quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Prudência

"a razão para discernir em todas as circunstâncias o verdadeiro bem e a escolher os justos meios para o atingir. Ela conduz a outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida" foi a definição de prudência que usei num post, há tempos.


E lembrei-me desse post há uns dias, quando li um ensaio de Miguel Miranda, antigo presidente dos serviços meteorológicos, no Observador.


O ensaio vale bem a pena, é bom e equilibrado, mas tem o problema de acabar assim:


"Se não conseguirmos percorrer este caminho, então serão os acontecimentos extremos que farão o seu trabalho. Veremos fogos florestais imparáveis, como os que observámos muito recentemente na Califórnia, na Austrália ou aqui mais perto na Grécia. Assistiremos impotentes a cheias rápidas antes inimagináveis em zonas como o Norte da Europa, ou com a capacidade destruidora recentemente observada na Líbia. Agravar-se-ão os furacões de magnitude superior a 4 em diferentes bacias oceânicas. Arriscaremos a segurança alimentar com as secas extensivas que destroem a produção agrícola. Estes fenómenos extremos vão impor a agenda.


As catástrofes naturais não reconhecem fronteiras, nem partidos, nem sensibilidades científicas. Se não formos muito mais atuantes, o tempo para repor a estabilidade climática será demasiadamente curto. A serenidade será inviável, e o discurso apocalíptico virá uma e outra vez a acompanhar cada episódio dramático. Cada um irá arrastar consigo um grande número de vítimas para as quais chegará mesmo o fim do mundo."


Saltando por cima de qualquer discussão sobre o que seja estabilidade climática ou a nossa capacidade para a gerir, matéria para cuja discussão me faltam estudos, o que me interessa é a falácia habitual de que a acontecimentos mais extremos ou acontecimentos extremos mais frequentes, correspondem necessariamente mais prejuízos sociais, económicos e ambientais.


O tal post onde fui buscar a definição de prudência com que começo o que agora escrevo já era sobre esta falácia, não ainda sobre "a capacidade destruidora recentemente observada na Líbia" de que fala Miguel Miranda, mas sobre "um terço do Paquistão ficou submerso pelas cheias, que causaram de imediato 800 vítimas mortais, ... . António Guterres afirmou nunca ter visto uma "carnificina climática" semelhante".


Por economia, cito o meu comentário sobre isto que consta desse post (lembrando a estimativa de mortos na Líbia, provavelmente um pouco abaixo dos 15 mil mortos):


a "comunidade científica que estuda estes assuntos sabe perfeitamente dos 35 mil mortos em 1999 nas cheias da Venezuela, dos dois milhões de mortos em 1959 nas cheias (e fome subsequente) da China, do meio milhão de mortos nas cheias de 1939 na China, dos 3,7 milhões de mortos nas cheias de 1931 na China, para não falar dos 20 mil mortos pela seca na Somália, em 2010, dos 450 mil mortos na Etiópia em 1983, também por secas, dos 1,5 milhões de mortos na Índia pelas mesmas razões, em 1965, para falar de muitos outros mais em tempestados ou ondas de calor (75 mil mortos na onde de calor europeia de 2003, ou 141 mil mortos em Myanmar por causa de um ciclone, em 2008, por exemplo)".


No fundo, limito-me hoje a repetir a mesma ideia desse post: o facto de haver um largo acordo da esmagadora maioria de cientistas relevantes sobre a questão técnica da existência de mudança climática decorrente da actividade humana, não há acordo nenhum sobre a melhor forma de lidar com o problema, nem mesmo sobre a ideia, implicitamente defendida nos parágrafos de Miguel Miranda que citei, de que procurar controlar a estabilidade climática através da redução de emissões seja uma estratégia não só viável (há muita gente que nem sequer acha realista esta hipótese) como a solução  mais eficiente (há muita gente que acha que lidar com essa mudança é mais útil que procurar evitá-la).


