sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O mercado e a sensibilidade social

 No tempo da troica há uma resposta célebre de Maria Luís Albuquerque a um deputada que a acusava de falta de empatia para com as pessoas prejudicadas pelas medidas do governo: "Senhor deputado, eu empatia tenho muita, não tenho é dinheiro".

Gosto muito desta resposta porque ela é clara a separar o que deve ser separado: uma coisa são os mercados, o mesmo é dizer, as interacções livres entre pessoas dispostas a comprar e vender bens ou serviços, outra coisa é assistência social, isto é, a relação desigual entre quem não pode e precisa e quem pode mas prescinde.

Comecemos no princípio: o único sítio em que há mercados perfeitos é nos livros de economia, na vida real há sempre assimetrias que não permitem a existência de mercados perfeitos.

Ainda assim, os mercados são o instrumento mais eficiente de alocação de recursos porque têm um sistema de produção de transmissão de informação sem paralelo, o sistema de preços.

Quando os preços de aproximam daquilo que os livros de economia dizem que são, o livre ponto de encontro entre o comprador e vendedor, a informação que transmitem a todos é brutal, muito rápida, muito eficiente e permite que todos se adaptem ao que o sistema de preços está a dizer, produzindo mais ou menos, comprando mais ou menos.

Por exemplo, o mercado da habitação em Portugal (eu diria, em toda a Europa e provavelmente em quase todo o mundo ocidental, embora com diferenças que não podem ser desvalorizadas) está a dizer, há uma quantidade de tempo inacreditável, que há falta de casas.

Ao mesmo tempo, os governos empenham-se a procurar controlar os preços, isto é, desligar os sensores que dão indicações aos produtores e consumidores, limitando os incentivos para que sejam produzidas mais casas e mantendo em vigor um sistema de controlo administrativo da construção que, na verdade, impede uma resposta eficaz ao problema central: há demasiada gente que não consegue ter rendimentos suficientes para ter uma casa que considere razoável.

O caso de Maricarmen, que deu origem a uma proposta de lei relâmpago no sentido de desligar o sistema de preços em algumas situações, teve como efeito imediato uma baixa relevante do número de anúncios de casas para alugar, um efeito mais que estudado e clássico: o controlo de preços, limitando os incentivos para que a oferta e a procura se adaptem, não geram preços mais razoáveis, geram escassez.

Pretender que deve ser nos mercados que se deve procurar a solução para as situações sociais de Maricarmen (e nem sequer estou a discutir se a informação sobre a sua fragilidade social é rigorosa ou não) é um erro, situações sociais resolvem-se com filantropia ou com o Estado, ou com uma combinação de filantropia e Estado, não se resolvem "domesticando os mercados", como uma vez disse Capoulas Santos, quando era ministro da Agricultura.

Os mercados, por definição, sendo interacções livres entre pessoas dispostas a comprar e vender, não se domesticam, eles reaparecem ou através da escassez ou através de mercados paralelos, fora do controlo do Estado (como acontece, actualmente, com o mercado de arrendamento em Portugal, em que senhorios e inquilinos preferem prescindir da protecção da lei e confiar na palavra uns dos outros, de tal maneira os riscos de regulamentação são elevados para uma das partes).

A justiça procura-se nos tribunais, não nos mercados, a sensibilidade social encontra-se na acção voluntária ou na canalização dos recursos dos contribuintes através do Estado, não peçam aos mercados mais do que aquilo que podem dar: uma eficiente alocação de recursos que cria riqueza de forma desigual.

10 comentários:

  1. Portugal (e a Europa ) precisam de terminar a sua americanizaçao. Ja foi feito muito, é necessário acabar com as restantes amarras socialistas.
    Eliminar regulação, despedir funcionários públicos, reduzir peso do Estado, deixar o mercado decidir como qualquer economia liberal.
    Leiam Ayn Rand

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    1. Quem é a pessoa que dá pelo nome ou representa o “mercado"? Quais são os seus dados fiscais? Se decide os Portugueses querem conhecê-la.

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    2. Não conseguiria imaginar comentário mais obtuso.

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    3. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  2. Bem fala HPS. Mas esta argumentação, lógica e factual, nada pode contra a fé socialista.

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  3. O problema são as falácias espalhada pela cs, como as seguintes

    Evolução Temporal em Lisboa
    • Anos 2000–2010: Os preços iniciaram a década perto dos 1.100€–1.200€/m² e mantiveram-se estáveis ou com ligeira alta até à crise financeira de 2008. Entre 2000 e 2015, Portugal registou uma desvalorização acumulada nos imóveis devido à crise económica e intervenção da Troika.
    • 2015–2020 (O Ponto de Viragem): Após 2015, o mercado disparou com o turismo, o programa de Vistos Gold e a reabilitação urbana. Em 2019, a média já superava os 2.000€ a 3.000€/m², atingindo cerca de 3.333€/m² no início de 2020.
    • 2021–2026 (Máximos Históricos): A escassez de habitação e a alta procura continuaram a puxar os valores para cima. O valor médio em Lisboa ultrapassou a fasquia inédita dos 5.000€/m², situando-se nos 5.082€/m² no início de 2026.

    Quem ler isto pensa que em 2 décadas o preço do m² quintuplicou, enquanto os salários não cresceram nem perto disso.
    O real problema é a falta de construção e o Estado não deixar o mercado funcionar

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  4. «...Senhor deputado, eu empatia tenho muita, não tenho é dinheiro...»

    A dr.ª Maria Albuquerque não tinha dinheiro porque gastou-o todo para poder continuar a viver acima das suas possibilidades, à boa maneira do dr. Pedro Coelho e o seu bando.

    «...há falta de casas...»

    Você está a mentir, não há falta de casas, imóveis construídos para habitação não podem ser colocados para alojamento local, turístico, temporário, ou de curta duração, é proibido por Lei, no entanto a fiscalização não é feita pelos executivos que governam as Câmaras Municipais o que faz com que as casas que deveriam estar para arrendar não se encontrem nessa modalidade.

    Construir mais casas não resolve o problema, muito pelo contrário agrava e mantém esse problema.

    O que faz aumentar as rendas para valores ilegais e que não correspondem à realidade é a ilegal, criminosa, e inconstitucional “leia das rendas” redigida pela ex-Ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território, Maria Graça, do XIX governo liberal/maçónico do dr. Pedro Coelho; basta revogar essa lei e o valor dos arrendamentos voltam ao normal.

    «...o mercado de arrendamento em Portugal...»

    O problema é que não existe “mercado de arrendamento” porque o bem imóvel não possui características para o efeito.

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    1. Bem-vindo Figueiredo! Já tinha saudades de comentários de um escrivão a quem só faltam as penas ... ;)

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  5. "porque têm um sistema de produção de transmissão de informação sem paralelo, o sistema de preços."

    Um das razões porque os preços nos serviços do Estado tem de ser alem de reais também anunciados.
    Vais a uma consulta no SNS , está lá preço que pagas e também o preço real.
    Escola Publica idem, mesmo que o preço a pagar pelo cliente directo seja zero.

    Tudo tem de ser feito para termos mais informação.

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  6. Só os mercados conseguem alocar recursos de forma eficiente.
    Por isso quem é liberal defende a imediata extinção de tudo o que é Fundação, Observatório e Instituto Público.
    Acabar com esse antro de sorvedouros do dinheiro dos contribuintes e deixar o mercado desempenhar o seu papel

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