segunda-feira, 29 de junho de 2026

Uma longa, longa história

Jorge Moreira da Silva era, na altura, ou ministro ou secretário de Estado, não me lembro, com a tutela da área da conservação da natureza e falou com o ICN para se fazer um programa para levar as escolas às áreas protegidas, tendo como modelo a semana de praia e a semana de neve da escola europeia, onde estudaram os filhos, quando foi deputado europeu e talvez outras coisas.

Por acaso, eu era o director de serviço do ICN com tutela na educação ambiental e tinha 30% dos meus irmãos a viver em Bruxelas, em instituições várias da União Europeia, pelo que conhecia os programas que serviram de modelo, percebendo rapidamente o que se pretendia.

Desenhou-se um programa cujo objectivo era levar todos os portugueses a uma área protegida, para uam experiência positiva com a conservação da natureza, durante o seu percurso escolar.

Escolheu-se o oitavo ano, onde a ideia parecia encaixar melhor.

Andámos a avaliar dormidas, alimentação e transporte, os grandes custos envolvidos, para ter uma ideia do que poderia ser o custo de um programa desse tipo e de como o baixar para o trazer a níveis suportáveis, acabando por nos fixar num modelo que pressupunha três dias e duas noites de dormida.

Era clarinho, clarinho, clarinho que o programa tinha de ser enxertado nas escolas, feito a partir do ICN nunca teria pernas para andar.

Também era claro que o elemento central eram os professores, não os professores em abstracto, mas cada professor que se mete em coisas destas, que são a minoria que faz a escola fazer coisas de que os miúdos se lembram daí a uns anos.

Sendo assim, o factor chave era haver professores em número suficiente para que isto fosse sendo feito, o que aconselhava opções que não excluíssem professores: a ideia era levar os alunos a uma área protegida durante três dias e duas noites, sendo indiferente que fosse para fazer surf no Sudoeste Alentejano com os professores de educação física, visitar mamoas em Castro Laboreiro com professores de história, ou qualquer outra motivação daquele professor em concreto.

Explicou-se que se tratava de transferir recursos das zonas mais ricas, onde está a maioria dos alunos, para zonas menos ricas, onde estão a maioria das áreas protegidas, criando actividade económica em época baixa e durante a semana, excluiu-se de pagamento os alunos apoiados pela acção social e disponibilizámos apoio para encontrar patrocinadores para as visitas (sempre me pareceu evidente que seria fácil ter os cafés Delta a apoiar a escola de Campo Maior, por exemplo).

Tudo isto borregou numa questão de princípio do ministério da educação: o programa acabava por poder custar às famílias qualquer coisa como uns vinte ou trinta euros (repito, por deslocação, alojamento duas noites e alimentação três dias) e isso era inaceitável porque o ensino em Portugal era gratuito, não se podia pedir dinheiro nenhum às famílias dos alunos.

Sempre que tive oportunidade, fui tentando levar esta ideia a um ponto de concretização que ajudasse ao seu crescimento progressivo (no ICN chegou a haver dois ou três anos em que se fizeram visitas, num programa que pega nesta ideia, coordenado por um grande especialista em educação ambiental, mas nunca funcionou porque se foi pelo caminho fácil de usar infraestruturas das áreas protegidas (sem condições adequadas), com acompanhamento de funcionários das áreas protegidas (que, evidentemente, não só não chegavam para as encomendas, como desresponsabilizavam totalmente as escolas e os professores), tendo o programa morrido de morte natural, rápida e indolor, felizmente).

Nunca consegui chegar a uma aplicação concreta, nomeadamente na Montis, mas recebi há pouco a informação de que um programa com a mesma designação - Escolas na Natureza - vai ser apoiado pela fundação EDP.

Desconheço em absoluto o conteúdo da proposta que a Montis fez neste concurso, mas neste momento isso não me parece o mais importante, o relevante é que a ideia continua viva e ainda verei o país, não o ICN, mas o país, a executar um programa que leve, no espaço de uma geração, todos portugueses a passar por uma área protegida.

Espero que nessa altura se lembrem que foi Jorge Moreira da Silva que lhe deu o empurrão essencial.

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