segunda-feira, 29 de abril de 2024

Como é possível, Susana?

Por causa do meu post de ontem, fizeram-me notar que havia alguma imprecisão no que eu dizia sobre o aumento de produtividade na economia portuguesa nos vinte anos anteriores ao 25 de Abril e chamaram-me a atenção para a facilidade com que poderia olhar para dados existentes sobre o assunto, nas séries longas da economia portuguesa.


Eu não percebo nada de economia (nem consta que eu tenha biblioteca), não sou um académico, limito-me a ser um pobre homem da Póvoa com curiosidade, é portanto possível (não é um orgulho, é uma circunstância) que não saiba, ou pelo menos não me lembre, das séries longas da economia portuguesa quando me teriam dado jeito para dizer menos asneiras que as que digo.


De resto, esta minha queda para a dispersão faz-me ficar a olhar para bonecos como este, em vez de me concentrar no essencial de que tratará o post.


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O que gostava de entender é por que razão, se Susana Peralta quer discutir o emprego e o rendimento das famílias antes e depois do 25 de Abril, não recorre a estas séries longas de dados, em vez de ir buscar um obscuro relatório de 1977 que acha que a economia anterior a 1974 criou relativamente pouco emprego (que Susana Peralta transforma num taxativo "criou pouco emprego").


Vamos a dados concretos.


Em 1953 há 3 364 700 empregos e em 1973 há 3 825 600 empregos, ou seja, mais 460 900 empregos, cerca 13,7% de aumento de emprego nesses vinte anos. Nos vinte anos seguintes, entre 1974 e 1994 passamos de 3 825 300 para 4 520 100, ou seja, cerca de 18,2% de aumento.


Melhor, sem dúvida, mas como existem os dados, olhemos para eles.


Entre 1953 e 1973 foram destruídos 517 600 empregos na agricultura, silvicultura e pescas, ou seja, o aumento de emprego no resto da economia não foi de cerca de meio milhão, mas de cerca de um milhão de empregos. Entre 1974 e 1994, os vinte anos posteriores ao 25 de Abril, o emprego na agricultura, silvicultura e pescas continuou a diminuir, passou de 802 900 para 658 200, ou seja, foram destruídos um pouco menos de 150 mil empregos nesses sectores.


Se a emigração dos anos sessenta foi sobretudo rural e deve andar pelo milhão e meio de pessoas, correspondendo à destruição de meio milhão de empregos na agricultura, o aumento de emprego no resto da economia, meio milhão de compensação dos empregos perdidos na agricultura e outro meio milhão a mais, é consistente com a fixação de um milhão e meio de pessoas (um pouco menos porque a diminuição do tamanho dos agregados familiares acompanha a urbanização) o que é coerente com o facto da população do país apenas ter diminuído cerca de 300 mil pessoas, apesar de uma emigração de milhão e meio.


E é aqui que está a maior falta de rigor no que eu disse sobre produtividade no meu post anterior, mas também a dimensão do absurdo de pretender que o aumento do PIB não coincidiu com um aumento generalizado dos indicadores de rendimento e qualidade de vida da população, tese que Susana Peralta, para mim incompreensivelmente, resolveu subscrever.


O processo descrito acima corresponde à substituição de empregos de baixíssima produtividade e baixíssimo rendimento numa agricultura de subsistência (a miséria da cultura de cereais, como escrevia Salazar na sua tese de 1916) por empregos na indústria e serviços, incomparavelmente mais produtivos (por hora de trabalho) e mais bem remunerados.


Ou seja, ao contrário do que eu escrevi, há de facto aumentos de produtividade muito grandes, sem ser por nenhum dos processos que referi no artigo de ontem.


Não fiz as contas (nem as saberia fazer, de resto), mas diz-me quem as fez, que os salários reais (salários reais, note-se) cresceram cerca de 7% ao ano e a distribuição em “ordenados e salário dos empregados a trabalhar no território nacional" ter-se-á multiplicado por seis e qualquer coisa nesse período.


De resto, mesmo no sector da agricultura, os adubos de síntese, a mecanização e o melhoramento genético, impulsionados também pelas crescentes desvalorização de terras produtivas, abandono das terras menos produtivas e escassez de mão-de-obra, provocam um aumento de produtividade muito relevante.


