quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Não, não são todos iguais, sob muitos pontos de vista

Quando, um dia destes, fiz no  Observador a minha declaração de voto para as próximas eleições, contra a coligação PS/ jornalismo, dois dos comentários vindos de eleitores da Iniciativa Liberal assumem a mesma ideia: "Não me interessam as pessoas e sim os princípios. Liberalismo sempre. Portugal não precisa de PS nem de PS(D)." e "O PS o PSD e o Chega representam exatamente o mesmo: a mediocridade, o mínimo múltiplo comum da política".


Não vale a pena perder tempo a responder a este tipo de comentários em concreto (acho especialmente delicioso o "não me interessam as pessoas e sim os princípios", como se os princípios não existissem exclusivamente por causa das pessoas), mas dois comentadores da nossa praça dão-me o mote para contrariar estas ideias populistas de que fora do meu grupo, são todos iguais.


Pedindo desde já desculpa a Luís Aguiar-Conraria pela companhia a que o obrigo, falemos então do que se pode ler hoje numa coluna de opinião de Carmo Afonso (o nível intelectual é tão deprimentemente baixo que evito dizer o que quer que seja sobre as patetices que escreve Carmo Afonso, como dizer que o governo da geringonça foi o que mereceu mais aprovação dos portugueses, está estudado e demonstrado, como se não tivessem existido os governos de Cavaco Silva, por exemplo) e numa entrevista a Luís Aguiar-Conraria (é certo que como presidente da escola de economia da Universidade do Minho, o que o levará a ser mais institucional que o habitual, diria eu).


Hoje Carmo Afonso entretém-se com um novelo de raciocínios (enfim, admitamos que há alguma ponta de racionalidade naquele amontoado de frases) que pretende demonstrar que se o Chega chegar ao Governo é culpa da direita moderada porque apesar da direita moderada dizer que não faz acordos com o Chega, não diz (tal como não diz o tribunal constitucional) que é um partido anti-democrático e um perigo para a democracia.


A parte de opinião dou de barato (insisto que não percebo a opção do Público por ter, dia sim, dia não, a sua última página preenchida com lixo intelectual), o que me interessa aqui é notar que todo o arrazoado de hoje parte de uma sondagem que, percebe-se no último parágrafo, Carmo Afonso nem sequer compreende.


A sondagem diz que 14,5% dos eleitores não sabem, ou não respondem, em quem vão votar. Mas também diz (não no boneco principal que foi publicado), que há 32% de indecisos, praticamente um terço. Carmo Afonso, com a acuidade analítica que justifica atribuir-lhe dois terços da última página do jornal, dia sim, dia não, confunde tudo e diz que os tais 14.5% são os indecisos.


Se alguém reclamar para a direcção do Público, ou para o Provedor do Público, por lhe estar a ser vendido gato por lebre, o jornalismo actual está a anos luz de qualquer talhante, diz que os comentadores são livres e nem a direcção, nem o Provedor, se debruçam sobre o conteúdo dos comentários, mesmo que sejam objectivamente falsos, como neste caso.


O homem do talho já deixou de me responder assim há anos, é raro haver talhantes que me respondam que o produtor é que é responsável pela qualidade do bife, provavelmente, perante uma reclamação que facilmente se verifica ser procedente, ele dá-me outro bife e vai discutir com o produtor o prejuízo que teve, ao contrário das direcções dos jornais.


Mas nem o jornalismo, nem os comentadores são todos iguais, sugiro que se leiam estas duas peças do ECO, em que Luis Aguiar-Conraria tece comentários políticos que ajudam as pessoas a pensar e tomar decisões. Num caso, lembra de financiar propinas de alunos que emigram é financiar economias muito mais fortes que a nossa, no outro diz uma coisa que os comentadores liberais que citei no início deviam saber: "Acredito muito pouco na ação dos governos. O outro lado da moeda é que a inação também não me incomoda muito".


Não, meus caros amigos, nenhum é perfeito, de todos podemos dizer que não servem para nada, como fazem os populistas, mas a verdade é que um governo dos que ocupam o poder há quase trinta anos (com um ou outro intervalo) não é igual a um governo de pessoas que até podem ser igualmente maus, mas não são os mesmos.


Em si mesmo, mudar de pessoal é uma grande virtude: os governos e as fraldas devem ser mudadas periodicamente e pelas mesmas razões.

27 comentários:

  1. em altura de eleições o ps sempre ao 'ataque' como as 


    ResponderEliminar




  2. Os governos de Cavaco Silva foram há mais de 30 anos - boa parte dos portugueses nem sequer era nascida. Não se pode comparar a geringonça, que foi há meia dúzia de anos, com Cavaco Silva, que foi há 30 e tantos anos.

    ResponderEliminar
  3. A frase de Carmo Afonso (o governo da geringonça foi o mais bem avaliado pelos portugueses) é falsa.
    O teu comentário sobre isto, é irrelevante.

    ResponderEliminar

  4. O Henrique votará AD, porque para si é mais importante a rotação do poder (se percebi bem).


    Mas há também um argumento forte a favor da abstenção: graças à espertice do Costa, os políticos dividiram-se em dois blocos mutuamente antagonistas. E cada um promete desfazer o que o outro fizer.



    Assim, é irrelevante se os políticos mudam ou não, o que é dado como garantido é que os próximos governos se vão entreter a anular/reverter o que foi feito pelo anterior. E sendo assim, votar para quê ?

    ResponderEliminar
  5. Qual o critério para ser o mais bem avaliado?

    ResponderEliminar

  6. As sondagens valem pevide. São meros exercícios de adivinhação.
    Uma boa rede social, se quisesse, conseguia prever o resultado das eleições com 99,99% de certeza. Está tudo na quantidade. Que como todos sabem, é o segredo do sucesso dos Analytics. Ao fim de um anito qualquer partido conseguiria ter uma clara visão dos padrões e anomalias nas orientações de voto.


