A propósito do livro sobre identidade e família, alguém faz um elogio - não, não era concordância, era mesmo só o facto de ser interessante - ao texto de César das Neves e logo aparece outro alguém com uma fotografia de uma revista e a seguinte citação "Esta crise é uma oportunidade de bondade, de caridade e de solidariedade. Bendita crise que nos trouxe ao essencial".
O objectivo, como é bom de ver, era caracterizar César das Neves como um troglodita sem coração e sem respeito pelo sofrimento dos outros.
Conheço o suficiente de César das Neves (conheço-o pessoalmente, estou-lhe eternamento grato por umas discussões em que inclusivamente me fez um gráfico que usei na minha tese de doutoramento, não sou propriamente amigo dele, mas encontro-o socialmente em coisas de um dos meus irmãos que, esse sim, é bastante amigo dele) para saber que troglodita até posso compreender que lhe chamem, mas sem coração e sem respeito pelo sofrimentos dos outros, só desconhecendo totalmente o que escreve e diz publicamente.
Por isso perguntei qual era o contexto da frase.
Depois de alguma resistência, lá consegui o contexto da citação:
"o professor de Economia tem uma perspetiva positiva e considera mesmo que a crise pode ajudar-nos a “olhar para o verdadeiro Bem”: “Estávamos habituados a ver o Bem no sucesso económico, no dinheiro e na fama. Esta crise é uma oportunidade de bondade, de caridade e de solidariedade para com os outros. Bendita crise que nos trouxe ao essencial. As pessoas voltaram a olhar para os seus vizinhos, para a sua paróquia, para os mecanismos sociais… A família tinha deixado de ser importante e, agora, está a voltar a ser o lugar de ajuda mútua”
Resumindo, fiel ao registo frequentemente provocatório de César das Neves (para outros será apenas desassombrado), a frase, no seu contexto, elimina qualquer possibilidade de o caracterizar como alguém sem coração, sem respeito pelo sofrimento dos outros, obcecado com a mecânica da economia, independentemente das pessoas.
Mais, é uma argumentação que, podendo concordar-se ou não, em alguns aspectos, poderia ser subscrita pelos votantes e dirigentes do Bloco de Esquerda, na sua crítica a um capitalismo selvagem que aliena as pessoas, desviando-as do essencial para seguir bezerros de ouro.
O post não é sobre César das Neves, apenas o uso como exemplo de um modelo de discussão que campeia por aí, em especial nos jornais e na política (não são as redes sociais a baixar o nível, são as elites e os seus poderosos meios de comunicação de massas), que consiste em ouvir os outros, não para perceber os seus pontos de vista e os rebater, mas à procura de uma palavra, uma frase, um tom que me permita destruí-lo, independentemente do que o outro verdadeiramente pensa.
Custa assim tanto, sabendo que "a linguagem é uma fonte de mal entendidos", procurar nas palavras do outro o que verdadeiramente é o que ele pensa, em vez de usar as palavras, e a sua inerente ambiguidade, para distorcer o que o outro pensa de maneira a me ser mais fácil impor o meu ponto de vista?
Eu não vejo interesse nenhum em discutir argumentos que não existem na cabeça do outro, embora se possa encontrar uma interpretação do que ele diz para justificar a caracterização que interessa fazer do que ele pensa.
Fico sempre espantado com a quantidade de tempo e energia que tenho de perder a explicar a terceiros que o que eu penso é definido por mim e não por terceiros que se entretêem a explicar-me o que eu penso, a partir de interpretações criativas do que disse.
ResponderEliminarAinda dizem que os portugueses não lêem. País em peso lê o livro "do Passos". Como sou o único que ainda não o li, não poderei opinar sobre o conteúdo.
O resto é o resto, dois grupos extremistas, que desprezam a sociedade ocidental actual, e que querem a toda a força (pela das armas, pela do silêncio, etc) moldá-la à sua imagem, sem qualquer possibilidade de desvio moral ou ideológico.
ResponderEliminarMais um pertinente e interessante artigo no Observador
https://observador.pt/opiniao/o-que-e-o-conservadorismo/
ResponderEliminarA família tinha deixado de ser importante e, agora, está a voltar a ser o lugar de ajuda mútua
Sob o ponto de vista desta frase, a crise na habitação é bem vinda, porque força os filhos com 30 anos de idade a permanecerem em casa dos pais, ou a ela regressarem, desta forma reforçando os laços de entreajuda familiar.
Em geral, toda a pobreza material é boa, porque força as pessoas a pedir e dar ajuda.
Bem aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos Céus.
