O Público entretém-se hoje a dar gás às campanhas woke sobre colonialismo, escravidão e reparações, usando como pretexto as declarações de um político incontinente.
Já na Sexta à noite, sabendo que João Pedro Marques ia ao Expresso da meia-noite, na SIC Notícias, a um debate sobre o assunto, tinha notado uma coisa muito curiosa.
O curioso é que era um debate entre os jornalistas, porta-vozes dos movimentos woke, de um lado, e os outros três, adoptando os políticos uma postura mais institucional (com variações entre os dois, como seria inevitável, mas igualmente cautelosa sobre a necessidade de discutir as coisas com bases sólidas) e João Pedro Marques que bem tentava chamar a atenção para os factos e para a dissonância cognitiva dos jornalistas, que aparentemente não estavam dispostos a deixar que a realidade influenciasse as suas ideias.
Ora o Público de hoje vai na mesma linha, lá aparece um historiador angolano (Alberto Oliveira Pinto) a dizer que "é "impossível" e "até uma coisa completamente absurda" estar a fazer um cálculo do custo trágico da história", e um jornalista, também angolano (Emídio Fernando), a dizer que as declarações do tal político português incontinente "certamente que apanhou de surpresa porque os angolanos não estão minimamente preocupados com esta questão", mas o essencial do que escreve o Público não é neste sentido, é no sentido de dar voz pessoas como a "investigadora e activista" que garante que "a escravatura existiu em Portugal, em termos de praxis, até aos anos de 1960".
Francisco Bethencourt, um historiador português radicado em Londres, que trabalha sobre o colonialismo (o que não o impede de citar erradamente trabalhos de terceiros sobre o assunto, deturpando o que está nos resultados dessa investigação, se servir a sua agenda woke), diz até uma coisa extraordinária: "se o país foi capaz de "aborver, de maneira digna, a quantidade enorme de pessoas que regressaram das colónias depois de 1975" também tem de ser capaz de absorver todos os aspectos do passado".
Um historiador considerado, especialista em colonialismo, ainda não conseguiu perceber, 50 anos depois dos factos, que grande parte dessas pessoas não regressaram a coisa nenhuma, foram expulsas dos seus países por serem brancos, mulatos, indianos ou, simplesmente, desafectos às ditaduras instituídas nessa altura nos seus países.
E é sobre este rigor de análise dos factos que aparecem os wokistas, apoiados por jornalistas que invocam a despropósito a ONU, que entrevistam pessoas sem qualquer reconhecimento científico ou social sobre assuntos insuflados por agendas políticas e económicas sem base real, criando um forte desfasamento entre o mundo mediático e o mundo das pessoas comuns.
As votações em partidos de protesto como o Chega, as vendas estrondosas de livros como os de Nuno Palma (que me lembre, esta é a primeira vez que vejo o Público dedicar umas linhas à investigação de Nuno Palma, infelizmente para o citar mal, por interposta pessoa, não tenho ideia de, até hoje, e apesar do êxito editorial e do impacto social, o Público se ter interessado pelo livro de Nuno Palma), as diminuições de vendas do jornalismo tradicional - fortemente contaminado pelo vírus do wokismo, em especial nas redacções, apesar de tudo, na opinião, a paisagem mediática é um bocado mais diversa - e outros indicadores deste tipo acho que permitem argumentar que forçar as pessoas a pensar de uma determinada maneira, como é evidentemente o que pretendem os jornalistas no Expresso da Meia-Noite que citei ou os do Público de hoje, é uma maneira muito pouco eficiente de gastar recursos: as pessoas continuam a pensar o que lhes dá na cabeça, e os jornalistas vão perdendo influência social, agarrando-se desesperadamente à má-língua, como o último recurso para aumentar as vendas.
