sexta-feira, 26 de abril de 2024

Não podias

Sim, eu sei que a campanha "Não podias", uma campanha oficial de comemoração dos 50 anos do 25 de Abril, já tem algum tempo e já se escreveu bastante sobre ela.


Ainda assim, quando a dei como exemplo de como a manipulação da história é a política oficial portuguesa - uma prática, aliás, em que o Estado Novo era bastante mais agressivo que o regime democrático -, responderam-me com a seriedade intelectual de responsáveis pelas comemorações, matéria sobre a qual não tenho de ter qualquer opinião, as coisas são o que são.


A verdade é que esta pulsão de comparações entre dois tempos, para retirar conclusões gerais sobre os regimes ou governos que existiam nesses dois tempos, não é apenas governamental: a Fundação Francisco Manuel dos Santos, por exemplo, neste 25 de Abril, resolveu comparar estatísticas do país em 1974 e em 2024.


Não há nenhum problema em comparar estatisticamente momentos diferentes, pelo contrário, há muita informação, algum conhecimento e pontual sabedoria, que se pode obter desta forma.


De resto, fiz uma tese de doutoramento inteiramente assente na comparação de estatísticas associadas a uma unidade geográfica - o concelho - ao longo do século XX, o que me parece que demonstra como evidentemente reconheço o interesse em fazer comparações estatísticas entre diferentes momentos.


O que não faz sentido nenhum, e esse é o principal problema da campanha "Não podias", é atribuir aos governos de cada momento toda a responsabilidade pelo retrato social desse momento.


Dizer "Não podias beijar" ou "Não podias defender-te", como características anteriores ao 25 de Abril é estúpido, mas olhando mais em pormenor, a campanha não é tão desaustinada como parece, quando limita a simplificação, afinal só se pretende dizer que os códigos sociais do namoro antes do 25 de Abril (e não vou discutir a tolice de considerar "antes do 25 de Abril" como um tempo homogéneo, como se Portugal fosse o mesmo durante todo o Estado Novo) eram diferentes dos actuais.


Atribuir esses códigos aos regimes anterior e posterior ao 25 de Abril, quando toda a gente sabe que o Maio de 68, em França, começa com um protesto de um pequeno grupo de estudantes a propósito da segregação sexual dos lares estudantis, é pura manipulação, por mais que os factos referidos sobre a diferença de namoro há 50 anos e hoje sejam facilmente aceites como verdadeiros (dou de barato as imprecisões idiotas que caracterizam a campanha).


É quase tão estúpido como dizer que "Não podias" aceder à internet antes do 25 de Abril e atribuir esse facto ao regime, mesmo que realmente não se pudesse aceder à internet, ou usar telemóveis, antes do 25 de Abril.


A campanha continua a existir e a quantidade de pessoas razoáveis que mostra tolerância a este grau de manipulação da memória histórica para obtenção de ganho político é brutal (Patrícia Gilvaz, deputada da Iniciativa Liberal, assina um artigo de opinião intelectualmente indigente sobre o 25 de Abril em que começa por afirmar "Nos anos que antecederam a Revolução dos Cravos, enfrentávamos uma crise económica que condenava o nosso país à mediocridade", o que demonstra bem como tem sido eficaz essa manipulação da história).


Para mim, que considero a democracia intrinsecamente melhor que a ausência de democracia, é incompreensível a insegurança das pessoas que acham que para realçar as diferenças entre uma ditadura e uma democracia é preciso manipular a história, não vá alguém ter dúvidas sobre as razões que justificam a superioridade das democracias sobre as ditaduras.

17 comentários:





  1. Mas continua a haver montes de lares estudantis sexualmente segregados, não continua?


    Penso que nas universidades americanas, nas quais grande parte dos estudantes habita em lares que pertencem à própria universidade, esses lares são todos os quase todos sexualmente segregados.


    Uma vez no Porto visitei uma conhecida minha estudante que vivia num lar, e esse lar (privado) era sexualmente segregado.


    Se o Maio de 68 começou por uma razão dessas (não sei se é esse o caso ou não), então eu diria que, trinta anos volvidos, estava tudo mais ou menos na mesma...

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  2. a campanha "Não podias" (https://50anos25abril.pt/iniciativas/nao-podias/) já tem algum tempo e já se escreveu bastante sobre ela


    Curioso: eu nunca vi nada dessa campanha, nem nunca li nada sobre ela, nem nunca a vi referida.


    Essa campanha muito facilmente não atingir os seus alvos!

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  3. Muito bem. 
    São comparações para serem lidas com cuidado. 
    Eu gostava de ver outro tipo de comparação. 
    Portugal comparado com a restante média Europeia em 1974 e agora 50 anos depois.
    Se calhar, as diferenças são "diferentes" 

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  4. não podemos referir etnias. somos obrigados a aceitar assuntos importantes: aborto eutanásia, género, etc
    deviam comparar quinquenalmente a sociedade desde 1910 e incluir os mais de 100 mil milhões de Bruxelas. caso contrário é ignorância e má fé

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  5. "Portugal comparado com a restante média Europeia em 1974 e agora 50 anos depois." (AML)


    Essa seria uma comparação relevante.

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  6. Todas as comparações que se limitem a um universo estrito, nomeadamente de um país, confinadas entre balizas temporais, são susceptíveis de manipulação se aquilo que se pretende mostrar enquadre fenómenos de alcance geográfico e temporal para além do universo e das balizas temporais definidas.