E menos acordo ainda há de que seja com base em medidas centralizadas numa espécie de governo central que se espera que venham as soluções, em detrimento da criação de soluções descentralizadas em cada pessoa, que - as ideias - sobrevivem e se reproduzem ou desaparecem num processo darwinista, dirão os de formação mais ligada às ciências da vida, ou por acção de uma "mão invisível", dirão os de maior sensibilidade social.


Em qualquer caso, o essencial é que, até agora, o que os dados empíricos, os que resultam da realidade concreta parecem dizer, é que para os mesmos fenómenos extremos, as sociedades têm conseguido encontrar soluções mais seguras e que provocam menos mortos.


E isso não é uma indicação dispicienda: para voltar ao exemplo Líbio, não serão as diferenças de capacidade destrutiva do fenómeno meteorológico extremo que justificam milhares de mortos, mas as diferenças de ocupação do solo resultantes da aparência de controlo das cheias que as barragens destruídas tinham criado, e é aí que está a maior responsabilidade por essas mortes, não tanto na quantidade de emissão de carbono de cada americano.

12 comentários:

  1. noutras eras falava-se de monções.



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  2. Isto parece-me um raciocínio um bocado convoluto de mais.


    As barragens são construídas precisamente para permitir uma melhor (mais produtiva) ocupação do solo.


    E as barragens são construídas com uma solidez tal que aguentam com a tempestade mais forte que se pode razoavelmente esperar.


    Se vem uma tempestade excecionalmente forte e a barragem rebenta, não me parece razoável culpar a ocupação do solo pelos estragos causados.


    Ou bem que culpamos a tempestade por ser mais forte do que o que seria razoável esperar, ou bem que culpamos os engenheiros por não terem construído ou mantido bem a barragem (ou ambas as coisas). É aquilo que se está a fazer na Líbia, e parece-me bem.

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  3. Claro, por isso é que em qualquer país civilizado se pode construir nos leitos de cheia, desde que haja barragens, tens razão.

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  4. O que ocorreu na Líbia não foi uma cheia, foi o rebentamento de duas barragens.
    Se, em Portugal, por exemplo, a barragem de Castelo de Bode rebentasse, então Constância (e não só) iria toda por água abaixo. Não porque esteja construída em leito de cheia, mas porque está muito abaixo da cota de Castelo de Bode.
    Em parte nenhuma do mundo se deixa de construir num local porque uma barragem a montante dele pode colapsar.

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  5. Tens razão, os talvez 15 mil mortos na Líbia decorrem de chuvas intensas, e não de erros de ocupação do território

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  6. Eu compreendo que o Henrique Pereira dos Santos considere os líbios um povo atrasado e pobre, e o governo líbio fraco e descuidado, que permite que o povo líbio construa mesmo por baixo de duas barragens.
    Mas eu lembro-me de há uns decénios ter visitado, na Suíça, uma enorme barragem no curso do rio Aar, e de o meu primo, um suíço, me ter dito, nessa ocasião, "se esta barragem um dia rebentar, todas aquelas povoações que se vêem lá em baixo no vale ficarão totalmente destruídas".
    E, como eu digo, se um dia a barragem de Castelo de Bode rebentar, muitas povoações ribeirinhas do Tejo ficarão totalmente destruídas.
    Não é somente na Líbia que se constrói ou expande povoações a jusante de barragens. Em países muito mais ricos faz-se o mesmo.

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  7. Os sismos são devastadores e continuam a construir em zonas com elevadas probabilidades de se repetir o fenómeno. Lisboa. 

