quinta-feira, 7 de março de 2024

Troglodita, disse ela

Ontem estava a passar numa coisa qualquer da televisão, sem grandes objectivos, e vejo Ana Gomes e Cecília Meireles, aparentemente, numa discussão.


Não tenho a menor paciência para o sectarismo e truculência de Ana Gomes, mas gosto bastante da ponderação de Cecília Meireles, de maneira que parei e andei para o começo daquilo, que ainda envolvia Sebastião Bugalho e Paulo Baldaia.


Não vi tudo, até porque às tantas falava tudo ao mesmo tempo e não se percebia nada (e, na verdade, quer Ana Gomes, quer Paulo Baldaia, para mim, caem na categoria dos que falam mais que o que dizem) mas vi o princípio em que Ana Gomes resolve classificar com uma nota de 8 em 10 Pedro Nuno Santos e com 0 Montenegro.


Há quem ache que estas notas não servem para nada, eu (como João Miguel Tavares disse um dia destes) acho que para entender a realidade são, com certeza, inúteis, mas são bastante explícitas sobre o ponto de vista de quem as dá, como se vê pelo exemplo acima.


A fundamentação para este disparate de Ana Gomes prendia-se com a elevação de Pedro Nuno Santos na resposta às interrupções no comício da Aula Magna (a discussão sobre as próximas eleições, do lado do PS, não passa destas minudências) e com o facto de Montenegro ter dito que Pedro Nuno Santos não tem estabilidade emocional (o PS não tem mais nada com que se entreter e acha que ganha votos achando que um comentário destes é uma coisa inqualificável, um ataque pessoal soez).


Resumindo, Ana Gomes valorizava, no que estava a dizer, a elevação da discussão política, condenando, sem apelo nem agravo comentários pessoais: combate político sim, ataques políticos, sim, mas ataques pessoais, isso era completamente inaceitável.


Nem meia dúzia de minutos depois, para ilustrar como a campanha da AD era má e a AD era perigosa (o PS acha que ganha muitos votos agitando papões, Ana Gomes esqueceu-se do que aprendeu, nos seus tempos do MRPP, sobre tigres de papel), fala do troglodita que é cabeça de lista da AD por Santarém, respondendo a Cecília Meireles, que lhe fez notar a deselegância de andar a insultar pessoas dessa forma, que era apenas um comentário político, não era um insulto (ao escrever este post, procurei uma coisa qualquer e dei com Miguel Sousa Tavares a dizer exactamente o mesmo aqui, no meio de uma conversa completamente ignorante sobre agricultura e o mundo rural).


Conheço Oliveira e Sousa das minhas andanças ligadas à conservação da natureza e ao mundo rural, tenho simpatia pessoal por Oliveira e Sousa, e posso garantir que nunca lhe encontrei um único traço de negacionista climático e, muitíssimo menos, de troglodita.


Ainda que o fosse, acho extraordinária a ideia de que os negacionistas climáticos não têm lugar na sociedade e nas discussões sociais, devendo ser tratados como leprosos e não contraditados com argumentos racionais.


Tem posições diferentes das minhas em relação ao ponto de equilíbrio entre economia e transição energética ou adaptação climática, mas tenho com ele largas áreas de sobreposição de pontos de vista sobre a forma concreta como a gestão dos problemas associados aos riscos ambientais precisa de ser tratada.


E posso garantir que sobre essas matérias, é incomparavelmente mais bem informado e sensato que Ana Gomes (convenhamos que não é difícil), que Miguel Sousa Tavares (convenhamos que não é difícil) e muitíssimo mais bem informado e sensato que a gente da Climáximo (ainda menos difícil).


Assuntos sérios e complexos não se tratam excluindo da discussão pessoas de quem se discorda radicalmente, e muito menos caricaturando as posições contrárias ao ponto dos adversários não as reconhecerem como suas.


