Logo pela manhã dou de caras com um texto atribuído a António José Saraiva, mas cuja autoria, sobre a qual tenho as maiores dúvidas, não fui verificar.
"Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o exército português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional, e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa."
Fiquei com vontade de escrever um post sobre isso, mas enquanto me decidia, li o texto de hoje de Helena Matos, no Observador, que me poupa tempo e espaço para explicar que não, não havia trunfos nenhuns, como diria Trump, a hierarquia militar não tinha cartas nenhumas, como acontece a qualquer hierarquia cuja legitimidade de comando desaparece.
E o comando político, o que resulta do 25 de Abril, tem um interesse estratégico comum com os soldados, sargentos e oficialidade: resolver rapidamente a questão colonial, antes que ela contamine o processo de democratização em curso em Portugal, como tinha contaminado a Primavera marcelista, bloqueando-a.
Do ponto de vista dos portugueses que queriam democratizar Portugal, integrando-o na Europa, a descolonização é exemplar, de facto, feita rapidamente, praticamente sem custos políticos e sociais relevantes para a sociedade portuguesa europeia, se exceptuarmos o problema dos refugiados africanos que, miraculosamente, acabam a integrar-se no seu novo mundo, quase sem conflitos sociais internos dignos de nota.
Do ponto de vista dos grupos independentistas armados, a situação não correu mal de todo, com a excepção de Angola em que havia três exércitos armados com interesses e aliados divergentes. Mas mesmo em Angola, num primeiro momento, foi possível transferir rapidamente o poder para esses exércitos irregulares, sem grandes complicações para o poder em Portugal.
Como esses exércitos irregulares ocuparam rapidamente o poder, eliminando violentamente os potenciais focos de contestação, para esses a descolonização também foi exemplar, apenas com as perturbações inerentes a guerras internas que, já tinham sido a causa de purgas anteriores, por exemplo, o assassinato de Eduardo Modlane na Frelimo, às mãos da linha marxista e anti-ocidental que prevaleceu na Frelimo daí para a frente.
Sobram as povos africanos, não no sentido que se agora se atribui à palavra africano, usada para substituir pretos, mulatos e afins, mas no sentido real de africano, a pessoa que reconhece África como sua casa (no mesmo sentido em que hoje reconhecemos que grande parte de pretos, mulatos e outras minorias, mesmo tendo nascido em África, ou sendo filhos de pessoas que nasceram em África, são europeus e portugueses quando reconhecem Portugal como a sua casa).
Para esses, a descolonização que existiu foi uma tragédia cujas consequências ainda hoje afectam negativamente as suas vidas, com fortes constrangimentos à sua liberdade, com condições de vida muito precárias, frequentemente mais precárias que as que tinham os seus pais e avós há cinquenta e pouco anos, sem grande futuro em que acreditar, cujos governantes se queixam, em contactos formais com os governos do antigo país colonizador, dos entraves que Portugal coloca à plena integração dos cidadãos desses países no Portugal de hoje.
Se há coisa que Portugal, e as suas forças armadas, deveriam reconhecer e, tanto quanto é relevante pedir desculpa pela história de um povo, pedir desculpa aos povos africanos, é pela forma como, para garantir uma democracia sólida e com futuro em Portugal, se optou por retirar a cidadania a milhões de pessoas, não lhes permitindo a escolha, entregando países e povos inteiros a governos de bandidos armados e corruptos, largando-os a uma sorte madrasta.
" O 25 de Abril e a História", de AJS.
ResponderEliminarPublicado no DN de 26/1/79 .
Pode encontrá-lo, completo, em "Os Filhos de Saturno".
Cpmts.
Juromenha
O que posteriormente veio a chamar-se Descolonização Exemplar, poderia ter sido um daqueles momentos Luminosos do ponto de vista Civilizacional, estruturante e motivador, quer para Portugal mas também para os antigos territórios Ultramarinos.
ResponderEliminarNão obstante alguns casos isolados de indiscutível grandeza, no geral foi triste e deprimente.
A melhor Solução e a mais Óbvia teria sido algo semelhante ao que fizeram os Britânicos com o seu Império
Creio e lamento dize-lo, o Grande Culpado foi António Oliveira Salazar com a sua obstinada visão de manter contra tudo e todos, mas sobretudo contra a História e ele tinha a obrigação de saber, o Império tal como o tinha recebido.
tanto quanto se vê, foi sobretudo isso que bloqueou e inquinou possíveis soluções que teriam sido melhor para todos.
Os Britânicos estiveram á Altura, Portugal lamentavelmente, não
Ressalvo apenas que há aspectos que mesmo hoje, ainda permanecem na sombra e que os historiadores irão lentamente trazendo á Luz do dia.
