quarta-feira, 30 de setembro de 2026

interrail aos 57: breve relato.

Em 1990, tinha eu 21 anos, fiz o meu primeiro Interrail. O Muro de Berlim tinha acabado de cair. Depois de uma passagem por Paris e pela Holanda, rumei a Leste. Visitei a Hungria, a Checoslováquia e a Roménia.

A Roménia, na altura um país muito pobre, foi o que mais me impressionou. Tendo optado por visitar apenas cidades de média dimensão, deparei-me com pessoas que tinham enorme interesse e curiosidade em falar com estrangeiros. Muitas nunca tinham tido essa oportunidade. Estávamos em Agosto e Ceaușescu tinha sido fuzilado apenas oito meses antes.

Aliás, e isso é algo que ainda hoje se mantém, uma das coisas de que mais gosto nas viagens é falar com as pessoas. É curioso ver como as coisas mudam: a Checoslováquia já não existe enquanto país e a outrora paupérrima Roménia tem hoje um nível de riqueza semelhante ao de Portugal.

Este ano, desafiado por amigos, voltei às lides. Aos 57, neste Setembro, lá fui eu para mais um Interrailzito.

O espírito do Interrail foi, digamos, um bocadinho aldrabado. Não saímos de Santa Apolónia: apanhámos um avião para Budapeste, onde iniciámos a marcha. Não dormimos em comboios nem em albergues, optámos por hotéis e até fizemos um, quanto a mim desnecessário, upgrade para primeira classe, serviço que, aliás, nem sequer está disponível em muitos comboios.

Se tivesse decidido sozinho, teria feito the hard way: partir de Santa Apolónia, dormir em sítios manhosos e, naturalmente, viajar em segunda classe.

Mas isso sou eu, que sou um rústico serrano. Os meus amigos são finos como o azeite.

Do espírito interrailista manteve-se, entre outras coisas, a mochila às costas — não houve cá malas de rodinhas — e a inevitável lavagem intermédia de roupa.

Andámos por Budapeste, Bratislava, Viena, Hallstatt, Salzburgo, Nuremberga, Estrasburgo, Colmar — as aldeias em redor são lindíssimas —, Cochem e Luxemburgo, onde apanhámos o avião de regresso.

Nenhuma cidade me desiludiu.

Interagi um bocadinho menos com as pessoas do que gostaria. Aliás, os meus companheiros de viagem, mais contidos, já gozavam comigo por eu gostar de meter conversa com toda a gente. Mas, ainda assim, foi uma óptima experiência.

Gosto de comboios. Gosto de não ter o stress de estacionar o carro. E continuo a achar que os comboios são uma forma superior de civilização.

Prefiro muito mais uma viagem deste tipo, de mochila às costas, a estar num resort all inclusive a beber Negronis.

E até gosto muito de beber Negronis.

4 comentários:

  1. Caro João-Afonso Machado!
    Confesso que nunca fiz nenhum inter-rail e tenho pena. Apenas viagns de avião e depois pela estrada fora. Visitei os EUA, França, Espanha, Bélgica, Inglaterra e Holanda e gostaria de visitar Itália, Áustria e Hungria.
    Um abraço!

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  2. Andar de mochila às costas faz muito mal aos músculos lombares. Cuidado.

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  3. "a outrora paupérrima Roménia tem hoje um nível de riqueza semelhante ao de Portugal."

    Sintam vergonha.
    Enquanto, Portugal afunda-se com as escolhas socialistas dos seus eleitores, a Roménia continua a tentar livrar-se do socialismo do passado.



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  4. Veja o programa "Viagens inesquecíveis de comboio" na RTP2 às quintas-feiras pelas 20h.

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