O processo migratório foi de facto uma válvula de escape, como muito bem o caracteriza o tal relatório de 1977 e Susana Peralta, bem, subscreve, mas isso não é um indicador evidente das condições miseráveis de vida de uma parte substancial da população portuguesa decorrente do Estado Novo, pelo contrário, faz parte de um processo de transformação social que em grande medida ocorreria sempre, independentemente do governo ou regime da altura (nesse sentido, não pode ser contabilizado a favor do regime em que ocorreu que, como qualquer governo, tem uma influência muito mais pequena na dinâmica social do que habitualmente achamos todos).


Esse processo migratório contribuiu largamente para reduzir as tensões sociais que ocorreriam, pela destruição do emprego numa agricultura de miséria, dentro dessa transformação social que corresponde à mudança de um país com um capital humanos desqualificado, rural e miserável, num país ainda pobre, mas menos, mais industrializado, com mais serviços, mais urbanizado e com uma população várias vezes mais qualificada e rica que a geração anterior.


Ao contrário do que acontece com parte da migração actual, em que exportamos capital humano qualificado e importamos capital humanos pouco qualificado, porque o perfil da nossa economia é o que é, nos vinte anos anteriores ao 25 de Abril, estávamos a fixar o capital humano mais qualificado (e a qualificá-lo a uma velocidade muito maior que nos dois séculos anteriores), ao mesmo tempo que exportávamos capital humano pouco qualificado e afecto a actividades de baixíssima produtividade.


Pretender negar isto para fazer um retrato do Portugal de 1973 como o resultado da longa noite fascista, ultrapassa a minha capacidade de compreensão, não vejo que o possa o regime democrático ganhar em negar evidências.


Viva o 25 de Abril, cujas virtudes não dependem, em nada, dos seus resultados económicos (embora a insistência em espantalhos, para nos distrair das suas dificuldades e das más decisões que tomamos em matéria económica, seja um grande problema que alimenta o crescimento dos inimigos da democracia e da liberdade).

16 comentários:

  1. no séc xix exportou-se 'gente como gado' - queixa ao Marquês de Tomar, embaixador no Brasil
    Mariano de Carvalho 'agricultura: arte de empobrecer alegremente'.
    no 25 abril destruíram-se: Cuf, Lisnave, Setenave, etc

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  2. "O número de patrões/empregadores conheceu um ligeiro decréscimo em 2011 embora, face ao decréscimo do número total de empregados, tenha aumentado o seu peso. O número de trabalhadores por conta própria registou desde 1970 um decréscimo ainda que pelo mesmo efeito da diminuição da base o seu peso tenha registado um pequeno acréscimo em 2011. Em valores e peso diminutos e cada vez mais reduzidos estão os trabalhadores familiares não remunerad "



    o interessante é isto , a "democracia" foi e é  uma fábrica de escravos assalariados.


    file:///C:/Users/Utilizador/Downloads/25Abril_2014_errata%20(1).pdf

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  3. Estamos no bom caminho, como se há muito bem de vir a ver.
    Cumpts.

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  4. Não sei muito bem da ciência dos gráficos, mas de ver só os bonecos há ali uns solavancos por 74 (faz agora 50 anos) e uma inversão de tendência.
    Ao depois, não sei se interessa, mas para estas coisas da riqueza nacional me parecerem bem, daria jeito estender a fita métrica pelo todo nacional e não só pelo (inter)nacionalinho restante. Nesta medida falta ver muita coisa.

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  5. Não quero discutir economia e finança quer com o HPS quer com a Peralta, que pelo que vão escrevendo têm muito mais experiência académica e profissional que eu, portanto quanto a números e factos, fico-me.
    Há um ponto que me parece assente, e factual, de que é impossível, ou mesmo proibido, elogiar algo que seja no anterior regime, em que área for, em que dimensão for. Terá a ver com a ideologia woke, do tudo ou nada, virtude total ou pecado capital, estás a favor ou contra, de nada vale uma ideia, o que importa é a posição que se toma.

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  6. Aliás, a migração somente ocorre quando a população não é absolutamente miserável porque, se o fôr, nem dinheiro tem para investir na migração (a qual custa algum dinheiro e demora algum tempo a dar frutos).


