O Facebook tem uma função de memória que vai mostrando coisas escritas anteriormente, na mesma data, mas em anos anteriores.
É uma função divertida, aqui e ali pode ser um bocadinho constrangedora quando se lê coisas que, lidas hoje, são autênticos disparates (e às vezes já eram, quando foram escritas) e hoje lembrou-me de que há dez anos usei este gráfico, vindo do INE, no relatório das contas de 2013 e que tinha saído nesse dia.

Num comentário, eu escrevia: "Este gráfico é muito, muito expressivo: primeiro do lado esquerdo o desequilíbrio das contas externas, na linha, o progressivo endividamento consequente, a tentativa de correcção progressiva do fim de Guterres e governos PSD/ CDS, a guinada de Sócrates logo em 2005, assente em necessidades de financiamento cada vez maiores (que se potenciam pelo stock crescente da dívida, mesmo quando as contas externas mostram alguma melhoria) e finalmente a correcção entre 2011 e 2013".
Achei muito útil trazer para aqui, exactamente hoje, no dia seguinte aos das eleições, um gráfico que começa quando começa Guterres e vai até ao meio de Passos Coelho e que, na minha opinião, explica em cinco segundos as razões para a chamada da troica e os excelentes resultados obtidos com o programa de assistência financeira (de que, felizmente, António Costa resolveu manter o essencial).
E acho útil porque ilustra bem as responsabilidades dos partidos na encruzilhada em que estamos (claro que há muitos outros factores não controláveis a contribuir para a tendência de progressiva degradação institucional e social em que estamos metidos).
A esquerda, toda a esquerda (ou seja, inclui a esmagadora maioria das redacções dos jornais, rádios e televisões), inventou uma história da carochinha sobre a responsabilidade exclusiva de Passos Coelho, e da direita, nas dificuldades sentidas durante o programa de ajustamento.
Com isso, em vez de estabelecer um chão comum de reconhecimento do problema e do caminho comum para o resolver, criou uma nebulosa argumentativa que nos impediu de investir seriamente na optimização das políticas públicas que contribuíssem para responder aos problemas que o gráfico mostra (e que são muito anteriores à troica, Sócrates, e o PS de então, apenas escolherem ignorar irresponsavelmente os problemas, agravando-os, para não perder votos).
A opção tem razões claríssimas de sobrevivência partidária e o artigo que, para mim, melhor mostra isso, é este artigo de Porfírio Silva (de quem sou pessoalmente amigo e de quem digo que é dos maiores sectários que conheço).
Dito de outra maneira, o PS, com medo de morrer ou se tornar irrelevante, resolveu torpedear os interesses do país (reconhecer os bons resultados do programa de ajustamento e respeitar o esforço das pessoas para os obter, fazendo a pedagogia da necessidade de criar riqueza como forma de ter uma vida melhor) para impor os seus interesses: garantir o acesso ao poder.
Púrpuro acaso, vi ontem um filme sobre o rapto do dono da Heineken, em que várias vezes ele diz que se pode ser rico de duas maneiras, ou tendo muito dinheiro, ou tendo muitos amigos, o que não se pode é ser rico das duas maneiras em simultâneo.
O PS (e a esquerda em geral), preferiu ter muito amigos, isto é, ter muitos votos, a contribuir para que o país tivesse mais dinheiro.
O resultado das eleições de ontem é consistente com o que seria de esperar de uma opção dessas que, ainda por cima, assenta no logro permantente de anunciar uma política (virar a página da austeridade) e manter a substância de outra política (a aplicação diferente da mesma política de austeridade).
Essencialmente, e simplificando, das eleições resultaram três blocos com dimensões apreciáveis: 1) os que não vêem alternativa a esse jogo de sombras e têm medo de mudanças, quaisquer mudanças (a perfeita definição do que é um reaccionário), que é o hoje o bloco das esquerdas, todas as esquerdas; 2) os que querem retomar o caminho que o gráfico vinha a desenhar na sequência do programa de ajustamento, sem grandes sobressaltos e aproveitando as condições mais favoráveis para cativar a sociedade para o esforço de criar mais riqueza; 3) os que se sentem enganados e sem esperança.
Da resultante de forças entre estes três blocos virá o caminho que vamos fazer daqui para a frente.
Por mim, o que me parece mais razoável, é que o grupo que acede ao poder faça o que tem a fazer e deixe aos outros as opções que entenderem.
P.S. sobre a Iniciativa Liberal - Não faço segredo do facto de ser ideologicamente liberal, de ter apoiado a Iniciativa Liberal e de continuar a achar que é a formação política que melhor me representa, ideologicamente. Também não fiz segredo da minha opção de votar na AD, na sequência de um processo sectário de gestão interna da Iniciativa Liberal, subsequente às eleições internas que houve, que culminou na proposta de um sétimo lugar nas listas de Lisboa a Carla Castro. O argumento de que seria um lugar perfeitamente ao alcance da eleição foi a base de uma proposta de uma perfídia sectária que não quis deixar de penalizar (nem eu, nem, pelos vistos, muito mais gente, visto que em Lisboa a IL perdeu um deputado, perdeu percentagem e número de votantes). Espero que a demonstração de que Roma não paga a traidores modere a sanha sectária do actual grupo dominante na IL, para eu voltar a ter em quem votar alegremente.
Subscrevo. Excelente reflexão.
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ResponderEliminarAinda não percebeu que o PSD pelo seu comportamento perdeu boa parte da direita.