Os wokes, esses, continuam a forçar a barra, com tretas como o do silenciamento do debate sobre a escravatura, uma patetice sem qualquer base real, e com um viés claríssimo que permite aos árabes passar entre os pingos da chuva no debate sobre reparações resultantes da escravização, permitindo ainda que intelectuais brasileiros (e outros sul americanos, em relação a outros países europeus) apareçam a fazer tristes figuras, responsabilizando Portugal pelos problemas de hoje do Brasil, um país independente há mais de 200 anos (e fortemente responsável pelo tráfico trans-atlântico de escravos).
Há descendentes dos que escravizaram populações inteiras, para as vender aos europeus que os levaram para as américas, que acham que ganham alguma coisa em apresentar-se como vítimas e o jornalismo vai atrás, sem que eu perceba porquê.
ResponderEliminargrande parte dessas pessoas [os "retornados"] [...] foram expulsas dos seus países
Eu diria que foram refugiados de uma guerra. Não foram propriamente, na sua maior parte, "expulsas". Não foram mandadas embora, não foram afugentadas. Simplesmente, tiveram medo e, sendo-lhes dado oportunidade para isso, fugiram (como é natural).
Estamos inteiramente de acordo. Ainda ontem me apontaram uma pistola e me pediram a carteira. Ninguém me tirou a carteira, fui eu que a entreguei voluntariamente.
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ResponderEliminarNão foi preciso vir Ramalho Eanes dizer por estes dias que a descolonização foi "trágica" . Qualquer português vivo à altura percebeu isso.
ResponderEliminarA descolonização foi a coisa mais vergonhosa permitida por quem nessa altura tinha responsabilidades, como Soares à cabeça, com a sua “independência pura e simples”.
Nessa anarquia política, em que interessava mais estabelecer agendas partidárias e ideológicas, que propriamente fazer as coisas como devia ser feita, foram incapazes de defender e proteger os seus.
ResponderEliminaras declarações dos políticos europeus sobre reparações (que até há pouco tempo nem sinónimo de indemnização era) mostram um complexo de culpa que pensava que o laicismo tinha eliminado, e uma ignorância, importada dos States, que só demonstra que finalmente o mundo ocidental está bem nivelado por baixo no que respeita a conhecimento e cultura.
Interessante que os "afro-"americanos (que provavelmente nem 5 países de África conseguem nomear) acham-se no direito de serem "reparados" 500 anos após os seus antepassados terem sido escravizados, e se é que o foram, mas não priorizam os EUA repararem os países de onde foram provenientes, esses sim as principais vítimas pois perdiam os seus melhores e mais fortes homens, o que diz bem da génese de todo este processo.
Mas lá está, é um processo de ignorância, os gringos não são propriamente cultos, e nós europeus pelo mesmo caminho vamos (com ajuda da tecnologia e do ensino), e os hollywoods só ajudam, com as suas reescritas da História, em que África era uma espécie de kumbaya até que o homem branco lá aterrou e libertou todos os males do mundo.
A cultura woke já não é o que era.
ResponderEliminarExtravasou os limites iniciais, e agora é um movimento religioso que tem por base o ódio profundo à sociedade actual e uma vontade de a transformar à sua, do woke, imagem, sem qualquer tipo de desvio moral e intelectual.
Há os wokes ditos de esquerda (eu se fosse de esquerda tinha vergonha de ser conotado com isso, mas pronto), e os de direita; os malucos do cabelo roxo e os malucos dos cornos (na cabeça) que invadem capitólios.
o que aconteceu em Agosto passado (se é a vinda do Papa Francisco) chama-se liberdade religiosa. E duvido que tenha movido a maioria da população portuguesa.
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ResponderEliminarE como poderia ter sido de outra forma, se o exército português se fartou da guerra e só queria era vir embora ?
Queimando "étapes" : o "Chega" agradece penhoradamente ao esfregão da sonae e aos esclarececidos psitacídeos televisivos ( que não veem a ponta de um corno - perdoem o meu Francès, como se diz lá fora...- do que se está a passar ) o desinteressado empurrão eleitoral para o próximo 9 de Junho...
