
Um dia destes, o Paulo Fernandes fez-me uma pergunta sobre se eu sabia onde encontrar dados sobre uma coisa específica.
Conversa puxa conversa, o Paulo acabou por me mandar este boneco, que é de uma apresentação que fez um dia destes (penso que ontem).
Parte dos dados virão da compilação que fiz para a minha tese (o "que fiz" tem de ser entendido com alguma amplitude, na verdade grande parte do trabalho de formiguinha foi feito com o apoio da cátedra de biodiversidade Rui Nabeiro, por iniciativa de Miguel Araújo).
Essencialmente passei toda a informação estatística do século XX que encontrei, sobre a área de produção, por concelho, de trigo, milho, centeio, batata e leguminosas, mais o que encontrei de números de vacas, ovelhas, cabras e porcos, para uma base de dados, que depois tornei acessível. Para as primeiras décadas estava em papel, depois foi estando em formato digital.
Os dados da população em Portugal foi mais rápido e fácil.
Outra parte virá de outras fontes, como aquela linha muito interessante sobre continuidade florestal, que o Paulo me disse ter sido feita pelo Nuno Gracinhas Guiomar, e estatísticas florestais, suponho.
Porque razão estes três gráficos me parecem muito interessantes?
Porque o que leio neles (friso "o que leio", outras pessoas lerão outras coisas e eu também leio outras coisas) é que a evolução do padrão de fogo tem com certeza uma componente de gestão de combustíveis finos nos usos florestais (povoamentos, sempre a aumentar desde o princípio do século XX até ao fim do século XX, quando o desastre da fileira do pinho deixa de ser compensada pelo aumento do eucalipto e a área florestal começa a cair) e também matos (com uma evolução em V, diminuindo até meados do século, aumentando a partir daí), mas é a continuidade florestal que melhor explica a evolução (leio isto no gráfico porque o Paulo me chamou a atenção para esse factor da continuidade, para que aponta grande parte da sua investigação).
O que quer isto dizer?
Que, aparentemente, muito mais que uma questão do sector florestal, a gestão do fogo, isto é, a orientação para um padrão de fogo que seja socialmente aceitável, ambientalmente optimizado e economicamente racional, depende da nossa capacidade para quebrar essa continuidade florestal, isto é, depende do espaço não florestal.
Sim, é uma conclusão relativamente banal (por alguma razão se fala agora de fogos rurais e não de fogos florestais), mas os gráficos são muito explícitos nisso e as implicações nas opções de política são bastante relevantes.
Veremos se será preciso esperar pelo desastre de 2030, mais ano, menos ano, para retomar o esforço de racionalização da gestão do fogo em Portugal, uma racionalidade que tende a desaparecer quanto mais anos passam desde o último grande desastre.
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