Uma coisa é a discussão sobre a existência ou não de alterações climáticas (uma matéria em que há um esmagador consenso, sendo útil lembrar que consenso não é o mesmo que definição da verdade), outra coisa é a discussão sobre a origem e natureza dessas alterações climáticas (matéria em que ainda existe um largo consenso, embora menor que o anterior) e outra é a discussão sobre a forma como a sociedade deve responder a essa realidade, matéria sobre a qual não existe consenso nenhum, começando pela fortíssima clivagem entre os que querem essencialmente mitigar ou impedir essa alteração através das políticas de redução da emissão de carbono para a atmosfera, e os que querem essencialmente desenhar políticas de adaptação a essa nova realidade que, em larga medida, consideram inevitável.


Pelo meio existem milhares de nuances entre as posições defendidas pelas pessoas mais bem informadas sobre o assunto (não são apenas mais bem informadas sobre a física da atmosfera e coisas assim, são também as pessoas mais informadas sobre o funcionamento das sociedades, porque é disso que se trata).


Cada medida tomada na resposta ao problema das alterações climáticas tem efeitos positivos e negativos, sendo útil lembrar o princípio geral da química enunciado por Paracelso: a diferença entre um veneno e um remédio está na dose (por isso é tão risível ouvir pessoas que supostamente têm mundo, falar de uma agricultura sem pesticidas ou insecticidas, como Miguel Sousa Tavares que, pelos vistos, desconhece que a descoberta humana que isolada mais vidas salvou no mundo é a síntese da amónia).


Discutir cada uma dessas medidas, avaliar efeitos positivos e negativos, saber quem é que beneficia ou fica prejudicado em cada uma dessas medidas, é o mínimo que se exige nesta discussão.


E facilita, evidentemente, que as pessoas que querem participar na discussão tenham um mínimo de temperança, boa educação, gentileza e atenção a quem pensar de forma diferente, lembrando-se sempre do início do Discurso do Método, de Descartes: “O bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída: de facto, cada um pensa estar tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não têm de forma nenhuma o costume de desejarem mais do que o que têm. E nisto, não é verosímil que todos se enganem; mas antes, isso testemunha que o poder de bem julgar, e de distinguir o verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens; da mesma forma que a diversidade das nossas opiniões não provém do facto de uns serem mais razoáveis do que outros, mas unicamente do facto de nós conduzirmos os nossos pensamentos por vias diversas, e de não considerarmos as mesmas coisas”.

25 comentários:

  1. Sobre o Sr. de Santarém acho-o mais sensato do que aqueles que o destratam.
    Sobre a histérica Ana Gomes e os Sousa Tavares vivem desde sempre debaixo da pala do PS. Fazem o seu papel.
    Entrei numa loja de roupa da moda para comprar umas meias,deparei que os olhos  recaíam no Pai Sousa Tavares. Vi-o escolher, fatos, camisas, gravatas, meias. Creio que havia um qq evento político. Saí sem comprar as meias, que achei caras e porque me foi dada pouca atenção.
    Foi a 1ª vez na minha vida que me apercebi que vivia noutro mundo lunar.

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  2. Por exemplo (a segunda e terceira questões do teste) 









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  3. > gentileza e atenção a quem pensar de forma diferente


    Nunca, jamé. Era só o que falfava.


    Quer dizer, se parecer que estamos em maioria. Senão é ao contrário.


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  4. Mistérios de "bastidores" que propiciam prime-time televisivo a este erro biológico,  possuidor de um analfabetismo funcional mais que ofensivo...
    E , dizem, este traste "esteticamente ofensivo" foi admitido na "carreira diplomática"...
    Desgraçado país...
    Juromenha

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  5. Digamos que os proprietários rurais de Coruche, latifundiários na linguagem do PCP, são patuscos, mesmo quando são engenheiros e doutores em Lisboa. Das duas uma: ou nem Lisboa os amansou ou por lá são todos assim, doutores e engenheiros ou não.

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  6. Desculpe por ser fora do post, mas lembrei-me do video que se segue pelo contraste:

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  7. "Uma coisa é a discussão sobre a existência ou não de alterações climáticas (uma matéria em que há um esmagador consenso, ..." (HPS)


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  8. Bom retrato da aristocracia de esquerda portuguesa.