    ""Não me interessam as pessoas e sim os princípios"
    Na linha de preferir um idiota bem intencionado a um competente mal intencionado.

    ResponderEliminar

  7. Certo. Não sei se está a ser irónico, mas o meu ponto é que a democracia exige consensos. Se todos os participantes se propõem a desfazer o que o outro fizer, não vale muito a pena ter democracia.


    A não ser que você espera (cinicamente) que de anulação em anulação, o governo português se torne irrelevante. Bom, se for esse o caso, cuidado com o que deseja.

    ResponderEliminar
  8. Devem ser as sondagens de opinião. As tais que se enganam sistematicamente quando se trata de prever os resultados das eleições. Análogas às que afirmam que os maiores portugueses de sempre foram Salazar e Cunhal.

    ResponderEliminar

  9. Uma boa rede social, se quisesse, conseguia prever o resultado das eleições com 99,99% de certeza.


    Disparate. A maior parte das pessoas do país não utiliza regularmente a internet nem participa em qualquer rede social.

    ResponderEliminar

  10. Que percentagem de pessoas é essa?


    (eu sou um deles)

    ResponderEliminar

  11. No seu artigo no Observador referido este post, o Henrique Pereira dos Santos fala da "coligação PS/ jornalismo".
    A mim parece-me que muito mais nefasta do que essa, para a democracia e para a liberdade, é a coligação Ministério Público-jornalismo.

    ResponderEliminar
  12. Essa é uma hipótese.
    A outra é que os dois daremos importância diferente aos processos de tomada de decisão colectiva, que numa democracia são muito mais importantes que os resultados e as pessoas concretas que as tomam.

    ResponderEliminar

  13. daremos importância diferente aos processos de tomada de decisão colectiva


    Se o Henrique se preocupa com os processos de tomada de decisão coletiva, pois eu dir-lhe-ia que os da AD não são certamente melhores do que os da Iniciativa Liberal (IL).
    O Henrique critica a IL por ter excluído um conjunto de "críticos", a começar por Carla Castro, das suas listas.
    (De facto, Carla Castro não foi excluída, foi-lhe somente proposto que passasse para uma posição dificilmente elegível. É um bocado diferente, sobretudo se repararmos que muitos cabeças-de-lista da IL foram alterados, e que a IL tem uma muito parca ideia de quais os lugares que serão elegíveis.)
    (O facto é que a maior parte dos "críticos" se afastaram da IL pelo seu próprio pé, isto é, saíram ostensivamente dela, e até, em certos casos, dos órgãos diretivos para os quais tinham sido eleitos, pelo que, a IL não os afastou, foram eles quem se auto-afastou.)
    Mas os partidos da AD fazem isso, de forma sistemática, desde há longos anos. Montenegro varreu das listas os adeptos de Rio, que por sua vez tinha varrido das listas os adeptos do líder anterior. Os anteriores líderes do CDS já foram todos afastados do partido (Ribeiro e Castro permanece lá, mas sem fazer nada).
    Eu diria que, se a IL tem maus processos de decisão coletiva, os processos do PSD são igualmente maus, e os do CDS são ainda piores.

    ResponderEliminar
  14. Estou totalmente de acordo com o HPS relativamente à importância dos . Parece-me é ser evidente e inegável que os

    ResponderEliminar
  15. Errado. A coligação PS/Activismo...perdão...Jornalismo é a que destroí a Democracia. Torna Portugal num regime de partido único.

    ResponderEliminar
  16. Um partido tinha processos de decisão melhores e essa uma das razões pelas quais votava nele.
    Fez a opção de adoptar os processos de decisão dos outros partidos, que são piores.
    Esse critério deixou de contar a seu favor no momento do meu voto.
    Qual é a complicação?

    ResponderEliminar
  17. A complicação decorre do facto de afirmar que os peram "u

    ResponderEliminar
  18. Se um dos factores de um conjunto de factores se altera, é possível que o resultado final se altere.
    Foi o meu caso.
    Não tenho a menor intenção de convencer ninguém a deixar de votar na IL, a actual direcção da IL é que decidiu que havia muitos votos dispensáveis, como o meu.

    ResponderEliminar
  19. Sempre gostei de ler HPS e até acho que deveria colaborar mais no Observador. Isto mesmo quando dele discordo, como neste caso em que, por motivos semelhantes (não são idênticos pois nunca colaborei com a IL) extraio diferente conclusão e ainda não sei se continuarei abstencionista, se votarei Chega. Talvez dependa do tempo que fizer no dia 10 de Março, se nada acontecer de muito relevante até lá.
    Mas surpreende-me, mesmo excluindo Balio que é um daqueles fenómenos único e irrepetível, a quantidade de comentários infelizes ou mesmo disparatados que os seus artigos atraem. Mistérios insondáveis.

    ResponderEliminar
  20. Esta é a altura em que costumo dizer, "Obrigado, Sr. Dr. Juiz, não quero mais nada" e agradeço à Sr.ª Testemunha. :)

    ResponderEliminar
  21. Quem fez o rating da infelicidade dos comentários, a Moodys? Ou a Wookys?

    ResponderEliminar
  22. (Já foi toda a gente embora?)





    ResponderEliminar

  23. Votar em partidos é escolher um, o preferido, grupo de potenciais candidatos a deputados. 
    Votar em partidos não é escolher um, o preferido, candidato a deputado.

    Dos grupos de potenciais candidatos a deputado forçosamente sairá uma assembleia de representantes (dos interesses) de esses grupos. "Democracia" representativa de quem?. É ingenuidade imaginar que se vota em Deputados da República.

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...