quarta-feira, 22 de abril de 2026

A vítima primordial

Uma das coisas que me incomodam é a confusão que frequentemente vejo fazer-se entre o que escrevo sobre o Estado Novo, contestando os numerosos mitos sobre esse tempo, e uma defesa do Estado Novo, que nunca fiz.


É da vida, incomoda-me mas não ligo muito, excepto quando esse incómodo é expresso por pessoas cujas razões conheço razoavelmente.


Compreendo que o filho de um militante do PC (ele próprio antigo militante com responsabilidades que se afastou na cisão do grupo dos seis, de que fazia parte, mas que penso que continua, ideologicamente, comunista), que viu o pai ser preso (ou detido, esta distinção nem sempre aparece e, na verdade não é especialmente relevante neste caso), que viu ser-lhe apontada uma pistola por um agente da PIDE quando tinha catorze anos, fique ofendido, ou pelo menos desiludido, quando escrevo que a ditadura do Estado Novo, quando comparada com outras, foi relativamente branda, com a excepção dos militantes mais activos do Partido Comunista (e, nas colónias, depois de começar a guerra colonial, para com os membros dos movimentos independentistas armados).


Note-se que, no caso, sendo o pai deste meu amigo um notório comunista desde sempre, proibido de dar aulas no ensino público no fim dos anos 50, ainda assim teve uma bolsa da Gulbenkian em 1963 para ir fazer o seu doutoramento a Paris e, no fim dos anos sessenta, quando acabou a bolsa, sem renovação, voltou para Portugal, o que indicia alguma esperança de que a vigilância e perseguição de que sabia que seria alvo era, ainda assim, gerível (a sua livraria já tinha sido encerrada várias vezes, mas abrindo sempre pouco tempo depois).


A nota do parágrafo anterior é uma desvalorização ou uma relativização da indignidade de alguém ser perseguido, preso, impedido de exercer uma profissão, por discordar do governo?


Não, de maneira nenhuma, a indignidade está lá, mas também está a relativa brandura em relação a outras ditaduras, e é a mera descrição da realidade, tão próxima possível do que existiu, que me interessa.


Paulo Côrte-Real escreveu no Público um artigo protestando contra a decisão do Governo proibindo o hasteamento de outras bandeiras que não as oficiais em edifícios públicos que me ajuda a tentar explicar como a mitificação da vítima primordial (não estou, de maneira nenhuma, a sugerir que existe no exemplo anterior, mas foi um traço fortíssimo usado pelo PC na conquista de poder no pós 25 de Abril, e ainda hoje é usada por toda a esquerda e pelo Chega) é um instrumento de manipulação da realidade com objectivos políticos.


Como contestar a decisão de não se poder hastear a bandeira arco-íris (ou do Benfica, é irrelevante) em edifícios públicos é uma coisa sem grande capacidade para entusiasmar mais que meia-dúzia de pessoas, Paulo Côrte-Real usa, sem qualquer pudor, o mito da vítima primordial que precisa da protecção da bandeira arco-íris nos edifícios públicos para viver em liberdade.


O artigo começa com esta frase extraordinária, por extraordinariamente demagógica e injusta: "Quem não é alvo de discriminação - e de uma discriminação que está associada a crimes de ódio - não sabe o que é viver com medo".


Percebe-se a intenção, desqualificar as pessoas que discordam do que se vai escrever (nunca sentiram medo, e portanto não sabem do que falam, logo, o que disseram de contrário do que eu digo não tem qualquer valor), reivindicando para si o estatuto de vítima primordial que exige uma justiça que só os injustiçados semelhantes podem verdadeiramente compreender, condicionando tudo o que outros escrevam em contrário pelo anátema moral da falta de empatia (como agora se diz).


Não se trata de nada disso, não me passa pela cabeça negar os enxovalhos e as dores que sofreu Paulo Côrte-Real por ser homossexual numa sociedade que tem bolsas extensas que toleram mal a homossexualidade (sobretudo a sua manifestação pública).


Mas quem se queixa de ser criminalizado e não saber que se é, que é professor universitário e de que não se conhecem episódios de bloqueio institucional da sua vida relacionados com a sua homossexualidade, deveria ter alguma contenção e evitar dizer que quem não é vítima da mesma maneira, "não sabe o que é viver com medo".


Então quem não sabe como vai pagar as contas do mês, ou como resolve um problema inesperado para cuja solução não tem recursos, "não sabe o que é viver com medo"?


Então quem deixa os filhos menores às cinco da manhã, para voltar às seis, sete e oito na noite, "não sabe o que é viver com medo"?


Então quem tem dificuldade em andar, e sente todos os dias a fragilidade de poder cair sem ter a certeza de que há alguém por perto, "não sabe o que é viver com medo"?


De certeza que, hoje, em Portugal, a vida é mais assustadora e perigosa para um homossexual que para uma velhota perdida numa aldeia quase deserta ou numa casa de um prédio sem elevador?


As minorias, sejam de tipo forem, e algumas maiorias (como a dos deserdados da vida), têm, de maneira geral, muito mais dificuldades que os filhos do privilégio e são, frequentemente, vítimas do azar ou da maldade de terceiros com mais poder.


