quarta-feira, 17 de junho de 2026

A mentira pública é um cancro consentido no debate público

Estou a citar Pedro Adão e Silva, mas poderia citar grande parte do comentariado e do jornalismo que alguma vez disse qualquer coisa sobre a Spinumviva, porque, com variações, esta mentira continua a ser repetida (ou, pelo menos, consentida) sem o menor pudor.

"Em 21 de fevereiro de 2025, Luís Montenegro respondia no parlamento, no âmbito de uma moção de censura do Chega: "O objectivo central do projecto era o investimento vinícola e turístico da quinta que temos no Douro". O projecto era a Spinumviva e, perante as informações dadas pelo primeiro-ministro, a acusação de André Ventura de que poderíamos estar perante ganhos pessoais de Montenegro por causa da Lei dos Solos era, de facto, absurda. Seis dias depois, o Expresso dava conta de que, afinal, o que estava em causa não eram umas leiras herdadas em Rabal, mas um conjunto de prestações de serviços a uma carteira de clientes angariados entre Espinho e Braga."

Num país normal, com respeito institucional pela verdade - o que inclui o respeito dos jornais pelo que publicam - Pedro Adão e Silva estaria despedido do Público entre hoje e amanhã, tal é a dimensão da mentira do que escreve (que inclui uma citação truncada e fora de contexto, para justificar a alarvidade do que diz).

Do tal dia 21 de Fevereiro eu transcrevo parte do que disse Montenegro numa intervenção de pouco mais de doze minutos, facilmente disponível para qualquer pessoa que a queira encontrar.

"Esta moção de censura é sobre o primeiro-ministro. É sobre a minha vida profissional e patrimonial. É sobre o meu caráter e a minha honra. Há muitos anos que sou alvo de ataques estranhos e violentos que nunca percebi se eram originados por maldade pura, por inveja ou pelo susto que alguém pudesse sentir por me apresentar tão livre e independente.

Vou criar uma entidade para o trabalho fora da advocacia, envolvendo toda a família.

De forma sub-liminar, dado que em casa todos sabem que o objectivo central do projecto é um investimento vinícola, e eventualmente turístico, na quinta que temos no Douro, pode ser que ainda vá a tempo de incutir aos meus filhos … que os meus filhos não sintam vontade de se desfazer do que era dos seus bisavós

O objecto da sociedade, é amplo. Actividades de consultadoria de gestão, de exploração agrícola, turística e empresarial. Planeamento, organização, controlo de informação e gestão e reorganização de empresas. Organização de eventos. Consultadoria sobre actividade seguradora, protecção de dados pessoais, segurança e higiene no trabalho. Política de marketing. Gestão de recursos humanos. Gestão e comércio de bens imóveis  … próprios ou de terceiros, arrendamento e outras formas de exploração dos mesmos. Produção e exploração agrícola, predominantemente viti-vinícola.

O pico de facturação de 2022 e 2023 explica-se pela conjugação de dois factores.

O primeiro, e mais importante, foi que em 2022 … pela prestação de serviços de reestruturação de uma empresa familiar do comércio de combustíveis, que envolveu consultadoria de gestão, planeamento estratégico apoio e formalização das respectivas operações no âmbito de processos negociais de arrendamento, fornecimento ode combustíveis, embandeiramento de estações de serviço … Esse trabalho foi responsável por sensivelmente metade do volume de negócios de 2022.

2022 e 2023 foram também os anos … [de maior trabalho sobre] protecção de dados.

Os clientes âncora e com necessidade de acompanhamento permanente são … uma empresa de retalho … uma empresa que gere unidades hoteleiras e um negócio físico e on line … um estabelecimento de ensino privado … um grupo de farmácias … e um grupo industrial do ramo do aço.

[segue-se a descrição do tipo de trabalhos executados para esses clientes e distribuição do rendimento do agregado familiar nos quinze anos anteriores]

O que o Expresso fez, seis dias depois, foi dar um passo que Luís Montenegro se recusou (e ainda recusa, do meu ponto de vista, bem, no campo dos princípios, embora com custos políticos relevantes), isto é, identificar um dos clientes, a Solverde.

Que mais de dois anos depois, com a intervenção disponível em qualquer canto e esquina, um comentador do regime ache normal mentir desta forma, não é um problema desse comentador (que pode ser simplesmente negligente e acreditar em jornais, nunca tendo perdido 12 minutos a ouvir a intervenção no original), é um problema nosso, que aceitamos este grau de mentira no espaço público, quando ela vem do nosso lado.

Se André Ventura disser uma mentira deste tamanho (é um "se" benévolo, deveria escrever "quando", o que não faltam são mentiras de Ventura com este calibre e desfaçatez) cai-lhe em cima o Carmo e a Trindade, ficando os jornais e televisões cheios de virgens ofendidas.

Mas como a mentira é sobre Montenegro e serve o discurso populista da esquerda e do Chega, siga a banda, que não se passa nada.

Sempre fomos assim, mas um dos grandes legados de António Costa foi ter estado oito anos a lançar uma chuva dissolvente sobre as instituições, incluindo a imprensa, que nos leva a achar normal que isto seja possível num jornal, e ainda o consideremos como de referência.

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