segunda-feira, 15 de junho de 2026

O jornalismo que mente

João Miguel Tavares fez uma crónica recente sobre a dificuldade do debate público sério, usando apenas políticos para demonstrar como se distorce a realidade, impedindo discussões racionais.

José Manuel Fernandes, hoje, na mesma linha, dá o passo seguinte, responsabilizando também o jornalismo pela forma leviana como fala de assuntos que têm alguma complexidade, aldrabando facilmente os termos da discussão.

Ana Sá Lopes faz a demonstração prática (como, aliás, já o tinha feito no dia anterior Pedro Adão Silva) de como mentir tranquilamente é banal no jornalismo actual, quer quando jornalistas se transformam em opinadores, quer quando supostamente se mantêm na linha noticiosa, sem opinião (uma distinção ficcional que é outra mentira tranquila do jornalismo actual), para defender partidos novos, que os que existem não servem para travar o Chega (uma obsessão pessoal de Ana Sá Lopes que ele trata como se fosse uma verdade revelada e um imperativo moral das pessoas de bem).

Há uns tempos, estupidamente, disse a um jornalista, em directo num programa de televisão em horário nobre, a propósito das teorias de conspiração sobre fogo posto, que o que o jornalista estava a dizer era de senso comum (como ele tinha dito que era) mas não era de bom senso, e logo que acabou o directo pedi-lhe desculpa para evidente má-criação (eu sou socialmente muito incompetente e acontece-me dizer coisas que só depois percebo que podem ter leituras muito desagradáveis que eu teria a obrigação de prever), o senhor ficou tão ofendido que, mesmo tendo eu pedido desculpa imediatamente, ficou a mandar-me mensagens até às duas ou três da manhã, suponho eu, por ter sentido que teria posto em causa a sua integridade como jornalista.

Este problema do jornalismo que é militantemente mentiroso está longe de ser recente, basta pensar em tudo o que publicaram os jornais durante a intervenção da troica, o que escreveram sobre Passos Coelho, por exemplo, a propósito da proposta, bem sensata e razoável, que nos teria poupado a todos muitos problemas, da alteração da TSU proposta por Vítor Gaspar.

Se se quiserem exemplos recentes, é olhar para a lei laboral, para a proposta de Prestação Social Única, para a tolice repetida em todos os jornais de que o trabalho forçado nas prisões teria sido reinstituído, a propósito dos fogos, e outras coisas que tais, para verificar que o jornalismo se está a tornar num activo tóxico para a democracia, envenenando qualquer discussão política com a substituição dos factos pela orientação política dominante na redacções dos jornais.

A mera defesa corporativa a que se entregam os jornalistas, sem sequer terem consciência de que vivem numa bolha social completamente distinta das pessoas comuns (qual será a percentagem de jornalistas que têm mesmo de apanhar transportes públicos na sua vida diária, por não usarem transporte individual, por exemplo?) demonstra como, ao contrário do que diz Ana Sá Lopes, não é em partidos novos que devemos ter esperança, é mesmo num jornalismo que deixe de pretender mudar o mundo e abraçar as boas causas, limitando-se ao que é a sua função: publicar o que alguém não quer que seja publicado, tudo o resto é propaganda.

5 comentários:

  1. "eu sou socialmente muito incompetente e acontece-me dizer coisas que só depois percebo que podem ter leituras muito desagradáveis que eu teria a obrigação de prever"
    Não creio.
    A mim também me acontece, mas não é por ser socialmente incompetente, é mesmo porque chegados à idade de avô, e com muitos anos de experiência de vida, já perdemos todos os filtros, e sai tudo pela boca o que o cérebro pensa.
    Os senhores jornalistas, não podem continuar a dizer o que lhes vier à cabeça sem ninguém os confrontar e contrariar. A começar pelas próprias direcções dos jornais

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  2. È a profissão mais desonesta que existe no Ocidente, não há outra profissão onde a maiorias dos seus profissionais escolheu fazer outra coisa, no caso: Activismo.

    Agora que lembrou a Troika, lembrarmos como com Governos do PSD reduzir o défice --nem falo de superavits-- para o jornalismo era quasi crime contra a humanidade em artigos cheios de adjectivos, com graves consequencias sociais diziam. Mas quando chegou o PS(com BE e PCP) ao governo não só o combate ao défice, como ainda mais duro a redução da dívida ou seja ter superavits, passou a ser parte da paisagem.
    Por milagre passaram a ser coisas de que os jornalistas deixaram de colocar culpa dos males do pais.

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  3. "...jornalismo que deixe de pretender mudar o mundo e abraçar as boas causas, limitando-se ao que é a sua função: publicar o que alguém não quer que seja publicado, tudo o resto é propaganda." É melhor esperar sentado. Um jornalixo que vive de subvenções e publicidade institucional, nunca irá incomodar o poder com publicações ou perguntas "chatas".

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  4. Claro que o jornalismo mente. Já reparam a projecção, ou melhor, a falta dela, que a prisão da activista Ana Margarida Baptista merece? Esta militante do Bem ia, com outros caravanistas, por terra, levar "ajuda" para a Faixa de Gaza. Acabou, (acabaram todos os caravanistas) detidos no leste da Líbia pelo "governo" lá do sítio. O Nacional Jornalismo deu destaque ao caso? Que comentadeiros rasgaram as vestes de indignação? Silêncio! Até o Tozé Seguro da República está caladinho que nem um rato. Porquê? Porque os activistas não foram detidos pelo inimigo correcto! Não foi o "Estado Sinonista" a deter tão santa gente. Não encaixa na narrativa, logo, não existe.
    E a jovem em causa, foi detida em maio ... e por lá continua a gozar da hospitalidade islâmica.

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  5. Só falta ela ser detida também pelos Israelitas, e assim já poderá comparar.



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