O que me irrita nestes discursos de vítimas primordiais é mesmo isso, é ver gente que evidentemente está do lado do privilégio, mesmo se com fragilidades sociais com as de Paulo Côrte-Real, ou passados traumáticos como os oposicionistas do Estado Novo, a puxar pela sua vitimização, incluindo através do apagamento de muitas outras vítimas concretas e actuais que estão mesmo ao lado.


Confesso que isso me põe fora de mim, mas não me impede de reconhecer a indignidade associada às circunstâncias que tornam ou tornaram essas pessoas vítimas de prepotências e a dignidade com que muitas delas suportaram, responderam e resistiram a essa indignidade.

21 comentários:





  1. 1) A Gulbenkian era em 1963, tal como é hoje, segundo creio, uma instituição privada, que não orienta a sua política de bolsas pelos critérios políticos do Estado. Ou seja, jamais a Gulbenkian deixaria de dar bolsa a um indivíduo por o Estado não gostar dar ideias políticas desse indivíduo.


    2) O Estado Novo não tinha objeção nenhuma a que os seus opositores emigrassem, para Paris ou para outro lado qualquer. Se um opositor quisesse ir doutorar-se no estrangeiro, o Estado Novo ficava todo contente por o ver pelas costas. Jamais procuraria pressionar a Gulbenkian no sentido de esta não lhe dar bolsa para esse efeito.

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  2. E se a Comunicação Social não lhes desse o destaque, de todo imerecido que dá, a coisa era como se não existisse.


    É o caso típico de "assunto pré fabricado" ainda por cima sem o mínimo interesse.


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  3. Tanto parágrafo, tanta frase, tantas letras. Uma frase chega : O Estado Novo foi o pior período da história de Portugal. Ponto final parágrafo.

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  4.  Li que já no final do Regime o PIB Português convergiu com a média dos Países desenvolvidos da Europa.


    Sem fundos Europeus a empurrar

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  5. A propaganda mais reles e mentirosa substituiu-se ao estudo da História neste desgraçado País...
    Basta ver a forma como é apresentado o  período trágico e criminoso que foi a Primeira República...
    Juromenha

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  6. Explique lá o que tem a ver a violência do Estado Novo com  o artigo que 

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  7. E por aqui me fico... 

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  8. Foi exactamente como diz. 
    Uma verdade inconveniente que a esquerda falhada mal sucedida não consegue engolir. Mas um dia se aceitará _ como a eloquência dos números o comprovam _ que foi um dos períodos mais prósperos e de maior desenvolvimento do país, a todos os títulos. 
    E vou mais longe: figuras da História, odiadas e proscritas em determinada época, foram posteriormente louvadas, elogiadas e o seu nome reabilitado. Refiro-me, por exemplo, ao Marquês de Pombal a quem foi erigida uma imponente estátua. O tempo, esse obreiro invisível, opera "milagres"... se me faço entender... 

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  9. Um militante comunista ou simpatizante, a defender aquela forma de liberdade de expressão é uma daquelas bizarrias  do DNA bolchevique!!! Vem à mente uma célebre entrevista que Álvaro Cunhal deu a Carlos Cruz (muito anterior ao episódio Casa Pia). Qdo este perguntou a Cunhal o que pensava s/a homossexualidade, este respondeu - "penso que é uma doença". Vem à mente também um episódio numa Festa do Avante em que dois homossexuais trocavam beijos em público e foram expulsos pelos zeladores com a competente braçadeira vermelha. Para não falar nos exemplos de "liberdade de expressão" no santuário comunista da URSS, em que inúmeros milhares ficaram a saber ""o que é o medo"". Dito isto, concordo com a medida do governo. Ja comentei neste blogue a este respeito.

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  10. Correcção 21 de Março 2026.

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  11. Sim, sabemos que o Estado Novo politicamente não descreveu um percuro uniforme em toda a sua vigência.
    -No início o Estado Novo, Salazar reorganizou o País que estava numa situação caótica, pós crise dos anos 30, utilizando os mesmos meios, ditos fascistas, tal como na Itália e na Alemanhã. Todas as modas, mesmo as políticas, são trans-fronteirissas.  
    -A meio do seu percurso o Estado Novo nos difíceis tempos da 2ª Guerra Mundial conseguiu singrar por entre escolho de forma reconhecidamente sagaz.
    -Mas nos últimos tempos do exercício do poder político o Estado Novo já num prolongado exercício e consequentemente com os típicos vícios e para sobreviver gerou, sim, os conhecidos abusos.
    -Mas quais foram as motivações em transformar Colónias em Províncias Ultramarinas?. Eufemismo ineficaz. De seguida, como aliás o próprio ditador previu, a desatrosa Guerra do Ultramar anos 60. Qual e o porquê de esse erro?. O que se passou na mente do poderoso ditador?. A influêcia da Finança, as riquesas de lá provenientes?. Um, também discutível, anti-comunismo primário, a influência de uma longíqua mas sempre presente cultura religiosa?....
    Um final que destruiu uma capaz exercício de poder. Os clássicos males de um prolongado exercício do poder político?.

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  12. A Esquerda pode recusar reconhecer o óbvio, mas não é a Esquerda que escreve a História.


    E a História tem o péssimo hábito de não se deixar manipular

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  13. Pessoalmente creio que se não fosse o "Para Angola e em Força. Já !!" muito provavelmente teria estourado uma guerra civil na metrópole.

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