ResponderEliminarAs contas externas de Portugal, e o seu (des)equilíbrio, têm muito pouco a ver com as políticas seguidas, quer por Guterres, que pelo PSD/CDS, quer por Sócrates.
Basicamente, essas contas têm a ver com a economia dos privados (das pessoas e das empresas). O Estado colabora ou deixa de colaborar, mas a sua parte da culpa não é dominante.
Na década de 2000 houve um forrobodó financeiro a nível internacional. Em particular, diversos países europeus endividaram-se brutalmente. Eles endividaram-se porque havia sempre quem lhes desse crédito. A culpa não foi, essencialmente, dos governos desses países. Na sua maior parte, as dívidas foram contraídas por privados.
Sócrates colaborou, claro. Mas não foi o principal culpado. Portugal teria entrado em défice e em dívida qualquer que fosse o que lá tivesse estado.
Depois de 2010, os bancos europeus deixaram de dar crédito a Portugal e aos portugueses. Como resultado disso, estes foram obrigados a equilibrar as suas contas externas. Independentemente do governo que estava no poleiro.
ResponderEliminarnem eu, nem, pelos vistos, muito mais gente, visto que em Lisboa a IL perdeu um deputado, perdeu percentagem e número de votantes
Parece-me bastante rebuscado este argumento de que muitas pessoas em Lisboa se preocuparam tanto com os candidatos a deputados que a Iniciativa Liberal apresentou ou deixou de apresentar, enquanto que noutros distritos do país, aparentemente, as pessoas foram mais benevolentes com esse partido.
Eu diria que a Iniciativa Liberal sofreu pequenas flutuações no seu eleitorado em diversos distritos, flutuações essas que pouco ou nada tiveram a ver com as peripécias internas que houve nesse partido.
De resto, tenho muitíssima pena de que a quarta candidata da Iniciativa Liberal por Lisboa, Angélique da Teresa, não tenha sido eleita, porque estou absolutamente certo de que ela viria a ser uma das melhores deputadas do hemiciclo.
O texto do amigo Porfírio Silva diz tudo, ainda mais que o do amigo Carlos Marx: "" Dada a natureza do pessoal político, e a sua dependência do maná da coisa público, é isto que vai acontecer (digo eu), não com qualquer coligação formal (os protagonistas foram demasiado explícitos a esse respeito), mas sob a forma de acordos pontuais, nas inúmeras matérias que o PSD e o Chega têm em comum (em particular havendo dinheiro para gastar). Quem, com isto, não só se torna irrelevante, como até tóxica, é a IL, para tristeza minha, naturalmente, mas aumento da "Schadenfreude" do HPS.
ResponderEliminarO que digo baseia-se nos dados concretos que estão no gráfico.
ResponderEliminarA tua ideia de que é completamente irrelevante o que os governos fazem baseia-se em que dados concretos?
O problema do teu argumento é ser falso: o único distrito em que a IL perdeu votos foi em Lisboa
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ResponderEliminaro único distrito em que a IL perdeu votos foi em Lisboa
(1) Ainda bem que a IL ganhou votos em todos os distritos menos somente um.
(2) A IL ganhou votos em todos os distritos em que o Henrique Pereira dos Santos gostaria que ela nem sequer tivesse concorrido, para obrigar (uma palavra pouco agradável a ouvidos liberais) os seus simpatizantes a votar AD.
(3) Continua a parecer-me inutilmente rebuscada a ideia de que os eleitores do distrito de Lisboa foram espiar a lista de candidatos da IL por esse distrito e ficaram chateados com a ausência dela de Carla Castro. Mesmo que esta rebuscada ideia fosse verdadeira, parecer-me-ia mais provável que tivessem ficado chateados com a ausência de João Cotrim de Figueiredo - reconhecidamente um deputado com grande perfil, para além de ser muito apreciado pelas mulheres. Mas prontos, aceito que uma ideia que a mim me parece rebuscada, pareça verosímil ao Henrique Pereira dos Santos.
ResponderEliminarNão digo que seja completamente irrelevante, digo que somente é de relevência parcial.
Baseia-se, por exemplo, nos dois factos de o desequilíbrio durante os governos do PS ter, em ambos os casos, primeiro crescido e depois descido durante um mesmo governo. O desequilíbrio foi máximo em 2000, em meados do governo de Guterres, e começou a diminuir ainda durante o governo deste. Mais tarde, em 2008, aconteceu o mesmo: o desequilíbrio começou a diminuir ainda durante o governo de Sócrates.
Parece-me mais razoável supor que em 2008 muitos bancos internacionais tiveram perdas com a crise do subprime nos EUA e começaram a cortar nos empréstimos a Portugal, e a outros países. Como resultado desse corte, os desequilíbrios nesses países automaticamente reduziram-se, independentemente das intervenções dos respetivos governos.
Eu faço um pequeno post scriptum sobre um post e tu resolves contestar com um comentário que eu te faço notar que é totalmente falso.
ResponderEliminarEm vez de reconheceres que realmente fizeste comentários sem olhar para a informação disponível, andas às voltas com ataques pessoais baseados em interpretações igualmente falsas do que eu disse.
Não achas isso demasiado infantil para a tua idade e demasiado estúpido para a tua inteligência?
ResponderEliminarandas às voltas com ataques pessoais
Ataques pessoais? Eu não fiz qualquer ataque pessoal a ninguém.
Haha, gostei da troca.
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