sexta-feira, 8 de março de 2024

O tiro ao lucro

Por coincidência, li ontem um post de Miguel Alçada Baptista sobre as reacções às notícias da apresentação de resultados da Jerónimo Martins e um dos meus amigos do Bloco de Esquerda publicitou um video do Bloco que intercalava declarações de Pedro Soares dos Santos e um discurso de Mariana Mortágua, ilustrando na perfeição o desporto nacional que nesta época do ano é muito praticado: o tiro ao lucro.


Começo por transcrever o que disse Mariana Mortágua com letras a traço grosso, com comentários meus dentro de parêntesis e em itálico, pedindo que a transcrição seja lida tendo em atenção que era um discurso de campanha, portanto o rigor formal do português, e mesmo da lógica, tem as suas fragilidades, não deixando de se perceber o essencial.


"O caso de Pedro Soares dos Santos.
Dono da Jerónimo Martins. (por uma questão de rigor, Pedro Soares dos Santos é apenas um dos donos do grupo, aliás, no caso do Pingo Doce, tenho ideia de que 49% do capital nem sequer é da família Soares dos Santos, mas reconheço que esta é uma informação relativamente lateral)
Soares dos Santos gosta que se fale de impostos, desde que seja ele a receber o bónus fiscal que a direita lhe quer oferecer. (esta afirmação é extraordinária porque é um comentário a declarações de Pedro Soares dos Santos a queixar-se de se falar demasiado em impostos, quando, na opinião dele, se fala tão pouco sobre a criação de riqueza sobre a qual os impostos incidem. É um tipo de distorção do discurso de terceiros em que o Bloco de Esquerda, e Mariana Mortágua, são especialistas. Compreendo a dificuldade em dizer que Pedro Soares dos Santos está, na verdade, a sugerir que o choque fiscal proposto pela direita é muito menos importante que a discussão sobre as condições para a criação de riqueza no país, tal como o Bloco defende) 
Soares dos Santos tem o mérito de ter herdado uma das maiores fortunas do país. (isto não passa daquelas estribilhos que o Bloco repete contra a meritocracia. É verdade que Pedro Soares dos Santos "nem sequer foi ouvido no acto de que nasceu", mas Mariana Mortágua está a omitir que não foi ele o escolhido como sucessor do pai no grupo, inicialmente. Após essa sucessão, o grupo fez um investimento ruinoso que quase que levou o grupo à falência, que foi preciso um trabalho e engenho imenso para encaixar os prejuízos e voltar a relançar o grupo, tendo Pedro Soares dos Santos desempenhado um papel essencial nesse processo, razão pela qual o pai, e depois o resto da família, o escolheu para sucessor no grupo. Nisso terá algum mérito).
Ganha mais num único ano que o trabalhador médio da sua empresa ganharia em 260 anos de trabalho. (esta afirmação tem dois erros colossais. O primeiro é o de confundir o ordenado de Pedro Soares dos Santos no grupo como sendo o que ele ganha num ano, visto que tem rendimentos de capital substanciais que não estão incluídos no salário que recebe e a que se refere Mariana Mortágua. O segundo erro resulta da vontade irresistível que Mariana Mortágua tem de embelezar a realidade: a diferença de 260 vezes não é para o ordenado médio do grupo, mas para o ordenado de entrada, o que é muito diferente. Nunca percebi de onde vem a convicção de que Mariana Mortágua é rigorosa no que diz)
Para fazer o quê?
A fortuna deste milionário é o resultado de um exército de trabalhadores mal pagos que são mandados comprar barato aos produtores para vender caro no supermercado, fazendo com que os preços subam.
Isto não é produzir, isto não é criar, isto é tirar à economia, tirar à agricultura, tirar ao trabalho, tirar ao país".


Aqui está o que diz uma economista sobre a actividade retalhista, o mais primário e básico comentário sobre intermediários que se conhece desde tempos imemoriais (não há vez nenhuma em que me cruze com este comentário de taxista sobre os comerciantes que não me lembre do jogo de cintura de Ângelo Correia, nos idos do PREC, num comício do PSD em Aveiro, em que fazia toda uma diatribe contra os intermediários, um clássico da demagogia populista. Alguém lhe faz chegar um papelinho a alertá-lo para o facto da sala estar cheia de comerciantes, uma das bases mais sólidas de apoio ao PPD da altura. Ângelo Correia faz uma pausa de segundos e diz "isto é o que os comunistas dizem dos comerciantes, mas nós, pelo contrário, etc. e tal).


Vamos a factos.


Os lucros apresentados pela Jerónimo Martins andam pelos 3% de margem sobre as vendas, e andam talvez a menos de 6% de rentabilidade de capitais (eu não sou Mariana Mortágua e digo já que são números que vi por aí e não verifiquei, teria de perder muito tempo a verificar o seu rigor, mas do que conheço parecem-me ser números dentro do razoável, se alguém tiver melhor informação facilmente verificável, cá estarei para corrigir).


É um dos maiores contribuintes para a segurança social do país (está com certeza nos cinco primeiros), o que não é de espantar sendo um dos maiores empregadores do país e um dos maiores contribuintes (está consistentemente entre os dez maiores pagadores de impostos em Portugal).