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  9. Sempre que vejo uma entrevista ou programa de discussão politico português sinto que estou a estupidificar. 
    Não há ali nada que permita perceber que algo positivo possa acontecer em Portugal tal a imbecilidade.

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  10. A teoria da evolução das espécies também é impossível de provar e, consequentemente, pode verificar-se errada (se até a ideia de que a distância mais curta entre dois pontos é uma reta se veio demonstrar como errada...), o que não significa que não goze de um largo consenso (que, como se diz no post, não é sinónimo de verdade).
    Haverá sempre terraplanistas no mundo.

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  11. As alterações climáticas são inegáveis, até porque houve umas quantas entre a chegada do Adão (e da Eva) aqui ao planeta, e o dia de hoje.
    O que não é consensual é o papel do Homem nas ditas.

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  12. Falam mal dos escribas mas lêem, falam mal dos paineleiros mas vêem.
    Na linha daquela gente que está sempre a criticar a CMTv, mas está sempre lá batida.
    Já tive os meus tempos de apreciar, nem que fosse por masoquismo, as discussões da bola (sim, estou a equiparar o Serrão e o Guerra à Ana Gomes e Cia)

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  13. Na minha juventude era "consensual" que a catástrofe era o «buraco do ozono» e as «chuvas ácidas» que iriam assolar a Europa e dissolver o revestimento dos monumentos das cidades europeias, corroendo as pedras, o granito, os mármores e, enfim, desaparecia todo o nosso património cultural e artístico edificado ao longo dos séculos. . 
    Andávamos angustiados a pensar que era o fim das catedrais europeias, dos museus, das estátuas, dos castelos, em suma, seria aniquilado todo o património edificado  da nossa Civilização.

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  14. As questões em torno das alterações climáticas (que são inegáveis), têm um lado _quando obsessivas_ que se encaixam na perfeição nas teorias Milenaristas que sempre (sublinho "sempre") existiram a anunciar o Fim dos Tempos. Todas vinham sempre acompanhadas do desejo de incutir (ou impor) no Outro os comportamentos correctos para se erradicar as impurezas que os podem destruir.  
    Para essa "purificação" dos corpos (ou das almas, como se verá)  os Milenaristas propunham "receitas" e "remédios" que acreditavam ser a solução milagrosos que livraria a Humanidade de todo o Mal. 
    Constata-se que houve e há um denominador comum a todos os "milenarismos":  é sua linguagem  impregnada de uma espécie de religiosidade fanática, quase febril e apocalíptica, acompanhada do desejo de "converter" as almas e os corpos à sua Magna Causa, imbuídos de um espírito de missão para Salvar a Humanidade.
      .   .

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  15. (cont.)
    Evidentemente que o Mal e os respectivos  "remédios" para a sua erradicação, variaram ao longo dos tempos, consoante a época e obviamente de acordo com a mentalidade, dentro do contexto cultural da época.


    Exemplifico: a evangelização e a cristianização dos povos,a partir do séc.XVI. Hoje critica-se ferozmente o papel dos Missionários _ após as Descobertas_ em terras distantes por onde se fixaram. É tido como uma perversidade cruel o Baptismo dos povos indígenas e a sua catequização . Mas pouca gente sabe que o Milenarismo e a crença no Fim dos Tempos subjazem ao Baptismo dos povos indígenas (criticado pelos ignorantes, como sendo "forçado"). Num espírito de missão e de cruzada, acreditavam ser sua obrigação salvar todos os Homens do Apocalipse, duma espécie de morte espiritual que os esperaria: seriam a condenados às penas eternas do Purgatório. Todos deviam ser salvos pelo baptismo para que todos entrassem no "Reino dos Céus". Para tal todos deviam ser baptizados para a sua salvação.


