Lembrei-me disto a propósito duma anunciada nova — ou será
outra vez a mesma? — mudança de identidade de marca do Sporting Clube de
Portugal, que é o meu clube. Há um provincianismo gritante nesta pressa
"portuguesinha" de querer redesenhar o que é “sagrado”. Já no início
do século, ao tempo da presidência de José Roquette, a ânsia de cosmética
visual não correu muito bem. Resta esperar que, desta vez, impere o bom senso e
se dite o regresso à imagem clássica, afinal aquela que consta, e bem, no
coração do emblema: o leão rampante.
Curioso é constatar como esta nossa pressa em rasgar a
herança gráfica contrasta violentamente com a sobriedade de outras paragens. Na
leitura de As Vantagens do Pessimismo, do filósofo britânico Roger
Scruton, saltou-me à vista a longevidade da High Wycombe Royal Grammar School,
a escola secundária pública e gratuita frequentada pelo autor, fundada em 1542.
Quase quinhentos anos no mesmo sítio, com o mesmo propósito. Se fizermos uma
pesquisa rápida pelas ilhas britânicas, percebemos que o Banco Barclays e a sua
mítica águia operam desde 1690. O prestigiado semanário londrino The
Spectator dita tendências desde 1711. Lá, os símbolos contam uma história
de resiliência; cá, contam uma história de amnésia.
A resiliência das marcas e dos seus símbolos reflecte muito
sobre a comunidade de onde emanam. É irónico que a bandeira de uma nação tão
antiga como a nossa tenha pouco mais de cem anos. É igualmente caricato que a
nossa rádio pública, nascida em 1935 como Emissora Nacional, já tenha mudado de
nome, de logotipo e de "foco estratégico" vezes sem conta até
desaguar na actual "Antena 1". Em Portugal muda-se o boneco para
fingir que se muda a substância. Os portugueses não resistem a três tentações
na ânsia de deixarem marca numa instituição por onde passem: inaugurar uma obra de construção civil, mudar os
estatutos da associação e... fazer um rebranding — se possível criado pela
sobrinha que é designer e tem muito jeito.
Os gestores contemporâneos parecem esquecer que uma marca
antiga possui, só por si, uma incalculável vantagem competitiva no mercado
saturado da comunicação. Citando de novo Roger Scruton, “as instituições que
inspiram lealdade raramente são aquelas que criamos do zero, mas sim aquelas
que herdamos”. O património simbólico não é um fardo velho; é um escudo. É
História viva. E a História respeita-se, não se reinventa ou adultera com
maquilhagem.

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