Mais que isso, o salário de entrada no grupo, ou seja, o salário mais baixo que paga (normalmente por pouco tempo porque regra geral há subidas ao fim de um ano de trabalho), é umas dezenas de escudos (vi por aí que seria 80 euros, mas não sei se é tanto neste momento) acima do ordenado mínimo nacional (ao contrário do que é uma crença popular, as pessoas que trabalham nas caixas de supermercado da grande distribuição não recebem, na sua larga maioria, o ordenado mínimo nacional e se trabalharem na Jerónimo Martins não há ordenados que sejam o ordenado mínimo nacional, como penso também ser o caso no Continente, mas não fui verificar).


Ao mesmo tempo, apresenta ao consumidor preços competitivos, razão pela qual a esmagadora maioria dos operários e camponeses (para usar linguagem que Mariana Mortágua percebe) preferem ir comprar o que precisam à grande distribuição, e não ao comércio local tão acarinhado pela esquerda caviar e clássica.


Por fim, é um grupo que regularmente distribui participação nos lucros pelos seus trabalhadores (dois bónus por ano, de maneira geral, tanto quanto as caixas de supermercado me vão dizendo), investe na formação dos seus trabalhadores, investe no apoio social aos seus trabalhadores, financia fundações várias, incluindo a Fundação Francisco Manuel dos Santos (que financiou a publicação de um dos meus livros, fica feita a declaração de interesses), a Fundação dos Oceanos, que gere o Oceanário (penso que a concessão foi ganha em concurso público, não tenho a certeza), financia a Pordata e produz muitas outras coisas.


Tudo isto, na óptica de Mariana Mortágua é apenas retirar à economia, à agricultura, ao trabalho e ai país, através de um esquema manhoso de comprar barato (coitados dos produtores, não há mais ninguém no país a quem vender produtos) e vender caro (coitados dos consumidores, não há mais ninguém no país a quem comprar produtos).


Paulo Raimundo também passa o tempo a falar dos 25 milhões de lucros diários dos grandes grupos económicos, que, pelos vistos, o PCP considera um problema que deveria ser resolvido transferindo-os para os trabalhadores.


É tentador, representaria um aumento generalizado dos trabalhadores em cerca de 130 euros mensais (14 meses), o que parece ser um preço razoável a pagar pela destruição da capacidade de investimento e de remuneração do capital do país.


Estes tais grandes grupos económicos, ou as grandes empresas (a terminologia varia, mas não a realidade), pagam melhor aos seus trabalhadores, investem mais, são mais inovadores, têm políticas sociais e ambientais mais consistentes e sólidas, são os grandes contribuintes da segurança social e os grandes pagadores de impostos, e isso até seria bom, não se desse o caso dessas empresas serem lucrativas.


Um crime sem perdão que não pode passar sem castigo, como parecerá evidente a qualquer pessoa de bem e que norteie a sua vida pela busca do bem comum e não do interesse privado.

11 comentários:

  1.  Pedro Soares dos Santos detestado pelos donos do estado socialista que vivem à custa de quem trabalha

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  2. Deviam pôr nos programas dos partidos de esquerda a limitação dos rendimentos de futebolistas e similares a dez ou vinte salários mínimos.
    Só para o raciocínio ficar claro 

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  3. Como se vê mais uma vez, a esquerda quer o preço da comida muito mais alto.

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  4. É fácil de ver que a JM é uma empresa que remunera razoavelmente mal os seus acionistas (entre os quais me conto). Por exemplo, este ano irá distribuir um dividendo de 0,655 euros por cada ação que custa 20,1 euros, ou seja, uma remuneração de 3,26%. Noutros anos tem sido mais ou menos a mesma coisa. Nunca, que me recorde, remunerou os seus acionistas a mais do que 4%.



    Há empresas em Portugal que remuneram muitíssimo melhor os seus acionistas, por exemplo a REN e a Ramada, e outras. A JM é, das do PSI 20, das mais fraquinhas.

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  5. Para quem representa 244.603 eleitores num universo potencial de 10.000.000 inscritos, convenhamos, o BE tem forte apoio nos meandros da comunicação social, lá isso tem. 
    Não sei o que seria de Portugal, e dos portuguêses, sem o BE, sem o PAN, sem o Livre, bem assim como outros insuspeitos partidos que surgem no boletim de voto, todos bem intencionados, a favor do cidadão comum que não anda metido nas andanças da política. Muito obrigado pelo V/ esforço em prol da sociedade.

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  6. Sim, é verdade, mas convém ver que as empresas que pagam dividendos mais altos (percentualmente) são em geral as que apresentam menor crescimento. ou seja, como são empresas amadurecidas onde as perspectivas de crescimento são escassas, uma grande % dos lucros é distribuída sobre a forma de dividendos, aos passo que nas empresas que apresentam maior crescimento, há uma fatia maior dos lucros que é canalizada para investimento, sobrando menos para dividendos.

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  7. Já li duas homilias sobre Retalho. Opostas, que o politeismo é de louvar.

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  8. Exacto. Neste sistema político actual uma AR constituida por deputados dependentes dos partidos nunca exercerá o seu mister de "checks & balances".

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  9. Sério?
    E essa conclusão é baseada em...

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  10. Há várias formas de chegar a essa conclusão, a mais fácil é talvez através do Pay-out ratio (que poderemos traduzir por Rácio de distribuição de dividendos, isto é, qual a % do dividendo que é distribuído). Basta escolher um conjunto de cotadas a seu gosto e rapidamente constatará que aquelas onde o pay-out-ratio é maior são também aquelas em que o crescimento de vendas (dos últimos 5 anos, por exemplo) é menor.

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