sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Teares, debulhadoras e jornais

Adenda: por erro meu, parti do princípio de que o texto que cito era de um jornalista da global media, o que não é o caso. Provavelmente, sendo esse o meu ponto de partida na leitura do texto, e sendo esse ponto de partida errado, fiz uma leitura enviesada do texto, interpretando-o de uma forma que talvez não faça sentido. Ainda assim, penso que faz sentido manter o post que escrevi, mas assinalando esse erro, visto que o texto original (bem interessante e nada primário, ao contrário da generalidade do que tenho lido sobre a necessidade de manter artificialmente os orgãos de comunicação social da global media) não altera o fundo do contexto da discussão sobre a necessidade de evolução do jornalismo


Ludismo.png


O ludismo, na sua acepção mais estrita, diz respeito ao movimento anti-tecnologia da indústria textil que se caracterizou pela oposição à mecanização dos teares porque (citando a wikipedia) "o maquinário era usado, "de maneira fraudulenta e enganosa", para contornar práticas laborais consolidadas pela tradição".


Mas, na verdade, é uma ideia que persistiu e persiste ainda hoje, acompanhando cada nova mudança tecnológica ou de gestão das organizações.


Aproveitando para falar, mais uma vez, do fantástico livro de José da Silva Picão "Através dos campos", ele dedica algumas páginas à queima de debulhadoras no Alentejo, pelos trabalhadores, aquando da primeira vaga da mecanização, na viragem do século XIX para o século XX (a segunda vaga de mecanização, já em meados do século XX, diz respeito à mecanização da ceifa e do transporte, mas nessa altura não deu origem a movimentos do mesmo tipo porque os trabalhadores rurais estavam a iniciar um forte movimento migratório que melhorava substancialmente a sua qualidade de vida).


Lembrei-me disto a propósito de um testemunho de um trabalhador (de quem gosto e de cujo trabalho gosto) da Global Media, legitimamente desesperado por ver o seu mundo correr o risco de desaparecer.


Para evitar más interpretações, separo já aqui o drama individual de cada um dos trabalhadores ingleses da indústria têxtil, dos trabalhadores rurais do Alentejo do fim do século XIX, dos jornalistas da Global Media ou dos engenheiros da Farfetch, que me merece respeito e solidariedade, do que penso sobre estes processos de transformação social.


Eu compreendo este testemunho: "A redação envelheceu e emagreceu, ao mesmo tempo que o trabalho se multiplicou. Somos hoje um terço dos jornalistas que éramos e, em cima disso, passámos a ter de trabalhar muito, muito mais, porque é preciso “alimentar o site”. Deixámos de escrever e passámos a produzir. ... Não, nem sempre consigo cruzar a informação com todas as fontes que quero, porque há que dar a notícia já, antes que outro a dê, e as preciosas horas que passámos nisto vão por água abaixo. ... Estamos todos presos neste ciclo de decadência contínua, em que o rigor e a qualidade se perdem por falta de tempo, e a falta de rigor e qualidade levam à perda de leitores, e a perda de leitores leva à perda de receitas, e a perda de receitas leva à perda e apatia de jornalistas, e a perda e apatia de jornalistas leva à perda de rigor e qualidade. ... Vocês merecem mais. Nós sabemos isso. E fazemos o melhor que podemos. ... O jornalismo é das profissões mais nobres do mundo. Acredito tanto nisso hoje como em 1999, quando entrei, fascinado até ao arrepio, pela primeira vez na Visão. Mais, até. Não é um trabalho, é serviço, é amor, é paixão, é a nossa vida. Acompanhem-nos nesta luta. Ajudem-nos a fazer melhor. Continuamos a ser jornalistas até à medula. Não vamos desistir do jornalismo. Não desistam de nós."


Mas tanto quanto o compreendo, não posso deixar de ficar perplexo, mesmo sabendo do desespero que o fundamenta, com a ideia implícita de que faz sentido acreditar tanto no que se fazia em 1999 como no que se pretende fazer em 2024, invertendo a relação natural entre produtor e cliente: não é o produtor que tem de não se esquecer do cliente, é o cliente que tem de se adaptar ao que o produtor acha fundamental, na ideia da actividade económica que está no testemunho citado.


Os jornais abrem e fecham, mas não há memória do jornalismo ter acabado em lado nenhum, mesmo nas ditaduras mais agressivas, tal como as "práticas laborais consolidadas pela tradição" da indústria textil desapareceram, mas a indústria têxtil não.


