quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Viver no interior do mito

Paulo Tunhas faz falta, lembrei-me eu ao reler este texto de que me lembrava de um bocado que fui procurar.


O texto usa a Venezuela como pretexto próximo, mas desde o título é bem claro que o texto não é sobre a Venezuela, é sobre o desprezo pela plebe que resulta de se viver no interior de um mito.


A razão para me lembrar do tal bocado que me fez reler o texto todo é, em primeiro lugar, a necessidade de sistematizar um bocadinho as minhas ideias sobre essa seita que vive aterrorizada com o monstro das bolachas e, para espantar os seus males, em vez de cantar como seria sensato, atira tinta verde para cima de quem lhes pareça que possa ser o monstro das bolachas disfarçado de gente normal.


Mas verifiquei que isso se aplica também à quantidade de analistas que, perante uma opinião perfeitamente banal de Paulo Núncio sobre o aborto, sem ponta de novidade, na qual ele diz, e bem, que uma coisa aprovada por um referendo só deve ser revogada por referendo, resolvem ressuscitar uma frente política contra a reacção, o velho reflexo do "não passarão" que esquece a resposta de Franco: "passámos".


Paulo Tunhas explica admiravelmente: "é preciso ter em conta que o mito obriga a uma extraordinária selectividade no uso da compaixão. Se as criaturas humanas não encaixarem bem no esquema que o mito oferece, não gozarão sem dúvida da mesma piedade que merecem aquelas que nele encaixam. Formam uma plebe indistinta que não comove. Não se anda longe do desprezo".


O exemplo de Mariana Mortágua, condoída com dificuldades que a subida da renda da casa causam à viúva de um industrial rico, sem a menor preocupação para com os doentes mentais pobres do concelho de Tábua que beneficiam dessa subida, é o exemplo mais caricato que esta campanha trouxe, desse desprezo pela plebe, seguido de muito perto pelo famoso "mas o que é que não funciona" de Pedro Nuno Santos.


Mais transversal é a quantidade de comentadores e analistas que acham que para a formação do voto no dia 10 de Março o facto mais relevante que ocorreu ontem é uma declaração banal de Paulo Núncio e não a notícia de que foi encontrado em decomposição o corpo de uma senhora que desapareceu de um hospital porque a impediram de estar acompanhada por familiares, apesar de ter Alzheimer.


"A facilidade em saltar para os hipotéticos males futuros, desvalorizando alegremente os reais males presentes, é ajudada por duas características salientes: a incapacidade de olhar os factos com um mínimo de despreendimento relativamente a um quadro teórico geral no qual cresceram e de que nunca se afastaram por um milímetro – e um profundo desprezo pela plebe. Estas duas características encontram-se, de resto, ligadas uma à outra", Paulo Tunhas, outra vez, que eu não consigo ser tão claro.

9 comentários:

  1. As opniões de Paulo Nuncio, são banais. Mas foram ditas em campanha eleitoral.
    Das duas uma, ou é um péssimo político que vem para a campanha fazer conversa de café, ou pretende que isto seja tema de campanha,
    Se foi o primeiro caso, concordo que os comentadores não deveriam ter dado importância, no segundo caso comentaram um facto novo.

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  2. Um muito oportuno texto. 
    Que os candidatos adversários cavalgassem a mentira, ainda compreendo, é o que fazem todos os dias, mas que TODA a comunicação social mais a nova peste, os comentadores amensalados promovam a mentira até à náusea é muito mais grave. 
    Existe  uma espécie de comentadores-senadores a quem tudo é permitido, sem contraditório, que estão a minar a própria democracia. 
    Espero sinceramente que a 10 de Março os portugueses se marimbem para esta pseudo-elite e lhes dê uma lição. 

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  3. a esquerda reacionária continua no:
    «bem, não é bem assim, mas, talvez»

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  4. A epidemia de insanidades esquerdistas na política e nos média foi normalizada no pós Prec (e no pós fofinho contra-ataque do 25 Novembro) em nome da democracia e da igualdade. O que vemos hoje é herança disso à mistura com outras insanidades modernas.

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  5. Por falar em insanidades modernas, também do Observador:










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