quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A última página

O meu principal hobby será, porventura, a História europeia do século XX. E a personagem que mais admiro será, muito provavelmente, Churchill. 

Churchill é, para mim, em muitos domínios, uma figura simultaneamente inspiracional e aspiracional. Tem imensas características nas quais me revejo ou que aprecio de forma aspiracional. 

Churchill, tal como eu, gostava da liberdade. Foi o primeiro grande inimigo de Hitler. Foi aquele que nunca se deixou iludir, nem mesmo quando quase todos festejavam os acordos de Munique. 

Escrevia muitíssimo bem e fazia-o de forma prolífica, qualidade que admiro particularmente. A sua História da Segunda Guerra Mundial é deliciosa. A esse propósito, Churchill dizia: «A História irá tratar-me bem, pois tenciono escrevê-la.» 

Aliás, outra das qualidades de Churchill que muito admiro era o seu enorme sentido de humor e a sua fina ironia. Existem inúmeras citações de Churchill absolutamente deliciosas. 

Churchill gostava de champagne, whisky e charutos. Eu também, embora os consuma em doses muito mais parcimoniosas. Quanto aos charutos, consumo-os em doses quase homeopáticas, até porque o seu preço está pela hora da morte. 

E pronto: o grande Churchill, com todas as suas qualidades, tornou-se o símbolo maior dos conservadores britânicos. 

No entanto, no fim, Churchill acabou por se tornar também, de certa forma, um embaraço para os próprios conservadores. Depois de ter deixado de ser primeiro-ministro aos 80 anos, não soube «deslargar» o partido, mantendo-se penosamente como deputado até aos 89 anos. 

Era evidente que o seu tempo já tinha passado. Já não era o Churchill que fora. Já não acrescentava ao partido aquilo que acrescentara durante décadas. E, por vezes, era até penoso vê-lo. 

Também Mário Soares teve dificuldade em retirar-se a tempo. A sua última candidatura presidencial, aos 81 anos, não lhe acrescentou nada e terminou num pouco abonatório terceiro lugar. 

Sim, por vezes pessoas absolutamente excepcionais têm grandes egos e, como tal, têm dificuldade em perceber quando chegou a altura de sair. 

E talvez seja essa uma das ironias da grandeza: quanto maior foi aquilo que se fez, maior pode ser a dificuldade em aceitar que já não se é aquilo que se foi. 

Mas não é por isso que serão recordadas. 

Serão recordadas pelos seus feitos, pelo que construíram, pelo que conquistaram e pelo lugar que ocuparam na História. Não pela forma menos airosa como geriram a saída. Ou, pior ainda, pela dificuldade em perceber que era tempo de sair. 

Aliás, grande parte da beleza e do fascínio dos seres humanos reside precisamente na sua complexidade e nas suas contradições. A ideia de seres humanos sem defeitos, sem fragilidades ou sem contradições, quimicamente puros, não me seduz particularmente. 

A perfeição tem tanto de aborrecida como de enganadora. 

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