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  8. Quando eu nasci, a Líbia tinha menos de 2 milhões de habitantes, e agora, mesmo após anos de guerra civil, tem praticamente 8 e quase todos habitam áreas urbanas, que se expandiram desordenadamente. Esta calamidade resulta disso - e da inexistência, desde há 12 anos, de Estado, que vele pela manutenção das infraestruturas (aliás, são os líbios que o afirmam) - pois chuvas torrenciais sempre houve naquele "wadi" (foram elas, aliás, que o formaram). Do mesmo modo, se, no mesmo período, o Paquistão passou de menos de 60 para mais de 240 milhões de habitantes, e só sendo habitáveis as altas montanhas ou as planícies aluviais, que desde a pré-história são conhecidas pelas inundações regulares, é óbvio que os efeitos das cheias (e dos sismos) serão muitíssimo piores em termos de perda de vidas e destruição de edificado. E não se pense que isto é um exclusivo do "terceiro mundo": a Austrália passou de 12 para 26 milhões de habitantes e a California de 19 para 39, e o grosso da expansão foi feita em zonas de vegetação "feita" para arder - há incêndios, ardem casas, morrem pessoas e a culpa é das alterações climáticas? Está mais calor, é um facto, mas este tipo de insultos à inteligência descredibiliza o movimento ambientalista e deixa-nos a pensar que a profissão de "apanhado do clima" é só mais uma que o engenho humano criou, e que este alarido é só mais um meio de aumentar impostos e nos vender alguma coisa (no caso do Jornal da Noite da SIC, carros eléctricos). PS: não tinha agradecido a citação no Obs. Obrigado!

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  9. Os dois textos cheios de hubris da certeza, vindo da necessidade de pertencer ás modas -novos baralhos de cartas para aparecerem outros vencedores-  da sociedade  que neste caso são criadas pela Húbris da Universidade  sobre  algo -o Clima - que é impossível compreender tal a quantidade de factores, alguns possivelmente desconhecidos,sem falar em miseráveis períodos de medições muitas delas questionáveis de satélites só nos últimos 50 anos.


    Ainda não vi nenhum cientista explicar as mudanças do clima passado, por exemplo no período medieval. Nem o efeito cumulativo que o clima passado tem no clima presente.

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  10. "o facto de haver um largo acordo da esmagadora maioria de cientistas relevantes sobre a questão técnica da existência de mudança climática decorrente da actividade humana (....)" (HPS)


    Quando em Ciência se invoca o consenso é porque não existe prova. Caso assim não fosse, o consenso, esse corpo estranho ao método científico, não seria preciso para nada.







    Este artigo foi inicialmente publicado na Nature, tendo sido posteriormente retractado fruto de um processo rocambolesco de perversão - corrupção, censura, supressão -  da revisão por pares, tornado público através da divulgação de e-mails levada a cabo por Roger Pielke Jr. (https://rogerpielkejr.substack.com/p/think-of-the-implications-of-publishing). Um processo semelhante ao Climategate de 2009 (https://wattsupwiththat.com/climategate/).




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  11. Cada caso é um caso. Tudo depende da localização de cada barragem e das povoações que já havia, ou há, abaixo dela.
    Se a barragem de Santa Clara rompesse, Santa Clara iria por água abaixo e morreriam talvez 500 pessoas. Se a barragem de Castelo de Bode rompesse, Constância seria riscada do mapa e morreriam 2000 pessoas. Se a barragem do Arade rompesse, Silves ficaria a nadar e morreriam 5000 pessoas. Tudo depende, portanto.
    O facto é que nenhuma dessas três povoações está impedida de se expandir por receio de que as barragens algum dia se rompam.
    Uma coisa são cheias de rios em estado natural, e por isso se proíbe a construção em leito de cheia. Outra coisa totalmente distinta é o rompimento de barragens, que são construções artificiais; ninguém impede povoações de se desenvolverem por receio de tais rompimentos.

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  12. A especialidade do Miguel Miranda é geologia marinha e não climatologia ou alterações climáticas. Portanto a opinião dele é equivalente à opinião de um qualquer cientista que estuda ciências exactas, e que tenta interpretar conhecimentos de um campo no qual não conhece em detalhe a literatura nem os modelos (e nestas coisas de previsões, o diabo está nos detalhes). 
    (Relativamente a soluções para os fenómenos extremos lembro-me de ele defender que as pessoas deviam ser proibidas de viver nos territórios rurais. Deviam ser trazidas para as cidades onde podem estar protegidas e deixar o campo para os bichos. Não é a solução que me agrade particularmente.).

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