E gosto ainda menos quando isso é feito com meias verdades, a forma mais corrosiva de mentir.
Começo por dizer que não conheço Manuel Caldeira Cabral - tenho ideia de que nos cruzámos socialmente, eventualmente poderemos ter sido apresentados em qualquer coisa relacionada com homenagens ao seu avô - mas conheço bastante bem um irmão seu, de quem gosto bastante, alguns dos tios (eles são muitos, os que conheço são poucos) e, naturalmente, conheci o seu avô, por quem tenho uma admiração imensa.
Este enquadramento social, o seu perfil de baixa presença pública e aparente sensatez enquanto foi ministro da economia, facilmente me levam a ter uma genuína simpatia por ele. Para além de reconhecer que sabe muitíssimo mais de economia que eu, evidentemente.
O que não me impede de ficar incomodado com este artigo que hoje escreve no Observador, em que vai dizendo sempre verdades pela metade, tentando convencer-me das suas opções políticas através de omissões que me parecem dispensáveis.
Como é inevitável na discussão de assuntos complexos, Manuel Caldeira Cabral até terá razão em dizer que a descida da dívida em percentagem do PIB (primeira omissão, esquecer que a dívida em termos absolutos tem aumentado), de há oito anos a esta parte, não foi só sorte, resulta também de opções políticas (veremos à frente as omissões relacionadas com estas opções).
O que me incomoda é a argumentação usada e passo a tentar fundamentar.
Se bem percebo os argumentos do artigo, a dívida pública teve uma descida consistente de quase 30 pontos percentuais nos últimos oito anos, o que nunca tinha acontecido antes "entre 1975 e 2015, todos os ciclos governativos (exceto o de 1995 a 2002) terminaram com maior endividamento do que começaram".
Vamos então olhar para um gráfico (origem, Banco de Portugal).

Olhando para a dívida em percentagem do PIB, não há nenhum ponto de ruptura muito relevante no gráfico há oito anos atrás, o que há, de forma evidente nos últimos anos, é um ponto de ruptura em 2008, um ponto de ruptura em 2012 e depois podemos admitir um ponto de ruptura em 2016, se quisermos esquecer a perturbação de 2020.
O que caracteriza esses pontos de ruptura é uma súbita aceleração do endividamento (com Sócrates), até níveis inacreditáveis que implicam uma intervenção externa no país, um período entre 2012 e 2016 que se caracteriza pela travagem no crescimento desse endividamento depois da entrada do financiamento de emergência da troika em 2011 e então, a partir de 2016 (esquecendo a perturbação de 2020), uma descida progressiva da dívida em percentagem do PIB, para valores que possam ser, de novo, geríveis sem sobressaltos.
A razão pela qual a situação destes últimos oito anos não tem paralelo nos anos anteriores é, essencialmente, porque o ponto de partida que Manuel Caldeira Cabral escolheu para a defesa da sua dama também não tem precedente anterior (sim, já tinha havido situações de pré-ruptura do financiamento antes, mas os mercados e as entidades externas reagiram mais cedo, portanto os sobressaltos foram menores, do ponto de vista da dívida (o mesmo talvez não se possa dizer dos sobressaltos sociais)).
Como a medida é em percentagem do PIB, os efeitos recessivos do travão ao endividamento que as entidades externas impuseram ao país - e é bom lembrar que a alternativa não era evitar esses efeitos recessivos com melhores políticas, isso talvez pudesse acontecer, mas com pequena amplitude, a alternativa era a devastação social e recessiva decorrente de um corte brusco do financiamento por fecho dos mercados de dívida ao país - acabam por mascarar o essencial: o crescimento da necessidade de financiamento diminui largamente a partir das medidas impostas pela troika, negociadas por Sócrates e executadas por Passos Coelho (esta frase é mesmo muito pouco séria, mesmo que só contivesse factos demonstráveis, o que não sei se acontece, olhando para o gráfico acima "Nessas quatro décadas, o endividamento aumentou a um ritmo de cerca de 2,5 pontos percentuais por ano. Nos quatro anos anteriores a 2016, aumentou 4 pontos percentuais por ano. As previsões para 2024, significam que, nos oito anos depois de 2016 o endividamento baixará ao ritmo de 4 pontos percentuais ao ano.").
Como a medida usada é em percentagem do PIB e há uma recessão, inevitável, é claro que a dívida medida em percentagem do PIB desce pouco, ou não desce de todo, nos anos de intervenção da troica.
Quando o PIB retoma o crescimento, juntando-se-lhe o efeito inflacionista recente, fica muito mais fácil a tarefa de fazer descer a dívida quando medida em percentagem do PIB (o ano de 2020, que Manuel Caldeira Cabral omite, demonstra bem o efeito do crescimento do PIB neste rácio).
