Os jornalistas inventaram uma ideia que, por sinal, é falsa, a ideia de que o jornalismo é essencial para a qualidade da democracia.
O corolário da ideia é o de que, sendo assim, pôr os contribuintes a pagar aos jornalistas, através do Estado, é perfeitamente razoável.
A ideia inicial é quase verdadeira: o escrutínio público é essencial a uma democracia, sim, o jornalismo é historicamente um dos principais meios para fazer esse escrutínio, sim, mas um jornalismo que não é lido, um jornalismo a que as pessoas não reconhecem valor ao ponto de não o pagarem, dificilmente faz um escrutínio útil para a democracia.
A questão central é pois a do escrutínio, e não a do jornalismo.
Nacionalizar os meios de comunicação social não garante escrutínio nenhum, porque os jornalistas passam a poder existir sem que ninguém os leia, passa a ser possível haver jornais cheios de leitores ausentes.
O problema, dizem alguns (Bárbara Reis, no Público de dia de Reis, por exemplo) é que "Por cada printscreen, versão Word ou outra versão qualquer de uma notícia ou edição de jornal que lê sem pagar, mata um jornalista".
Por isso conclui "Fica a ideia para 2024: assine os jornais de que gosta. Há muitas razões. A mais óbvia é a de que essa é a melhor forma de evitar que os jornais de que gosta morram ... O mundo mudou e os jornais têm de se adaptar. É verdade. Mas os leitores também".
Vou saltar por cima do facto de Bárbara Reis ser a directora do Público quando me pediram para escrever semanalmente para o on-line, o que fiz com gosto e sem pagamento (não me estou a queixar), sem que nessa altura Bárbara Reis achasse que o jornal não deveria publicar nada que não fosse pago, como demonstração de respeito pelo trabalho dos outros.
Devo dizer que sempre é mais claro que o que fez o Observador quando me convidou para participar num programa de rádio, estipulando um pagamento irrisório, tenho ideia de que daria 200 euros por mês, brutos, mas durante os vários meses em que participei no programa, com uma ou outra referência minha ao que tinha sido combinado, nenhuma das pessoas envolvidas no programa achou o cumprimento do acordado como relevante, razão pela qual nunca vi um cêntimo desse tal trabalho que os jornalistas acham muito importante, quando são eles que ficam a arder com o dinheiro.
O que verdadeiramente é relevante nisto é que uma pessoa que foi directora de um jornal anos a fio, nunca tenha percebido as razões pelas quais muita gente não quer pagar para o ler.
Não é por não poder pagar, é mesmo por achar que está a ser roubada quando lhe pedem o dinheiro que pedem para o que entregam em troca.
Roubar é feio, cara senhora jornalista, nisso estaremos todos de acordo, a diferença é que a senhora jornalista acha que só rouba quem lê sem pagar, e quem lê sem pagar acha que é roubo cobrar dinheiro aos outros sem entregar o produto ou serviço acordado.
Por acaso, sou dos poucos que compram o Público todos os dias em banca, mas faço-o não por gostar do jornal, mas apesar de não gostar do jornal, faço-o por razões que são minhas, e sempre protestando comigo mesmo por estar a contribuir para o pagamento a Carmo Afonso, a Cristina Roldão, a Sofia Lorena, a Joana Gorjão Henriques, a Rafaela Burd Relvas, a Pacheco Pereira, a Manuel Loff e tantos, tantos outros que não me entregam informação, como deviam, mas propaganda.
Eu acho mesmo uma lata descomunal alguém que vive do negócio de produzir informação dirigir-se aos seus potenciais clientes, os seus leitores, admitindo que o jornal tem de mudar, mas eles, os clientes, também têm de mudar.
Não, meus caros jornalistas, são vocês que, se querem continuar a ser jornalistas, têm de encontrar forma de criar valor com o que fazem, não sou eu que tenho de mudar para que a vossa sobrevivência seja possível mesmo que insistam na destruição de valor do que produzem.