É verdade que a habilidade manual de uma tecedeira foi substituída pela capacidade técnica do operador de máquinas (sim o uso do feminino na primeira parte, substituído pelo masculino da segunda, não é inocente) e que os conhecimentos e capacidadas requeridas para produzir um tecido no século XVII mudaram muito, sendo hoje completamente diferentes das que se requerem para produzir um tecido, também ele diferente.


Este processo de transformação tem perdedores e ganhadores, e não é possível não ter respeito e cuidado com os trabalhadores da Global Media, ou da Farfetch ou do café da esquina que fechou no fim do ano, que são, neste momento, perdedores.


Mas, por favor, não me peçam para aceitar argumentos metafísicos para tratar de forma diferente o jornalista ou o empregado de mesa que perdem o seu trabalho, como a relevância social do jornalismo para a democracia.


A evolução dos orgãos de comunicação social da global média ou a Farfetch, faz parte da destruição criativa do capitalismo (capitalismo é só uma palavra inventada pelos marxistas para descrever a realidade a que eles pretendem contrapôr as suas utopias totalitárias, diria eu parafraseando, eventualmente traindo, uma ideia que ouvi há tempos e que acho muito interessante) de que falava Schumpeter.


E isto não é não ter coração ou não ter empatia com os que hoje são as vítimas desse processo, é reconhecer que o pior que pode acontecer a estas pessoas é deixá-las afundar amarradas às organizações a que estão ligados.


E a melhor forma de evitar esse desastre é ajudá-las a libertar-se dessas amarras, com apoio social nos momentos mais imediatos, e um esforço sério de reconversão profissional, se necessário, quando o trabalho que sempre conheceram deixou de gerar valor suficiente para lhes pagar dignamente.


Manter artificialmente organizações zombie é só prolongar a agonia.

14 comentários:


  1. Continuo a acreditar que as pessoas querem jornalismo, e estão dispostas a pagar por ele. Mas eu não compro fruta tocada, ou sabonetes que me estraguem a pele.
    Para entertenimento, tenho filmes e séries, para homilias vou à missa. Cada macaco no seu galho.


    Mas convenhamos que em Portugal, dada a dimensão do mercado, sempre me fez confusão a quantidade de publicações em papel. Três desportivos diários, não sei quantos jornais nacionais, mais locais, revistas várias... 3 canais noticiosos (mais a CM depois), nem há gente para tanto canal, nem tem Portugal "conteúdos" para preencher 24/7 de programação. Não havendo possibilidade (leia-se guito) de gerar programas próprios, na linha de um 60 minutos, acaba-se em directos intermináveis, repetição de notícias, e os inefáveis debates em que estão sempre os mesmos a dizer o mesmo, intercalado com os seus "espaços de opinião".



    Uma adenda, os agregadores de notícias deviam pagar royalties às fontes, e deviam ser estas a estabelecer o preço. O negócio da net tem muito que se lhe diga, mas vou evitar de falar em regulação, que isto de regras e coiso é muito comunista.

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  2. o jornalismo está  de tal forma abandalhado que  pode  desaparecer para nosso alívio.  consideram-se 4º poder sem serem eleitos e escrutinados.
    recordo sempre o livro de SERGE HALIMI, LES NOUVEAUX CHIENS DE GARDE (




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  3. Sim, porque meios de comunicação social tipo Fox News  fazem jornalismo exemplar. O Observador também é de esquerda?

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  4. Eu limitei-me a repetir o argumento do jornalista referido neste post:


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  5. Não sigo a Fox News mas do que li certamente dá factos que são censurados pelos jornalistas em Portugal.


    E sim o Observador é de esquerda. A única coisa que se pode considerar de direita são os comentadores,  nem todos. As noticias são todas de esquerda ou extrema esquerda.

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  6. A Lusa é que introduziu essa "noticia" dos 500 mortos no hospital e depois tudo o resto dos mérdia repete quais papagaios.

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  7. Dito isto convém dizer que o Observador online (no caso dos artigos  de opiniāo etc)e o Observador rádio com vários programas de debates ,é dos poucos que ainda é útil se comparado com o resto. Obviamente não é perfeito mas o mundo também não o é,antes pelo contrário,e quanto a mim,que tenho seguido principalmente o rádio(mais que o online),é o que se aproxima mais de um jornalismo isento e rigoroso sem ser claramente de esquerda ou direita,que é o que um meio de comunicação deve ser.

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  8. Ou seja (para rematar) o que um meio de comunicação deve seguir é o rigor e isenção sem agenda ideológica e/ou partidária. 

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  9. A Fox News dá factos e o Alex Jones é o melhor investigador da actualidade. 

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