terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Os 30%

Quando, a propósito de 70% das pessoas viverem em casa própria, disse que a subida dos preços das casas aumentava a riqueza da generalidade da população, apareceram alguns comentários completamente tontos (como argumentar que a subida do preço de um bem que eu não tenho nem vou comprar aumenta a minha pobreza, ou, mais ridículo ainda, argumentar que quem vende uma casa por 300 mil euros tem de ir a correr comprar outra igual por 300 mil euros, num país em que 63,2% dos alojamentos familiares estão sublotados) e outros comentários que são apenas ignorância: a de que o problema são os outros 30%, a de que existem encargos brutais com a habitação a subir por causa das taxas de juro e afins.


Vou esquecer as patetices sobre a compra de casa por estrangeiros, em especial de vistos gold (os estrangeiros, na melhor das hipóteses, representam 10% das transacções anuais, e metade são da União Europeia, portanto não são vistos gold com certeza) e vamos lá falar seriamente (para quem quiser ver a fundamentação, é dar um salto a este relatório, que já está disponível há algum tempo mas que os jornalistas portugueses que escrevem sobre habitação tendem a ignorar).


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Pouco mais de 60% destes proprietários não têm encargos com a sua casa, portanto, não são afectados pelas subidas das taxas de juro, e dos restantes quase 40%, o que pagam distribui-se da seguinte forma:


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Ou seja, menos de 30% têm encargos superiores a 400 euros e menos de 9% têm encargos superiores a 650 euros.


Ainda é muito gente, claro, e, sobretudo, é gente mais nova e com menos rendimentos, mas está muito longe de se poder falar de uma situação de aperto generalizado.


Agora sobre os 30% que na realidade não são 30% mas apenas 22,2%, como se vê aqui:


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Estarão estes 22,2% da população em risco de perderem a sua casa por causa dos aumentos de renda?


Treta, há uma percentagem pequena de pessoas, com contratos relativamente recentes, em que isso acontece, mas é um franja muito pequena da população (não, não inclui muitos avós).


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O problema diz respeito aos cerca de 65% dos 22,2% que têm contratos com menos de dez anos, os outros estão todos protegidos.


Só que, para além dos 2% de habitação social estatal (faço questão de escrever habitação social estatal porque a esmagadora maioria da habitação social que existe em Portugal é feita pelos senhorios privados a quem o Estado impede de cobrar rendas justas) a verdade é que olhando para as rendas que se pagam, o problema não está num T1 com 1500 euros de renda, existem, provavelmente, mas são completamente marginais no mercado.


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Surpresa, não só existem mais rendas de menos de 20 euros mensais (4%) que de mais de 1000 euros (2,2%), como cerca de 70% das rendas são abaixo dos 400 euros mensais e mais de 90% são abaixo dos 650 euros (estou a assumir que há um erro no gráfico e falta o escalão entre 500 e 649).


Existe um problema de acesso à habitação no país para as pessoas que precisam de mudar de casa agora, por qualquer razão, mas isso está longe, muito longe de ser um problema generalizado a toda a população, como foi no tempo em que as grandes cidades se encheram de barracas e de periferias de construção ilegal.

25 comentários:

  1. Por coincidência, todos os comentários que não concordam são tontos, seja habitação,  sobreiros ou jornalismo. Um woke será  um woke.


    Quem escreveu isto?


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  2. Há aí uns tempos verbais errados.
    O gráfico é  de 2021, eu por exemplo já saltei do azul claro para o roxo no gráfico dos encargos com compra. Nao devo ser caso único. E o "rendimento " não subiu na mesma proporção. 

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  3. A ideológica, é muito mais forte que a religiosa. Nesta última, acredita-se, sem provas; na primeira, acredita-se, com provas em contrário...

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  4. O problema não é a quantidade de pessoas a quem este problema afecta, mas a qualidade das pessoas: jovens (por estes dias, sub-40) que entendem que (como disse a Ministra da Habitação) lhes assiste o direito de habitar o centro das cidades de Lisboa, Porto, Coimbra ou Évora. A maior parte solteiros e/ou sem filhos, com qualificações sem mercado (ou em processo, por vezes vitalício, de as adquirir). Não sabem, nem querem saber, que no Cacém, no Barreiro ou na Reboleira se arrendam T1s por €700 (vi agora, no OLX). Constituem  o "core" do BE  e dos nossos meios "jornalístico" e "cultural". Não deixa, por isso, de ser um problema grave - mas, como o post refere, é grave (e muito) para os poucos que estão nessas circunstâncias. 