Nacionalizar a produção independente de informação é apenas mais um atalho que estão a tentar arranjar para que não sejam obrigados a mudar de vida, como se o Público, que vive da caridade da família Azevedo, cumprisse o papel que os seus leitores querem que cumpra com editoriais como o de hoje sobre a privatização da ANA.
É com certeza uma questão de tempo a família Azevedo cansar-se de sustentar um jornal sem qualidade mínima exigível, e a responsabilidade será vossa, que continuam a desperdiçar a melhores condições possíveis para a criação de um jornal independente, achando que o jornal existe para sustentar jornalistas e não para servir as pessoas comuns, como qualquer outro negócio.
ResponderEliminarPara lá da experiência relatada e que demonstra já um modus operandi...
...o jornalismo é talvez a mais desonesta profissão que existe pois a grande maioria dos jornalistas não foi para a profissão para informar mas para "Mudar o mundo" , eles dizem-no sem perceberem a destruição que fazem ao comportarem-se assim. Jornalistas tão militantes que querem mudar o mundo nunca vão fazer uma pergunta incómoda para a narrativa que precisam para realizar essa grande ambição. Nem vão fazer perguntas fora da monocultura dessa ambição.
Não há nenhuma outra profissão que me recorde onde a maioria não vai para fazer o sujeito da profissão.
Porque é que não compro o Publico.
- Porque é desonesto
- Porque não pede desculpa quando se engana ou mente
- Mas a mais importante razão é porque ao o ler não aprendo nada que me ajude a prever o futuro que é o que perceber Portugal e perceber o mundo que existe ajuda a fazer. Quando leio o Publico tenho um retrato minusculo e na maioria errado do mundo.
Isto não é problema específico Português mas Ocidental, por cá apenas copia-se o mal que se faz lá fora sem vergonha...
O jornalismo no Ocidente não presta porque quase todas as previsões que faz revelaram-se erradas e as que não fez verdadeiras.
Recordar que por exemplo o Regime Soviético caiu apesar do jornalismo Ocidental, não por causa dele. O jornalismo ocidental "moderado, de referência e responsável" mentiu durante décadas sobre o Regime Soviético.
Exemplo de pergunta que os jornalistas hoje não fazem aos politicos :
Porque é que a Europa não consegue proteger os navios mercantes Europeus dos ataques dos Houthis...?
Não fazem essa pergunta, nem escrevem editoriais porque a narrativa de esquerda dos jornalistas sobre o mundo ficaria com uma interferência dissonante na mensagem. Uma acção politica/militar Europeia como consequência dos editoriais seria um obstáculo à narrativa.
O jornalismo é importante para a democracia e para a sociedade.
ResponderEliminarMas convém ser bom jornalismo.
A classe, até por se considerar intelectualmente acima, e regida sob normas éticas (o tal código que gostam de puxar quando convém) é incapaz de uma auto-crítica. O corporativismo em Portugal é um fenómeno, mas no jornalismo toma contornos épicos.
Pior fica quando são invadidos pela massa woke, mais virada para a teologia do que para a informação. Não mostram o mundo, mas sim a sua visão do mundo.
ResponderEliminarEu durante muitos meses comprei todas as semanas o Economist precisamente com o mesmo estado de espírito. Agora decidi deixar de o fazer. Já estou farto de ser objeto da propaganda dos Serviços Secretos britânicos.
As últimas vezes que li o Público foram no Alfa. Deu para me relembrar o porquê de ter deixado de comprar aquilo.
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ResponderEliminarPorque é que a Europa não consegue proteger os navios mercantes Europeus dos ataques dos Houthis...?
Porque para o fazer precisariam ou de bombardear o Iémen (coisa que seria altamente impopular pois faria muitos mortos civis, para além de ser de eficácia discutível e de já ter sido feito durante muitos anos pela Arábia Saudita, sem efeitos óbvios), ou de o invadir (o que seria ainda muito mais impopular, pois provocaria baixas entre os soldados europeus).
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ResponderEliminarEpifania: acho que o que faz mesmo falta é um jornal que dê notícias. Já não era mau.
ResponderEliminarExacto, e de preferência com rigor, isenção e sem agendas ideológicas.
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