ResponderEliminarJuromenha
Caro Nelson, o exército português estava efectivamente cansado, mas já desde o princípio da guerra, e de resto foi esse o motor que levou ao golpe. Mas quanto à descolonização, tudo foi feito de forma precipitada. Tudo deveria ter sido previamente pensado mas a euforia dá sempre mau resultado, como deu.
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ResponderEliminarCaro Almeida,
O meu ponto não é poderia ter sido feito melhor, que poderia e deveria ter sido. Onde queria chegar é que mesmo se houvesse vontade política para fazer diferente (penso que não existiu, posso estar errado), faltou o músculo militar para garantir que se executava.
Nesse sentido, foi a descolonização possível. Péssima, para quem teve que sair à pressa e deixar toda uma vida para trás. E para os que ficaram e levaram com mais umas décadas de ditadura, misérias e guerras civis.
O mesmo se pode dizer relativamente aos palestinianos na Nakba: eles é que fugiram voluntariamente.
ResponderEliminarSe bem que o massacre perpetrado em 1948 em Deir Yassin pelo grupo terrorista (sionista) Irgun tenha ajudado.
«Former member of the Irgun terrorist group and later Prime Minister of Israel, Menachem Begin summarized the orgy of executions at Deir Yassin: “Without what was done at Deir Yassin there would not have been a State of Israel,” he wrote in his book, The Revolt. “While the Haganah was carrying out successful attacks on the other fronts…The Arabs began fleeing in panic, shouting ‘Deir Yassin.’”»
(https://mondoweiss.net/2024/04/the-deir-yassin-massacre-reminds-us-every-zionist-accusation-is-a-confession/).
Ameaça real ou percepcionada um crime? Parece que depende do ponto de vista mais conveniente a cada instante. Muito à semelhança da "ordem internacional baseada em regras".
O que se pode ler nas crónicas de viagem de Ibn Battuta (1304-1377, alegadamente), o magrebino que viajou por todo o mundo árabe e para além dele? Que a escravatura era um denominador comum, muito antes dos europeus chegarem a África.
ResponderEliminarAs caravanas de escravos africanos deslocavam-se para Norte, até ao actual Egipto, ou para Este até ao Índico, onde os escravos eram depois vendidos. Estava-se ainda longe das deslocações até ao Atlântico, mas na génese estavam os mesmos Bantu, antepassados da generalidade dos africanos sub-sarianos actuais e a sua máquina de produção de escravos.
Quando os europeus chegaram a África ainda os Bantu procediam à colonização da restante parte Sul do continente. Uma colonização que, salvo as devidas proporções e localização temporal, em nada fica a dever à colonização da América do Norte pelos europeus: aos Índios americanos aconteceu o que se sabe e aos Pigmeus, os primitivos habitantes africanos, essencialmente o mesmo - limpeza étnica e genocídio. Algo de semelhante ao que tem acontecido aos palestinianos desde o Mandato da Palestina.
PS - Sobre os aspectos factuais disponho de links comprovativos que posso fornecer.
ResponderEliminarO 25 de Abril não existiu só na Europa e lá em África teve como consequência mais de 1 milhão de mortos.
ResponderEliminarTalvez devamos falar dos massacres dos anos 20 não é?
ResponderEliminarWoke são simplesmente neo-marxistas. Mas como a direita nunca se preocupou em conhecer sequer o seus inimigos porque tinha estrutura da religião nunca os soube combater sequer.
ResponderEliminarCom o fim da religião acabou a estrutura logo a direita deixou o caminho aberto ás táticas de intimidação e atracção da esquerda.
Para o Balio (se tiver paciência):
ResponderEliminarAcho aconselhável a leitura deste testemunho (em forma de entrevista), de alguém que viveu o período "quente" da descolonização de Moçambique.
ResponderEliminarPode ser lida na íntegra aqui:
Ou, para abreviar, aconselho vivamente, sobretudo a partir daqui:
só um ponto à mesa,
ResponderEliminaro exército quis mais dinheiro e mais mordomias, neste caso os que ficavam na zona do ziac, pois para a clorofila iam os milicianos.
tudo o resto são músicas do vento que leva.