em parte é, não significa que então podemos fazer uma criação cultural alternativa à nossa escolha, porque essa criação cultural, para existir e ter expressão muito alargada, tem de respeitar a natureza do bicho que somos."

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  2. Muito bom este artigo.

    Permita-me apenas discordar de que nos tenhamos afastado da Lei do Mais Forte.

    Os termos da coisa evoluíram, já não é o que tem mais músculo ou maneja melhor a espada, mas no essencial o princípio mantém-se válido;

    O Advogado que melhor conhece as Leis e os ardis das lides perante um júri ganhará a causa, e isso é ser o Mais Forte, o jogador mais ágil e astuto tem mais hipóteses de pontuar, etc.

    E isto parece ser uma constante histórica desde a Antiguidade Clássica, diria até Bíblica;

    O melhor exemplo aliás parece-me o do pequeno David contra o Gigante Golias.

    Mas parece-me que o grande defeito está na formulação;

    Não a Lei do Mais Forte, mas a Lei do Mais Apto, e aí tudo encaixa






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    1. Usei a lei do mais forte, e não a formulação de Darwin do mais apto, porque do ponto de vista social são coisas completamente diferentes. O monopólio estatal da violência legal, por exemplo, limita o poder do mais forte, transferindo-o para o mais apto.

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