Claro que há mérito dos governos de António Costa em renegar os governos de Sócrates, de cujas políticas foi um ferveroso defensor, o mérito consistiu em manter a despesa controlada, o que manifestamente não é fácil.
O que Manuel Caldeira Cabral também omite é que a opção para atingir o resultado de não fazer crescer a despesa acima do pretendido foi a de sacrificar o investimento público.
E que, portanto, o resultado concreto da opção (certa) de manter as contas controladas e fazer diminuir a dívida em função do PIB, é o que hoje temos na saúde, na educação, nos tribunais, na habitação, etc..
O governo preferiu não aproveitar as condições francamente favoráveis para baixar mais rapidamente a dívida, ou para melhorar a eficiência do Estado e da economia, concentrando-se em satisfazer as clientelas eleitorais potencialmente mais vantajosas à custa do investimento público.
O que me incomoda no artigo não é tanto o que lá está escrito, mas o que Manuel Caldeira Cabral resolveu não escrever, quer o contributo da troica e de Passos Coelho para que fosse possível o resultados dos últimos oito anos, quer o contributo das opções destes últimos anos para a degradação da administração pública e das condições de prestação dos serviços públicos.
Já é tempo de os apoiantes deste governo fazerem um esforço de seriedade e se deixarem de se concentrar nas narrativas de desresponsabilização em que se especializaram.
Entretanto somos ultraoassados pelas Roménias desta vida, o que por si só já deveria ser um motivo de vergonha absoluta e caracterizador das desgovernação socialista e dos amigalhaços da extrem esquerda, a dívida em ter.os absolutos não para de aumentar, a carga fiscal em 2024 irá para uns "simpáticos" 38% com os chamados impostos indirectos que são mais fáceis de disfarçar, o SNS é uma vergonha absoluta compketamente destruído e ineficaz, onde se fecham serviços, hospitais por manifesta incompetência criminosa socialista,a educaçďlão é um mqnto de ideologia woke , de facilitismo atroz e onde nďlão há professores, não há aulas, as greves abundam, a justiça é o caos que se vê com audiências e julgamentos adiados, a habitação é melhor nem falar e o que faz a propaganda socialista? Distribui migalhas embrulhadas em "justiça social" , finge aumentar ordenados e pensões, distribui( como só um bom socialista sabe fazer) o dinheiro dos outros até este acabar e voltarmos a ter um choque de realidade traduzido em troikas, onde passamos a vida de mão estendida à caridade europeia sem nos preocuparmos que para haver políticas de redistribuição tem de, em primeiro lugar, ser criada riqueza, metemos milhões de euros em companhias falidas por reversões criminosas de privatizações por mera ideologia, acabamos com PPP's na saúde, comprovadamente eficazes e que pouparam milhares de euros aos contribuintes, pagamos a boys e girls que a única competéncia que demonstram é a do cartão partidário que lhes permite apanhar o elevador social e que nunca fizeram nada na vida além de estarem sempre pendurados no Estado e nos partidos, distribui-se dinheiro pelos amigos, pelos lobbys de pressão que lhes permitem financiar campanhas e serem eleitos, mente-se descaradamente com a maior cara de oau e assim vamos cantando e rindo até ao desastre final.
ResponderEliminarOu nos livramos do socialismo ou o socialismo acaba com o país. Já tivemos 3 avisos em forma de bancarrotas socialistas. Parece que não aprendemos nem vamos aprender nada...
ResponderEliminarhttps://sol.sapo.pt/2023/09/30/um-governo-de-poucochinhos/
E depois há o óbvio contornar do escrutínio democrático, em que os orçamentos aprovados na AR não correspondem à sua execução, convertendo mecanismos de utilização pontual como as cativações em medidas de expediente quotidiano. Mas claro, quando é o P"S" a governar os tiques antidemocráticos não incomodam, podem ficcionar OE's e aprovar medidas inconstitucionais (como na pandemia), que não incomodam ninguém e ainda recebem aplausos. Os outros é que são fassistas...
ResponderEliminara opção [...] foi a de sacrificar o investimento público.
ResponderEliminarAquilo que temos hoje na saúde, educação e tribunais não é tanto (parece-me a mim) o resultado de sacrificar o investimento público como o de sacrificar os salários dos trabalhadores públicos.
O problema não é não termos investido em novas escolas, novos tribunais e novos hospitais, mas sim, essencialmente, o termos deixado os salários de médicos, professores, funcionários de tribunais, etc degradarem-se até ao nível da revolta.
O Henrique é, penso eu, funcionário público e deve, nessa medida, já ter notado que o seu salário é essencialmente o mesmo de há 10 (se não mais) anos atrás.
