sábado, 7 de outubro de 2023

Questões ambientais ou ignorância?

Li há dias um artigo de opinião em que alguém afirmava que os seus dois filhos se tornaram vegan por questões ambientais.


Há várias razões sérias para uma pessoa se tornar vegan, a maior parte delas filosóficas e relacionadas com a visão que se tem do mundo e da relação com os animais, mas invocar questões ambientais como justificação para se ser vegan é simples ignorância, desprezo pelos processos naturais que envolvem animais e desconhecimento sobre os diferentes impates ambientais, negativos e positivos, dos diferentes modelos de produção.


Apenas um dos exemplos clássicos: há vegans a justificar a sua recusa em comer carne por causa do uso de 85% da produção de produção de soja na alimentação de gado, com o que isso implica de desmatação na Amazónia. Naturalmente desconhecem que o verdadeiro valor da produção de soja está no óleo, largamente usado por muitos vegans, que é o que justifica a produção. Os tais 85% da soja que acaba na alimentação animal são basicamente sub-produtos do processo de produção do óleo. Claro que a valorização dos sub-produtos ajuda as contas de exploração da produção de soja, tornando-a mais atraente, mas o que motiva o investimento na produção de soja não são os sub-produtos, é mesmo o produto principal, o óleo de soja (ao ponto de haver que faça investigação relacionando o preço do óleo de soja com o aumento da velocidade de desmatação da amazónia).


Note-se que a este nível estamos no nível mais simples da análise dos problemas, que é o nível técnico.


Copiando, sem autorização (conheço o Zé Miguel o suficiente para saber que dificilmente se incomodará com esta situação), um comentário de José Miguel Cardoso Pereira no Observador, consigo chegar ao que me interessa de forma rápida: "Como muito bem sabe, a Física é uma coisa, a Economia, a Sociologia e a Política são coisas muito diferentes. Neste problema são inseparáveis e as decisões importantes terão de ser suportadas por este formato de análise, que nos mostra com bastante fiabilidade as consequências de diferentes cursos de acção".


E o que me interessa é mesmo isto: não são questões ambientais que estão na base dos protestos da Climáximo, é mesmo ignorância (por que raio entrevistam esta gente sempre sem contraditório? Porque não há debates sérios com eles? Por falta de convites, caso em que a responsabilidade seria dos jornalistas, ou porque se recusam a estar onde pode haver contraditório? A minha experiência pessoal com Camargo é a de recusa permanente a qualquer debate comigo nas vezes em que lhe sugeri discutir publicamente fogos, eucaliptos, gestão florestal e da paisagem, mas pode ter sido só azar).


O consenso científico a que aludem permanentemente - tal como os outros que resolveram apresentar um processo no Tribunal dos Direitos Humanos, implicitamente defendendo que é aos tribunais que compete definir políticas, e não aos governos, com base na ignorância sobre a separação de poderes que caracteriza as democracias e as distingue do totalitarismo - diz respeito, apenas, às componentes técnicas e científicas do problema das alterações climáticas, isto é, à previsão da forma como o clima irá evoluir se se verificarem alguns pressupostos de emissões.


Esse consenso esmagador - tanto quanto existe consenso e quanto é relevante para a ciência serem mais ou menos pessoas a dizer a mesma coisa - começa rapidamente a dissolver-se logo que se passa da previsão sobre a evolução do clima para as consequências concretas dessa previsão e entra rapidamente em falência quando se discute o que fazer, começando pela grande opção entre ser sensato investir tudo na redução de emissões para estancar o problema na origem, ou investir tudo em mecanismos de adaptação ao mundo que se prevê que venha a ser o do futuro (pelo meio existem muitos cinzentos e, é certo, mais ou menos toda a gente defende a redução de emissões na medida do razoável e defende medidas de adaptação na medida do razoável, a definição de razoável é que é muito subjectiva).


O que seguramente não há é nenhum trabalho científico válido que preveja a extinção da espécie humana em função das alterações climáticas, sendo completamente idiota a alegação, frequente, de que estas pessoas estão apenas a agir em legítima defesa face a uma ameaça existencial real.


E é por isso que a discussão sobre o que fazer face ao que se sabe não pode sair de onde deve estar: no debate político.


O materialismo dialécto também se apresentava como uma verdade científica (é certo que sem o grau de sustentação científico que existe em matéria de clima) e o resultado disso foram, inevitavelmente, ditaduras que reprimiam ferozmente toda a divergência, fosse ela estritamente política, científica (Lysenko, como exemplo), cultural ou artística (como descobriu Mayakovsky, tarde demais).


