(…) A sabedoria medieval mantém-se sempre, portanto, na convicção de que não pode haver verdadeira sabedoria senão em Deus. Propõe-se chegar a ela pela razão e pelo amor. Os teólogos preferem a razão, mas os monges e os místicos, o afecto. Renovam, assim, o antiquíssimo debate que opõe a filosofia à poesia. Paradoxalmente, ambas as escolas na explicação platónica do mundo, que gaz de Deus o arquétipo das ideias e dos seres criados. A perspectiva filosófica não impede porém, a expressão poética e, muito menos, o privilégio concedido ao afecto. Paradoxalmente, também, é o mais poético dos sábios medievais, Francisco de Assis, aquele que mais ama as criaturas e menos sabe de filosofia. Nesse sentido é também ele que contribui para considerar a realidade deste mundo em si mesma, embora receba de Deus o que mele há de bom. Contribui portanto, para libertar a concepção do mundo da interpretação platónica. Neste sentido, abre também caminho ao humanismo, cristão e não cristão. Ou seja, abre também o caminho a Cervantes, Shakespeare e Montaigne.
José Mattoso – In Levantar o céu, – Temas e debates, Circulo de Leitores
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