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  5. E nada. Usar o presente para fazer argumentações financeiras baseadas em factos passados é o qie é.  Básicamente, partir de um pressuposto, e encontrar os números que o sustentem. Nada de novo, os políticos fazem-no há anos com grande sucesso. Têm sempre razão e nunca perdem um debate.

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  6. A fé é  fé. Religião,  ciência, ideologia, pessoas. É imune aos factos. Foi assim que se montaram as religiões, das grandes às pequenas, wokismo incluído.

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  7. Os preços dos imóveis para venda estão elevados devido a um esquema de especulação imobiliária Anglo-Saxónico criado pela Cidade de Londres (City of London).


    «...Existe um problema de acesso à habitação...»


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  8. tem de considerar mais variáveis...
    contexto de crise
    preços sobrevalorizados


    sobretudo num século em que essas variáveis  estão cada vez mais em jogo


    lembro-me perfeitamente em 2012 quando tiveram de entregar as casa ao banco nem sequer dava para pagar a dívida
    os tempos mudaram , já não são sérios.

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  9. Sempre a mesma cassete e maniqueísmo, não desilude. Ainda vamos descobrir que antes da lei das rendas de Pedro Passos Coelho a renda não podia ser fixada livremente entre as partes. O único mal da extensa prosa é que falha sempre nos argumentos. Não indica uma única fonte.


    Em relação à lavagem de dinheiro, métodos não faltam. Não precisa de criar narrativas sobre os senhorios.

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  10. Se têm qualificações sem mercado não deverão ganhar salários que permitam pagar 700€ por um T1 no Cacém. 

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  11. Exacto. 1041€ (ordenado médio) -  700€ - 40€ (passe) = 301€ mensais. 9.7€ diários disponíveis para TODAS as outras despesas. Barreiro não é opção. Barrancos, talvez?

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  12. Usei a melhor informação disponível para caracterizar o ponto de partida das alterações que existiram.
    O camarada faz um comentário que não percebi, visto que entretanto ficou mais rico (a sua casa vale mais), apesar de temporariamente isso lhe provocar um rombo no rendimento (ou seja, estão a obrigá-lo a uma poupança forçada através do aumento dos juros para manter um bem que vale mais e cuja valorização é superior à inflação).
    E perante a minha pergunta para tentar perceber onde queria chegar, responde a atirar acusações para todo o lado, sem nenhuma informação útil, nem mesmo a mais básica: quanto aumentou a sua prestação mensal?

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  13. A maioria das pessoas querem uma casa para viver com alguém, portanto duplique o ordenado médio por dois.
    Para além disso, 9,7 euros diários permite uma vida perfeitamente razoável até encontrar uma casa que tenha uma renda mais baixa, que existem no Barreiro, pode ter a certeza, ou perceber que com 700 euros mensais e um pequeno esforço, consegue comprar uma casa, pagando uma prestação desse valor, com a diferença de que está a aforrar enquanto dono da casa.

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  14. Há alternativas: a primeira é trabalhar onde há mercado (e aí não faltam empregos, como se sabe), esquecendo as qualificações (como sabem os que não foram para professores, ou não conseguiram orientar um lugar na academia, na função pública, ou num dos QANGOs que o BE se especializou em criar). A segunda é partilhar custos com alguém, por exemplo, sob o conceito burguês de "constituir família".

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  15. e outra variável que  esquece e que troca as voltas às contas das pessoas  acerca de casas e não só  : divórcio.   sabe qual é a taxa de divorcialidade ? 
    suponho que é por isto que as previsões  dos economistas falham , trabalham com quadros estáticos e ignoram múltiplos factores da vida das pessoas.

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  16. Duplique por dois quando dá para duplicar. Sim, 10€ diários chegam e sobram. Acho que todos devíamos viver assim, pobretes e alegretes.

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  17. Claro. Se bem que o Estado devia intervir. No meu caso ainda demorou uns anos a constituir família, pois demoraram alguns anos no processo de contratação de uma she/her. Devia haver uma bolsa estatal onde pudesse aceder a uma esposa em tempo útil. 
    Empregos não faltam, como aferem os brazucas e asianos que por aí proliferam. Não sei é se os salários praticados permitem aceder ao Cacém. 