Muito obrigado pela demonstração prática do post
ResponderEliminarA caridade sempre foi mais "importante" que a solidariedade
ResponderEliminarDesta discussão toda sobre o livro a conclusão que retirei é simples: esse tipo de direita, beata e de sacristia, é minoritária no espaço sociológico da direita. Noutros tempos ditariam as regras da moral. Agora, usando um termo inglês, são uns weirdo. A verdade é que a larga maioria da sociedade já não lhes liga: não liga a malta de esquerda porque as capelas são outras e não liga a maioria da malta de direita porque tem outras preocupações na vida.
ResponderEliminarQuanto às qualidades pessoais de César das Neves desconheço e não me posso pronunciar. Mas posso assegurar, por experiência, que as pessoas com pior índole ética que conheci foram precisamente católicos de sacristia. Podem ser muito católicos, podem saber de cor as orações, podem brigar por questões de liturgia, podem fazer a maratona anual a Fátima, mas foram das pessoas que encontrei na vida com mais ruim fundo. Pode ser que o céu seja deles, mas se são eles a companhia dispenso. Antes a morte eterna. Pelo menos aí acabou tudo.
É preciso ser uma pessoa que manifestamente não presta para este nível de baixeza
ResponderEliminarFale por si. São do pior que encontrei - e conheci-os de perto.
ResponderEliminarTem um bom exemplo recente em França: uma freira da Bretanha expulsa como não se faz a um cão do convento dominicano onde vivia há 35 anos. Razões? Não se conhecem. Um cardeal canadiano fez uma visita ao convento, esteve lá uma semana, e de repente rua, a meio da noite. Ficou a viver do rendimento mínimo, coisa de gente de esquerda. Suspeita-se que terá sido por uma querela teológica sobre São Tomás de Aquino e que tudo não terá passado de uma vingança de uma outra amiga do cardeal. Levado a tribunal o convento vai ter de lhe pagar 180 mil euros de indemnização. 180 mil euros por uma vida arruinada. O Vaticano resmungou mas o certo é que continua sem se saber o que aquela mulher fez.
Como este podia apontar outros exemplos. São incapazes de amor ao próximo ou de sentir neste um seu igual. Nisso os protestantes são bem mais honestos. Mas como lhe disse hoje já quase ninguém quer saber deles. Por alguma razão as igrejas fecham e outras estão às moscas.
Em tempo: César das Neves é o mesmo que anda por aí há anos a protestar contra o aumento do salário mínimo porque é mau para os pobres. Baixinho, baixinho é que ele é bom, para aumentar a competitividade. Depois espantam-se da emigração.
ResponderEliminarJá não seria mau que a universidade dele pagasse impostos, mas está protegida pela concordata.
só é pena que sejam necessárias crises agendadas e provocadas para conquistarem mais território económico para perceber que a felicidade não reside no consumo e no mercado . os benefícios que retiramos do sistema que se montou não compensam de forma alguma , para os comuns mortais , os custos. quem ganha são os titãs da finança e as empresas gigantes, montes delas só vendem veneno , como o mac , a coca e afins , o resto fica a ver passar navios e a empobrecer como pobre assalariado à mercê dessa gente.
ResponderEliminarNão, não é. Tem uma ideia diferente da sua sobre o salário mínimo, semelhante à que durante muitos anos tiveram (e alguns ainda têm) os países nórdicos.
ResponderEliminarMac e coca ou PC e haxixe?
ResponderEliminarUm trecho do artigo acima linkado:
ResponderEliminarO Albino Manuel julga-se dono da verdade, mas não é.
ResponderEliminarsim , sempre prefiro o pc e o haxixe pc de computador ...
ResponderEliminarbem , se quer saber a minha onda é esta : comunismo libidinal , já estou muito à frente
ResponderEliminarhttps://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/a-hipotese-do-comunismo-libidinal/
E quem discorda dele já é?
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ResponderEliminar"o que eu penso é definido por mim e não por terceiros que se entretêem a explicar-me o que eu penso"
Ou seja, é imune a qualquer estímulo externo. Conheço muita gente assim. Ou melhor, que pensa que é assim (no fim são os mais manipuláveis)
Eu também conheço muita gente assim, incapaz de interpretar textos simples
ResponderEliminarSe são assim sendo católicos, já pensou quanto pior seriam se o não fossem?
ResponderEliminarP.S. - Pensava que os albinos só tinham os olhos vermelhos.
Ontem, por um acaso da minha atividade profissional, tive oportunidade de ouvir a entrevista de PPC, no decurso de uma viagem de trabalho.
ResponderEliminarUm testemunho muitíssimo interessante sobre um dos períodos mais difíceis do pós 25 de Abril. (goste-se ou não se goste, como diria o Marques Mendes).
Quando está manhã vi o cabeçalho da notícia do observador, o sentimento foi de nojo profundo pela horrenda desonestidade do artigo.