    Hoje são evidentes os mesmo sintomas, os mesmos presságios de males futuros, as mesmas visões apocalípticas do Fim do Mundo. 
    Em tudo está presente a mesma atitude de outrora, na nova religião "oficial",  de beatificação da "deusa" Gaia, a Terra _ essa entidade que se revoltará contra os impios, os hereges _que se manifestam na linguagem e nos comportamentos.  Serão castigados os "novos" pagãos e serão forçados a seguir os Mandamentos da nova Tábua. É preciso convertê-los aos ensinamentos para os purificar, expurgar do Mal. Só que, desta vez, trata-se da "salvação" dos corpos ... e não a da alma. 


    Outros milenaristas "febris" houve na Idade Média: eram os anacoretas e os ascetas que se isolavam-se no deserto, numa vida frugal e contemplativa, gritando contra os pecados do mundo, com o mesmo propósito de salvar os Homens.  
     .   . 

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  16. Precisamente. Sempre existiram,.


    E precisamente por isso "alterações climáticas" como os jornalistas usam é Newspeak próprio de 1984, usam uma frase de algo que sempre existiu para designarem outra coisa diferente. É literalmente Fake News.

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  17. O «buraco do ozono» terá sempre existido como consequência do campo magnético terrestre, apresentando a sua extensão uma variabilidade sazonal. O que é deveras curioso, uma daquelas "coincidências" extraordinárias, é o facto do alarmismo ter coincidido com o fim das patentes dos CFCs (cloro-flúor-carbonetos) e HCFCs, usados como fluidos refrigerantes nos sistemas de refrigeração por compressão de vapor e alegados causadores do "buraco". Este facto, assim como tantos outros, foi sempre convenientemente escamoteado.

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  18. Aqui tem 11000 anos de alterações climáticas:


    http://prntscr.com/wg63ma - gráfico de temperaturas do período inter-glacial do Holoceno


    Mas, quando se diz "à medida que as tempestades aumentam assustadoramente", isso é falso como o AR6 do IPCC bem mostra. 

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  19. Em 2023 o buraco do ozono esteve perto do record e ninguém sobe explicara razão...

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  20. Até nas bactérias, quando sujeitas a stress, aumenta a taxa de produção de mutantes a cada divisão celular e apenas as mais aptas para lhe resistirem sobrevivem. O fenómeno de resistência a antibióticos é consequência desse processo evolutivo. Já o apuramento das raças de cães hoje existentes resulta de um processo evolutivo diferente, todavia também ele demonstrativo de evolução genética. Além do mais, alguns dos registos fósseis evidenciam precisamente a evolução das espécies. A existência destas provas nada tem a ver com consensos.


    Só nas geometrias não-euclidianas é que a distância mais curta entre dois pontos não é uma recta. 


    Antes de Galileu também existia um esmagador consenso sobre a imobilidade da Terra. Mais recentemente, na Real Academia Sueca, existiu o consenso de que espaço e tempo não era Física e por isso Einstein não foi galardoado com o Nobel da Física pelas suas teorias da relatividade. Anos mais tarde recebeu um Nobel de consolação por ter descoberto um efeito de que quase ninguém se lembra.


    Os consensos, em assuntos de carácter científico, não têm qualquer valor. A Ciência não se faz por voto, não é um processo democrático e pode definir-se antes com uma ditadura da prova. "O simplismo nas ideias, o vago como doutrina e o superficial como dogma" são manifestamente anti-científicos, tal como a fé, a convicção, a política, a religião, os interesses económicos, a propaganda, as " fake news", a ignorância e os consensos.  


    "In the big lie there is always a certain force of credibility; because the broad masses of a nation are always more easily corrupted in the deeper strata of their emotional nature than consciously or voluntarily; and thus in the primitive simplicity of their minds they more readily fall victims to the big lie than the small lie, since they themselves often tell small lies in little matters but would be ashamed to resort to large-scale falsehoods. It would never come into their heads to fabricate colossal untruths, and they would not believe that others could have the the impudence to distort the truth so infamously." (Mein Kampf, A. Hitler)



    Deixo-lhe link de site onde pode fazer uns gráficos com dados climáticos vários e chegar às suas conclusões:


    https://www.woodfortrees.org/ 

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