    Por exemplo, o facto de agora haver em Portugal muitos bengalis mostra que, felizmente, boa parte da população do Bangladeche já é suficientemente abonada para conseguir emigrar para a Europa. Em 1971, aquando da independência, a fome no Bangladeche era tanta que eles mal tinham força para se aguentar de pé, quanto mais para viajar para a Europa.

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  7. importamos capital humano pouco qualificado, porque o perfil da nossa economia é o que é


    Não é por o perfil da nossa economia ser baixo que importamos pessoas pouco qualificadas: mesmo em economias muito desenvolvidas, os empregos mais disponíveis são sobretudo pouco qualificados ou de qualificações médias. Veja-se, por exemplo, os milhões de imigrantes mexicanos muito pouco qualificados que são empregados pela agricultura dos EUA, isto apesar de o perfil da economia americana ser muito alto.


    O facto é que, em todos os países, há muito mais necessidade de imigrantes de perfis baixo (por exemplo, trabalhadores agrícolas e limpadores de casas de banho) e médio (por exemplo, para profissões como cozinheiro, cabeleireiro, canalizador ou futebolista), do que de perfil alto.


    É falsa a ideia de que Portugal, ou outro país qualquer, deveria receber predominantemente imigrantes com profissões como médico, gestor de empresas ou cientista.

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  8. Exactamente, a última parte, amputada da primeira, tem um significado diferente daquele que tem sem manipulação.
    O que fizeste é pura manipulação.
    Eu já raramente te respondo exactamente por achar que há muito passaste dos limites admissíveis, o que se volta a confirmar, visto que expliquei direitinho que dizer "não faz sol" não é o mesmo que dizer "faz sol", apesar de a última parte da frase estar na frase inicial, mas apesar da explicação, finges que não percebes.
    Pura desonestidade.

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  9. Não há desonestidade nenhuma. Não há manipulação nenhuma.
    Há uma frase que diz que duas coisas ("acontecem devido a uma mesma causa

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  10. Podes fingir que há uma frase que diz duas coisas, mas os dois sabemos que há uma frase que diz uma coisa, que a migração é o que é, porque o perfil da nossa economia é o que é.
    O facto de pretenderes que eu disse, ou sugeri, que a imigração de pessoas pouco qualificadas só existe porque o perfil da nossa economia é baixo, coisa que eu não disse, é que é profundamente desonesto.
    A alternativa seria admitir que não sabes interpretar um texto simples, coisa que eu sei que não é verdade, eu sei que sabes perfeitamente que eu não escrevi que só havia migração de trabalhadores pouco qualificados porque o perfil da nossa economia é pobre.

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  11. eu não escrevi que só havia migração de trabalhadores pouco qualificados porque o perfil da nossa economia é pobre


    Escreveu, sim. O Henrique pode dizer que é "profundamente desonesto" eu estar a afirmá-lo, mas foi isso mesmo (além de outra coisa) que o Henrique escreveu.


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  12. Tanto não escrevi que foste incapaz de citar uma frase em que eu tenha escrito que importamos capital humano pouco qualificado porque o perfil da nossa economia é pobre (e seria difícil que o escrevesse porque escrever isso é uma tremenda estupidez, por definição, as economias mais ricas e dinâmicas são as mais atractivas para qualquer pessoa e as pessoas mais disponíveis para emigrar são as que têm menos oportunidades nos seus países de origem, tipicamente as menos qualificadas).
    Quem escreveu isso foste tu, atribuindo-me uma frase que não escrevi, através da manipulação do que escrevi: onde eu escrevo que exportamos capital humano qualificado e importamos capital humanos pouco qualificado porque o perfil da nossa economia é o que é, tu quiseste ler que eu estava a escrever que importávamos capital humano pouco qualificado porque o perfil da economia é pobre, mas foste tu que decidiste ler essa estupidez no que escrevi, eu não tenho nada com isso e perante a minha irritação pela deturpação grosseira e ofensiva, tu insistes em me explicar a mim o que eu escrevi, apesar de não conseguires transcrever uma frase minha completa em que eu diga isso.

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  13. Maximilien Robespierre2 de maio de 2024 às 16:37

    Antes do 25/4 exportávamos capital humano pouco qualificado porque era o que havia. hoje exportamos capital humano qualificado porque é o que existe!

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