sexta-feira, 20 de outubro de 2023

"Exploradores portugueses e reis africanos"

Actualmente leio muito poucos livros e lentamente (e nem quero imaginar a lentidão com que vou ler o que comecei há dois dias, "Elogio della crescita felice, contro l'integralismo ecológico", que um dos meus irmãos, casado com uma italiana, que estudou e viveu em Itália, me emprestou insistindo que eu leia no original, em italiano, língua que nunca aprendi, de Chicco Testa, que tem outro livro com um título interessante "Contro(a) natura. Perché la natura non é buona né giusta né bella").


O último que li, e que se lê muito bem e rapidamente, não fora eu dedicar tão pouco tempo a isso, foi o que dá título ao post, de Frederico Delgado Rosa e Filipe Verde, que uma cunhada me deu nos anos.


Aconselho vivamente, é mesmo um bom livro para dar a qualquer pessoa a partir da adolescência, desde que tenha um interesse mínimo sobre o mundo em que se vive ("uma curiosidade adolescente", dizem os autores deles próprios para caracterizar as pessoas para quem escrevem o livro).


Os autores trabalham em etnologia e antropologia e tiveram uma ideia genial: descrever as viagens dos exploradores portugueses pelo interior de África, seguindo no essencial os seus relatos, mas com uma linguagem e visões modernas dessas explorações.


O livro facilmente poderia cair na tentação woke actual de pretender olhar para esses relatos, e as viagens que os motivam, com olhos de hoje, mas felizmente os autores devem estar vacinados contra esses anacronismos e fazem um esforço claro de objectividade, procurando olhar para os mundos descritos com os olhos de quem os viveu, no tempo em que os viveu, independentemente de ser hoje que o livro é escrito.


São relatos de homens brancos colonialistas, com certeza, mas homens brancos colonialistas com as definições do tempo em que eram homens brancos colonialistas, e não homens brancos colonialistas com as máscaras woke que estas palavras criam, se se pretender usá-las com o significado que hoje têm, e não com o significado que tinham nessa altura.


Apenas para entrada, digo que é muito interessante a referência ao facto de muitos ambaquistas (leiam o livro para perceber melhor o termo, mas corresponde aos originários de Ambaca, importante entreposto angolano fundado nos inícios do Século XVII) serem frequentemente considerados brancos pelas populações do interior de Angola, independentemente de serem brancos, pretos, ou dos muitos tons de pele que há entre os dois extremos - a miscigenação foi inerente à actividade de entreposto comercial entre o interior de Angola e Luanda - esquecendo a associação entre tom de pele e pertença a uma cultura, bastante típica dessa época e uma das bases do racismo (curiosamente é a inversão desta forma primária de racismo que muitos dos expoentes do wokismo actual defendem, frequentemente sob a capa teórica do racismo estrutural).


Um bom livro, e uma boa vacina contra o wokismo.

6 comentários:

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