Cristiano Ronaldo não se dignou agradecer, findo o jogo com a Noruega, aos adeptos portugeses no estádio; CR7 apareceu no treino de hoje e logo desapareceu, após breve conversa com Jesus (Jorge). Carlos Daniel foi solicitado para exprimir o seu parecer sobre o sucedido, e outros tantos especialistas também; a notícia vale um bom punhado de minutos nos jornais televisivos, uma tarde inteira deles.
CR7 foi, decerto, o maior jogador português de todos os tempos e uma carreira de mais de vinte anos. A Pátria agradece-lhe muitas e muitas alegrias. Mas o tempo não perdoa, e CR7 parece não querer perdoar o tempo. Que já não vai lá das pernas é natural, e disso nos demos conta no último Mundial. Não obstante, foi ainda convocado para a Liga das Nações. Não alinhou nem jogou no sobredito derradeiro confronto. Ficou no "banco", o que para CR7 constituirá uma humilhação e uma razão para amuo. Jesus, por seu turno, não será exactamente um paradigma de diplomacia nem no caso, acrescente-se, tem de ser. A novela ainda vai no adro, em suma.
E é pena, mesmo descontando a desestabilização que possa causar no "grupo de trabalho". Porque se recusará CR7 abandonar a lide em beleza? O que lhe terá subido à cabeça? Sobraria sempre algum tempo, em posteriores e mais desafogados desafios, para nos deixar com algum seu inesquecível brilharete.
Na política também é assim. Passo por cima da II República. Driblo-a e vou directo ao Conselho de Revolução de má memória. O paralelo é injusto, porque CR7, já o disse, proporcionou-nos muitos momentos de euforia ao longo de muitos e gloriosos anos; enquanto o CR, encarregado de zelar pelo cumprimento do Programa do MFA, elevado à condição de orgão de soberania, pautou sempre a sua intervenção por uma abusiva e tendenciosa intromissão na democracia representativa. Extinto com a revisão constitucional de 1982, foi o cabo dos trabalhos para empurrar os seus membros para fora do Estado. Os militares tinham tomado o gosto ao estádio, já não dispensavam os aplausos da Esquerda minoritária que lhes era fiel.
Tudo isto é algo apenas porque, ainda agora, serão muitos aqueles para quem o futebol é a verdadeira política, e a política um futebol mal jogado entre meia dúzia de equipas somente. CR7 arrisca-se a (depois de uma fantástica carreira) perturbar mais os nacionais do que o defunto CR.
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