    Os "truques" são velhos: por um lado colocar a origem do referencial temporal onde mais convém, ignorando tudo o que se passou anteriormente e, por outro lado, omitir tudo o que passou antes e entretanto noutros universos geográficos.


    Trata-se, porventura, da mais insidiosa das formas de manipulação da percepção da realidade, onde nem sequer é preciso mentir, podendo tudo o que se afirma ser verdade, contudo uma verdade velada, parcial, facciosa e vista através de lentes de distorção.


    Mas até nem estaríamos mal se a campanha "Não podias" fosse a única e não estivéssemos todos os dias sujeitos a tantas outras, muito mais insidiosas e com profundas consequências a nível global, muito embora poucos disso dêem conta.

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  7. Já se escreveu bastante?


    Continuamos presos no passado. Parece os tipos preocupados com as reparações da escravatura de há 500 anos atrás quando se podiam concentrar nos milhões de escravos que existem hoje

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  8. Antes do 25 de Abril, jovem estudante de Liceu, vi o filme-documentário sobre o festival de Woodstock, o filme "A piscina", o polémico "Ivan, o Terrível", "Le genoux de Claire" (com diálogos bem "arrojados"), outro cujo título não me recordo que abordava o tema da IVG e a gravidez de uma adolescente,  a ópera rock "Jesus Christ Superstar", e sendo assídua frequentadora do antigo Cineclube no Porto, vi tantos outros que abordavam certos temas "interditos" cuja interdição, afinal não era nenhuma... Como também não nos estavam vedados os símbolos e a cultura dos "hippies", o make love, not war, o "power flower" e outros movimentos da "contra-cultura". Também se liam avidamente revistas juvenis vindas "de fora", que muitos assinávamos. Conhecíamos a chamada arte psicadélica cujo grafismo depois "tranferíamos" para as capas dos nossos livros e cadernos e rabiscávamos puerilmente nos porta-lápis e sacos a tiracolo, etc. Também chegavam a Portugal revistas da actualidade francesa, como o "Jours de France", o "Paris Match", etc. e alguns jornais estrangeiros, recordo-me de "Le Figaro" em papel rosado, por exemplo... Eram inúmeras as revistas portuguesas ao melhor nível, especializadas em música. (sobre este assunto, é inigualável o acervo do autor do blog portadaloja). 
    A propósito do "não podias" até fui ver fotos antigas, para me certificar melhor: e lá estamos muitas de nós de kilts bem curtinhos dos Porfírios e longos casacos maxi, mini-saia, bikini, hotpants, calças de ganga remendadas e socas altas, etc. E que dizer dos barbudos rapazes desse tempo, de cabelo bem comprido, que enxameavam os cafés juvenis da altura. 
    Li o que me apeteceu, desde o Sartre (cuja leitura era obrigatória em certas cadeiras de Letras) ao anarquista Boris Vian, passando pelos neo-realistas como o Jonh Steinbeck, e tantos como o Gabriel Garcia Marquez, o Jorge Amado...  ouvimos a melhor música brasileira, mas também Serge Régiani, Léo Ferré, Jacques Brel, e as bandas anglo-saxónicas.
    Sobre o alargamento do ensino _  para além da 4ª classe_ verifica-se uma maior expansão a partir de finais dos anos 60, (com destaque a partir de 68-até 74). Há estudos que o compravam e documentação que baste. 
    Não sei que dizer mais sobre o ar que já se respirava antes do 25 de Abril.


     Mas haveria muito mais a acrescentar, visto de um outro prisma, com certeza, uma vez que a característica mais distintiva deste país é o facto de se manter  uma visão consolidada de que somos um país a duas velocidades, como o caracterizou _e dividiu_ o nosso prof. Marcelo: 
    De um lado a visão sob a perspectiva da corte lisboeta, sofisticada e fidalga, conhecedora dos bastidores da política e dos seus jogos cínicos, florentinos e hipócritas, donde os seus próceres apenas vislumbram de forma atávica um país distante, de gente lenta com maneiras rurais, arrivistas que se atrevem(?) a descer à cidade, com falta de traquejo social e portanto deslocados, fora do seu "meio".  

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  9. Bom fim de semana e, com sua permissão, uma das minhas músicas preferidas dessa época:

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  10. Até gostaria de subscrever o seu comentário, se tivesse passado pela ULisboa, pois concordo inteiramente com os seus pontos de vista.

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  11. Para quem não consegue entender a geração que viveu os anos 70, antes do 25 de abril, talvez ajude a ter-se um vislumbre do "espírito" e estética da época, conhecendo alguns ícones da música e ouvindo os seus "sons": 


    https://www.youtube.com/watch?v=Cpcye9GhCRc&list=RDEM_2daGPJ6TcPLLWvETMLAgw&index=2



    ou a soberba Janis Joplin:


    https://www.youtube.com/watch?v=vuoE95Dme8k

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  12. Não pertenço à "corte" de Lisboa :)

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  13. Faltou referir aqui um filme perturbador da época, sobre gangs e delinquência juvenil, o "Laranja Mecânica", com banda sonora inusitada, pois era música clássica.
    E o  "Je t'aime, moi...non plus" a duas vozes, Jane Birkin e Serge Gainsbourg, que causou escândalo e mesmo assim... ouvia-se sem censura.

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