Ontem estive no lançamento do livro "Os escravos na ONU" de José Pimentel Teixeira.
Sobre o livro, não posso dizer nada, que ainda não li, excepto que gosto da maneira informada e livre com que José Pimentel Teixeira tem escrito sobre a inacreditável resolução da ONU considerando o tráfico transatlântico de escravos (e apenas esse) como o maior crime contra a humanidade da história.
A apresentação, para além do autor, foi feita pela historiadora (com formação jurídica) Cristina Nogueira da Silva, que tem, sobre o assunto, uma visão radicalmente diferente da do autor.
O que me interessa é uma afirmação que, pelos vistos, tinha sido feito no programa Contra-corrente, do Observador, na Sexta-feira, e que foi ali repetida.
A escravidão foi um crime? perguntava-se Cristina Nogueira da Silva.
A resposta é de antologia: como historiadora não posso dizer isso, mas como cidadã, digo que sim.
Ou seja, com a melhor informação produzida pela investigação, digo uma coisa, como as minhas emoções, digo outra.
Uma ilustração perfeita da confusão mental que povoa muito do discurso woke, seja sobre isto, seja sobre Gaza, seja sobre a distinção entre mulheres e homens.
Racionalmente, e com a melhor informação disponível, eu tenho umas conclusões, mas na vida prática, no meu voto, no meu activismo social, funciono com outras conclusões, a coberto de noções subjectivas como empatia e outras abstracções impossíveis de verificar.
Por exemplo, o artigo 13º da declaração universal dos direitos humanos (note-se, os valores dessa carta não são os valores do Ocidente, são valores universais, a especificidade ocidental é tentar levá-los a sério) diz taxativamente: "Artigo 13 1) Todos os seres humanos têm direito à liberdade de circulação e residência dentro das fronteiras de cada Estado. 2) Todos os seres humanos têm o direito de deixar qualquer país, inclusive o seu próprio e de regressar ao seu país".
Aplicando à situação de Gaza, deveríamos estar empenhados em que cada habitante de Gaza tivesse liberdade de sair dali, se quisesse.
"Limpeza étnica, limpeza étnica" dizem os activistas que querem impedir um palestiniano de ser feliz noutro lado qualquer porque o melhor para esse palestiniano em concreto é que seja feliz na sua terra, decreta esta gente cheia de empatia, ignorando olimpicamente a vontade concreta daquela pessoa concreta, dentro do seu contexto concreto.
O mesmo tipo de dissonância entre razão e emoção acontece nas discussões sobre escravidão, uma constante histórica que atravessa quase toda a história da humanidade até que no Ocidente o sentimento de profunda injustiça associado à condição de escravo (convém não confundir com trabalhos forçados e outras malfeitorias associadas à exploração do homem pelo homem, o que define a escravidão é muito mais profundo, é a negação da personalidade) cresceu o suficiente, não só para acabar com a escravidão nessa parte do mundo, mas para a combater em qualquer lado.
Racional e objectivamente é claro que a escravidão foi combatida a partir dos países ocidentais e dos valores ocidentais, mas o discurso woke encontra umas conversas com afrodescendentes (um conceito que abrange os meus filhos, visto que africano sou eu, independentemente da quantidade de melanina da minha pele), em que conseguem identificar o sofrimento por uma escravidão que acabou há três ou quatro gerações, pelo menos.
Note-se que o uso do termo afrodescendentes é apenas uma maneira de disfarçar a brutalidade racista e paternalista do que estão a dizer: coitadinhos dos pretinhos, são de uma raça especial que absorveu geneticamente o sofrimento dos seus bisavós, e por isso têm direito a que os outros assumam responsabilidades para com eles porque, coitadinhos, esse sofrimento absorvido geneticamente os torna incapazes para fazer as suas próprias opções e governarem a sua vida de forma autónoma, independente e livre.
Não dou para esse peditório.
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