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  18. Limitei-me a um facto: dez euros por dia, para uma pessoa, chega para se aguentar.
    Se, daí, quer retirar conclusões abusivas sobre o que devia ser, o problema é seu

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  19. O divórcio é uma opção pessoal, não vejo razões para que sejam os contribuintes a resolver os problemas que decorrem dessa opção pessoal

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  20. O meu único problema é não saber como viver razoavelmente com 10€ por dia. Felizmente não tenho esse problema, quem o tem se calhar não acha o comentário abusivo.

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  21. Esqueça as variáveis. Quem andou na escola da carpintaria acha que todos os problemas se resolvem com um bloco de madeira.
    Felizmente (para mim) sou um privilegiado a vários níveis, mas isso não quer dizer que não tenha conhecimento e empatia pelos que não estão na minha situação. Há 20 anos pediam-me em Lisboa acima de 500€/mês por autênticos buracos (literalmente), não agregado para multiplicar o rendimento, tive a sorte de ir morar numa espécie de neo-couching com um familiar. Dividi casas com conhecidos, desconhecidos, realmente "tudo" tem solução mas a partir de certa altura queremos alguma independência...

    O custo da habitação, nem indo ao resto, em Lisboa e Porto é completamente desproporcional em relação aos rendimentos, ainda mais se estão no início da carreira profissional. Mesmo uma qualificada, que um engenheiro licenciado com menos de 5 anos de carreira se sacar 1500 brutos já é um pau.

    Sei que se vender o meu Tx em Coimbra faço cerca de 20-40% de lucro em relação ao preço de aquisição (claro que há juros e inflação, mas prontos), mas se quiser adquirir casa por esse valor, terei de ir para a aldeia. E não pode ser perto da estrada.

    Como resolver não sei, é uma questão complexa e que realmente tem imensas variáveis, mas sei que não é com passes de mágica ou com "deixa o mercado actuar vs habitação social para todos". Para chavões basta o Ventura, pelo menos faz rir.

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  22. Estive a fazer umas contas por alto, e durante vários anos vivia com cerca de 6 a 7 euros por mês por pessoa, estando claramente na metade de cima da pirâmide social.
    O ordenado mínimo (que está muito longe de ser o rendimento mínimo, há milhares de pensões com valores mais baixos) corresponde a 27 euros brutos por dia, mais coisa, menos coisa.
    O ordenado mediano (que tem mais interesse para esta discussão), é de 960 euros, ou seja, 32 euros por mês, ou seja, metade da população que recebe ordenado (volto a insistir que há muita pensão abaixo disso) tem cerca de 32 euros brutos por dia para todas as despesas, cerca de metade se considerarmos um agregado de quatro pessoas das quais as duas mais velhas recebem o ordenado mediano, 16 euros.
    O problema de acharem que com a questão do alojamento e dos transportes resolvidas não se consegue viver com 10 euros por dia não resulta de nenhuma impossibilidade, mas de nunca terem sabido o que isso é.

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  23. 700 euros por mês dão, tranquilamente, para comprar um T1 no Barreiro com as actuais condições de crédito.
    Dito isto, eu também acho que o preço da habitação é desproporcional em relação ao ordenado mediano, mas acho o mesmo do preço das batatas, isso não significa que eu defenda que o dono do supermercado deva ser obrigado a financiar as batatas que eu quiser escolher.
    Claro que só faz sentido vender a sua casa se daí resultar uma situação mais favorável para si, ou porque decidiu que não quer ter uma casa e passou a arrendar, ou porque ocupou uma casa que estava vazia e tenciona defender a ocupação a tiro, ou porque mudou o seu local de trabalho, ou porque resolveu ir morar com alguém e não precisa da sua casa.
    Por estranho que lhe pareça, é mesmo o mercado a maneira mais eficiente de resolver isto.
    O que não quer dizer que resolva todos os problemas e há problemas que até são mais bem resolvidos com filantropia ou com impostos dos contribuintes que com o mercado, o que não conheço é nenhum país do mundo que tenha resolvido melhor o acesso à habitação prescindindo do mercado que contando com o mercados eficientes.

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