Mas no essencial creio ter razão no que disse
Quando se iniciou a guerrilha em Angola, houve um grande movimento nacional de apoio à política de AO Salazar de defender a integridade territorial na esteira do que tinha sido sempre a política colonial na primeira república, com a oposição democrática a apoiar o “para Angola rapidamente e em força”.
ResponderEliminarO artigo de Helena Matos no Observador de hoje só vem confirmar que a posição de AOS era a que melhor defendia Portugal, as populações das colónias portuguesas e o mundo ocidental.
O equilíbrio de forças. na altura, com os americanos em apuros no Vietname e com o problema interno Watergate, favoreceu os inimigos do Ocidente - e consequentemente de Portugal - e com isso condenaram milhões de africanos que poderiam ter escolhido uma ligação a portugal como tantos espaços ultramarinos têm, ainda hoje, ligações à França, Reino Unido ou Países Baixos a ditaduras sanguinárias e corruptas que atrasaram dezenas de anos esses novos países subordinados a interesses de Moscovo, traídos por muitos elementos das nossas forças armadas
ResponderEliminarUm texto que lava a ideologia. O que aconteceu, o foi por causa da ideologia. Escolhida.
ResponderEliminarSalazar fez o que lhe competia e, aliás, com apoio geral não apenas das forças do regime mas da própria oposição democrática que apoiou o «para Angola rapidamente e em força»: defender a população de grupos armados pelo movimento comunista Internacional que supostamente representavam o povo mas que na verdade constituíam cabeças de ponte desses movimentos em guerra com o Ocidente e que têm sempre a capacidade de se atribuirem a si próprios a posição mais correcta e actual como se previamente determinada e definida (e, daí, os «ventos da história) escondendo que essas posições mais não são do que uma interpretação da realidade que, no caso, é sempre contra a civilização ocidental, favorável à Internacional comunista, infelizmente sufragada quase sempre por responsáveis da civilização que essas correntes querem destruir (veja-se como tantos países ocidentais apoiaram os supostos movimentos de libertação que eram criações da URSS e China), políticos esses que apesar disso curiosamente ainda hoje mantêm colónias ultramarinas pese embora «os ventos da história».
ResponderEliminarInfelizmente, como nos conta Helena Matos no Observador de hoje, tivemos nas nossas FA bastantes militares que se venderam a potências estrangeiras e trairam Portugal e os Portugueses que viviam em África, quer os portugueses de origem europeia quer os de origem africana que não tiveram qualquer hipótese de se pronunciar sobre o seu futuro e/ou de escolher a sua nacionalidade. Esta foi uma das mais negras páginas da História de Portugal que os «donos do
E a primeira vez que me lembre que discordo frontalmente de Henrique Pereira dos Santos. O comentador Juromenha já esclareceu a autenticidade do texto de António José Saraiva, por isso apenas me resta contar um conto.
ResponderEliminarNo citado artigo de Helena Matos referem-se oficiais portugueses, incluindo o brigadeiro Themudo Barata detidos por tropas do MPLA em Cabinda. Justificam-se duas perguntas:
1-Como é que tropas do MPLA aprisionaram o comando militar portuguêrs em Cabinda?
3-Antes disso, porque é que o MPLA que em 1974 teria uns vinte guerrilheiros armados e estava a braços com o provável início de uma guerra civil com UNITA, ia desviar tropas para Cabinda?
Quem tiver alguma curiosidade espere que eu tenha tempo de dar a minha versão para as duas perguntas (estou com outras prioridades e, de qualquer forma, o texto seria sempre truncado pelo limite de cada publicação).
O início do artigo é antológico:
ResponderEliminar"
Há também uma entrevista em 1985, que creio estar na íntegra no Malomil, em que diz o óbvio: que o que define o regime que sai da revolução é ser a negação do anterior logo, é incapaz de se afirmar por si. 41 anos depois, o tempo dá-lhe razão, basta ver o desfile patetinha na Avenida.
ResponderEliminarPorque é que o MPLA que em 1974 teria uns vinte guerrilheiros armados e estava a braços com o provável início de uma guerra civil com UNITA, ia desviar tropas para Cabinda?
Há que recuar até à refinaria de Sines ser projectada para o tipo de ramas extraídas em Cabinda. O contrato com os americanos da Gulf Oil estava a terminar e o governo português pretendia reservar parte da produção em nova renegociação e transportar as ramas para Sines nos 5 navios-tanque da SOPONATA (que viria a ser destruída pelos sindicatos comunistas e foi abandonada até à falência pelos governos provisórios).
Os americanos, por pressão da Gulf Oil, entenderam-se com os soviéticos e garantiram que não hostilizariam o MPLA desde que lhes fosse assegurada a exploração de Cabinda (mais tarde cumpriram e deram um ultimato à África do Sul para retirar quando esta já tinha eliminado a FA de Angola e a coluna mista com colonos portugueses estava em condições de entrar em Luanda, pois estavam a 20 km e tinham já tomado a ponte que era o último obstáculo).