É curioso observar que, durante este tempo todo, os pensionistas têm sido uma classe favorecida, pois as pensões que auferem têm sido regularmente aumentadas à taxa de inflação, enquanto que os salários dos funcionários públicos se mantêm, essencialmente, estáticos.
O facto é que a fúria que, durante o tempo da troica, muitas pessoas de direita vomitavam (e ocasionalmente ainda vomitam) sobre os funcionários públicos só se materializou, de facto, durante os governos do PS. Foram estes quem fez descer os salários dos funcionários públicos de uma forma que nem os melhores adeptos de Passos Coelho teriam sonhado.
já não há regresso possível.
ResponderEliminaro largo dos ratos
ResponderEliminar«
pm, o pedinte da UE
ResponderEliminar« o dinheiro é do ps »
ResponderEliminarA máquina de propaganda do PS está muito bem oleada e de tal maneira que ao mínimo espirro da opinião pública lançam logo os "idiotas úteis" em bando para que a comunicação social só tenha espaço para eles. Infelizmente o povo já está adormecido
ResponderEliminarTudo como dantes em Abrantes
ResponderEliminarOu ainda pior em Rio Maior
Também é omitido no artigo do Manuel Caldeira Cabral a atuação do BCE na vertente da politica monetária que permitiu um duplo beneficio ao governo de Costa tanto na diminuição dos custos de financiamento como nos lucros obtidos pelo Banco de Portugal
ResponderEliminarPrecisamente. A mudança politica no BCE de controlar a bolha pela recessão para controlar a bolha pela criação de uma bolha maior e subsequente aumento de inflação não faz parte do texto.
ResponderEliminar"Mundus vult decipi", ou qualquer coisa do género. O que as pessoas não gostam é de saber que foram enganadas. Se tiver sido bem feito, não acontece.
ResponderEliminarAh, e as meias-verdades são o método moderno de fazer a coisa. O provérbio português "com a verdade te engano" estava muito à frente do seu tempo. Não conheço tradução noutra língua, e no entanto hoje em dia é aplicado universalmente.
Coveiro Excelentíssimo,
ResponderEliminarem reverso do Dinossauro Excelentíssimo.
Do Estado Novo dos Planos (de Fomento)
ao Novo Estado 50 anos à procura de um NAER AML ou TGV para Bruxelas.
O segurador dos Cabritas, dos Treze cavaleiros de há um ano, dos ineptos Cravinho e Helenas Carreiras em Tempestades Perfeitas, e moçoilas Marinas,
ResponderEliminar"O que caracteriza esses pontos de ruptura é uma súbita aceleração do endividamento (com Sócrates), até níveis
Quando ouço ou leio "Sócrates" penso imediatamente "lá vem asneira". Algo semelhante era exposto num cartoon
Mas olhe-se, a título de exemplo, para este gráfico de evolução da dívida pública alemã
Será que Sócrates também estava no governo alemão entre 2008 e 2012, quando a dívida alemã dispara de 150 para mais
Olhe-se agora para este outro gráfico onde aparecem curvas de dívida pública, expressas em percentagem do PIB, de
Será que "exportámos" Sócrates para Itália, cuja dívida se situava em 2022 em 140% do PIB? Ou será que Sócrates tem
Afinal o que são os seus "níveis inacreditáveis que implicam uma intervenção externa no país", que eu não percebi?
É claro que, para ser simpático, diria que as questões colocadas são meramente retóricas. Mas, na realidade, não o
Níveis incomportáveis é muito fácil de definir: são níveis que não conseguem ser financiados.
ResponderEliminarFoi o que aconteceu e motivou um pedido de ajuda à troica.
Simples.
Acho que percebo a desilusão de HPS com Manuel Caldeira Cabral até porque a minha foi muito maior pois quem me desiludiu foi Manuel Herédia Caldeira Cabral. Mas, como amargamente comentei no Observador, até Adriano Moreira teve uma filha Isabel.
ResponderEliminarO que hoje escreve neste blogue Daniel Sousa Santos (aqui: https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/psicologia-das-multidoes-8041423), a propósito do livro "A Psicologia das Multidões" de Gustave Le Bon, aplica-se-lhe que nem uma luva:
ResponderEliminar"O simplismo nas ideias, a falta de pensamento crítico, o vago como doutrina, o superficial como dogma, a incoerência de posições, tudo afecta os homens independentemente da posição, idade e experiência, até os mais doutos são subitamente encarcerados nessa modorra."
Mais à frente, Daniel Sousa Santos acrescenta, agora citando Le Bon:
Continuo a sugerir a leitura de Richard Werner, Michael Hudson, Bill (William) Mitchell e William Lazonick e repito: se e quando compreender que uma licença de actividade bancária