Tal como o eugenismo progrediu muito nas academias e sociedades científicas, não é uma invenção nazi.


O que nos resta é sempre o mesmo, combater a ignorância e não ter medo de dizer que é mesmo ignorância.


"Lóbjectif reste le meme: detruire le préjugé" era a citação que Miguel Araújo tinha no fim do mail, atribuindo-a a Lévi-Strauss. Nunca confirmei se era exactamente essa a origem da frase, mas a ideia serve-me perfeitamente.

16 comentários:

  1. os wegans nasceram sem dentes caninos? no intestino produzem metano como qualquer vaca.


    A pseudociência mata 

    ...

    ...

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  2. O que é a climáximo e o que é um impate?


    O resto... podem sempre dedicar-se à agricultura, que é fácil e não tem impacto sobre o ambiente. Mas sem telemóvel. 

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  3. OS Vegans são os meninos de copo de leite. Se tivessem nas obras  o veganismo acabava.
    Quando estava no superior dizia-me um colega que nas férias tinha de trabalhar nas obras por necessidade.
    Copiando os trabalhadores ele bebia para ter forças, só que passada a efervescência inicial ele perdia as forças.

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  4. Antes a Bíblia do Antigo Testamento7 de outubro de 2023 às 20:36

    Ainda é verdade biológica ser o Homo sapiens omnívoro e ter a anatomia e fisiologia a isso adaptadas ?
    Já não há biólogos e médicos que nos esclareçam ou ao menos actualizem às horas das tais entrevistas aos sábios ...do quê?
    Podemos já ser outra espécie,o intestino e a dentição como as dos herbívoros,
    dos roedores,dos comedores de palha centeia,de fava seca,de cardos e espinhosas...

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  5. Definição ( certeiramente assassina) de sociologia, de VPV  :  uma mixórdia de socialismo e astrologia...
    A falta que ele nos faz!...
    Juromenha

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  6. Como quase disse o Chesterton, quando deixam de acreditar em Deus, passam a acreditar em qualquer coisa.


    Os marxistas na luta de classes, estes nos vegetais, aqueles em suster a respiração ...


    Cada um se entretém como pode, mas há uns que o fervor lhes dá para vir incomodar os outros.

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  7. No passado ainda recente, jovens fanáticos como esses da climaximo, quase sempre de boas famílias e embutidos de um espírito de missão assente na convicção absoluta de estar a lutar por uma causa maior, pegaram em armas e cometeram alguns dos mais horrorosos crimes da humanidade.


    Tal como agora, a grande maioria foi condescendente com a rebeldia da juventude, até perceberem que a pequena cria irrequieta se tinha tornado num monstro. 


    Continuem a deixar os putos "protestar" livremente e sem consequência, porque somos "democráticos" e tolerantes, que um dia acordamos à bruta. 

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  8. stes senhores vêm de outras ciências _ nada ocultas, por sinal.

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  9. Quem está por detrás de estes ingénuos meninos pretende destruir a ordem social vigênte, para tentar implantar a sua.

    De um lado a ignorância é desavergonhada. Do outro um alguém, adulto responsabilizável, que deveria exibir-se nome.

    Convinha sobretudo dar termpo de antena aos mentores. Porque será que não entrevistam os papás dos meninos?.

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  10. São todos adultos, a que propósito é que se iria entrevistar os pais?

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  11. Penso que o anónimo estará a falar da Greta.
    Seria interessante entrevistar o pai e a mãe da Greta (ou os dois pais ou as duas mães, não faço ideia).

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  12. A mãe da Greta é uma actvista com uma longa, conhecida, história. Aquelas criaturas têm as suas razões de existir.

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  13. Destruição de propriedade alheia por menores é responsabilidade de pais ou tutores.

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  14. Concordo.
    Se falam de redução de emissões poluentes, aí sim, deve-se reduzir "ao máximo" - dentro do razoável para não causar prejuízos excessivos à qualidade vida (humana, entenda-se)...
    Mas o CO2 não está historicamente relacionado com a temperatura no n/ mundo (já foi 30 a 40 vezes superior na idade do gelo...), é essencial à vida (será por isso que o querem reduzir?), e está nesta altura em níveis bastante baixos... (e não esquecer que o produzido pelos humanos é uma parcela mínima do total).

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