Em Cabinda a FLEC (Frente de Libertação do Enclave de Cabinda) tinha ambições independentistas (mais que justificadas pois Cabinda era reconhecida por Portugal desde o séc. XVI, os seus príncipes foram recebidos em Portugal como tal e celebraram com Portugal o tratado de Simulambuco, que Salazar rasgou quando decidiu “porque sim” fazer de Cabinda um distrito de Angola sujeito a Luanda) e tinha o apoio do Congo-Zaire (hoje RD Congo) que era pró-ocidental e apoiava os rivais do MPLA, FLEC e FNLA). Já o Congo-Brazzaville era pró-soviético. Ambos tinham ambições sobre Cabinda que se situava entre eles mas foram travados, um pela URSS, outro pelos EUA, com o resultado prático que nenhum aceitaria que o outro enviasse tropas para Cabinda. Assim, prevendo-se a não intervenção e breve retirada das tropas portuguesas, para travar a FLEC foi necessário que o MPLA enviasse tropas para Cabinda.
ResponderEliminarComo é que tropas do MPLA aprisionaram o comando militar português em Cabinda?
A resposta é só uma. Todas as tropas portuguesas em Angola receberam ordens expressas para de nenhuma forma se oporem a acções do MPLA.
Tal foi, por exemplo, patente em Nova Lisboa, onde o Batalhão de Cavalaria desfilou em roupa interior - cuecas e camisola interior de alças - e alparcatas. Tinham cumprido a ordem de entregar armas e equipamento ao MPLA (numa zona onde a UNITA era dominante fora da cidade) mas este entendeu confiscar também camuflados e botas de lona e, mais uma vez, cumprindo ordens, não houve oposição.
Desconheço os pormenores. Se foi Themudo Barata que aceitou. Se deu ordens às forças de militares (que permaneciam sob os comandos directos pois só o estado-maior foi detido). Se foram estas que não actuaram por decisão própria. Mas nada disso, que um dia será revelado, é agora importante.
Não posso afirmar que não haja alguma verdade na “conclusão” de HPS e que, em algumas circunstâncias, as tropas portuguesas se teriam recusado a combater. Mas isso está por demonstrar e avaliar. Não é porque em Lisboa o MRPP gritava “nem mais um soldado para as colónias” que se pode concluir sobre a disposição dos militares em África.
Mas o que se conhece e sabe é que agiram sob ordens que logo começaram com o confisco de todas as armas aos europeus (melhor aos brancos e mulatos), desde pequenas pistolas de defesa pessoal a caçadeiras. Seguiu-se o desarmamento das milícias e, claro que depois deste sinais inequívocos, não restaria nenhuma vontade de combater. Não é necessário um mestrado em psicologia para perceber que ninguém que ser o último a morrer, já com o final da guerra à vista.
Mas tudo vem de cima para baixo, inclusive boatos e ameaças para garantir o fuga de quem se pudesse opor ao MPLA. Quem viveu esse tempo sabe que em Portugal nada funcionava. Greves todas as semanas, conflitos laborais e reivindicações sociais permanentes. A TAP sofreria especialmente quer com os sindicatos ligados à manutenção quer ao “catering” e o próprio pessoal de cabina já alinhava pelo lado de que soprava o tempo. Pilotos chegaram a suspender voos de regresso a Lisboa porque tinham atingido o limite de horas. Aviões já tinham sido retidos no estrangeiro por falta de pagamento atempado de combustível, de taxas aeroportuárias e até de seguros.
Mas com a ponte aérea, tudo isso se interrompeu. Sob o comando do ten.-cor. FA Gonçalves Ribeiro, uma excepcional operação, transportou meio milhão de pessoas, sem uma falha, sem um incidente. Nenhuma reivindicação, manutenção a 100% pilotos abertos a sacrifícios e apoio internacional diverso, sendo o dos EUA o mais significativo. A pedido de Costa Gomes, então PR, Gerald Ford mandou fretar aviões civis para reforçar a frota da TAP, insuficiente para o movimento.
No fundo, uma coligação pontual das duas superpotências - pelo motivo já referido do petróleo de Cabinda - executada em Portugal pelo agentes da URSS sem a oposição americana. Cunhal manteve uma relação de profundo alinhamento ideológico e cooperação estratégica com o Cominform e liderava o PCP sem oposição.
Pode citar a parte do texto em que acha que eu disse que os soldados se recusaram a combater?
ResponderEliminarNão o disse expressamente, Foi dedução minha do sentido geral do parágrafo e da expressão "...
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