Fui buscar o título do post a esta intervenção no congresso do PS.
E à mesma intervenção, o ponto de partida deste post: os congressos, desde que deixaram de eleger o secretário-geral, passaram a ser passagens de modelos.
Durante todo o fim de semana as rádios, as televisões e os jornais dedicaram imenso tempo e espaço a um congresso que, na verdade, não interessa a quase ninguém e não é notícia, no sentido em que não produz informação que diga respeito à vida concreta das pessoas.
Não é este congresso em particular, são os congressos partidários em geral.
Para que não haja dúvidas, vou fazer uma longa transcrição da cobertura que o Público hoje dedica ao congresso do PS, com chamadas de capa tão relevantes como "O novo PS pode ter Assis na corrida a Belém", uma opinião de Ana Sá Lopes que parte do princípio de que há um novo PS, que discutir hoje umas eleições que serão daqui a dois anos é importante e, não contente, que tem algum interesse, para as pessoas comuns, saber se Assis pode ser (o que significa que também pode não ser) o candidato do PS à presidência da república daqui a dois anos, uma demonstração fabulosa do meu post de ontem sobre a responsabilidade dos jornalistas na destruição de valor provocada pela sua actividade, a que insistem em chamar jornalismo.
Sob o título "As seis primeiras ideias com que Pedro Nuno Santos quer ganhar as eleições", David Santiago (nunca ouvi falar, portanto não tenho opinião prévia sobre o que escreve, ao contrário do que aconteceria se fosse alguém que leio há anos, como a senhora que agora escreve no Público sobre a guerra na Palestina, Alexandra Lucas, cujos artigos já sei o que dizem, antes mesmo de os ler) descreve a primeira ideia "Transformar a economia": "Mais do que rendimento ou impostos, a proposta mais estrutural do novo secretário-geral do PS para o futuro do país não consiste numa medida concreta, antes numa reforma da economia nacional e, sobretudo, da forma como o Estado deve intervir na mesma. Pedro Nuno Santos quer dar "prioridade à transformação económica" através de uma mais apurada intervenção estatal - não tanto uma economia planificada, mas planificar o que se quer da economia. Identificando como "desafio" a "transformação estrutural da economia", Pedro Nuno Santos quer alterar o seu "perfil de especialização". Para o conseguir, defende que, sem limitar ou constranger os investimentos do sector privado, cabe ao Estado "a obrigação de fazer escolhas quanto aos sectores e tecnologias a apoiar". No que foi talvez a xrítica mais dura à governação de António Costa, o agora líder socialista afirmou que "a incapacidade de se dizer "não" levou o Estado a apoiar, de forma indiscriminada, empresas, sectores e tecnologias, independentemente do seu potencial de arrastamento da economia". Em oposição, defende: "É tempo de ser claro e de fazer escolhas, porque governar é escolher: só conseguiremos transformar a economia com mais dinheiro para menos sectores", garante, propondo criar um "sistema de incentivos" que reforce "o grau de selectividade".
Resumindo, o jornalismo gasta o tempo e o espaço a discutir metafísica partidária, sem qualquer ligação com a realidade, materialmente incompreensível e contraditória ("Words are flowing out like endless rain into a paper cup They slither wildly as they slip away across the universe"), evitando falar das mulheres (são sobretudo mulheres), pretas e mulatas (são sobretudo pretas e mulatas), que saem às cinco da manhã para ir trabalhar nas limpezas dos jornais ou das casas dos jornalistas, e perdem uma hora à espera de transportes públicos que não aparecem porque os trabalhadores de sectores protegidos pela asa do Estado fazem incessantemente greves cujos objectivos ninguém consegue perceber.
E evitam falar do facto dos seus filhos, para além de não terem apoio escolar em casa, porque os pais não têm as qualificações que os pais dos jornalistas tinham, viverem nas zonas mais marginais, o que os atira para as escolas mais degradadas, também em capital físico, mas sobretudo em capital humano (obrigado Nuno Palma a quem fui buscar esta formulação, a partir do programa sociedade civil de 4 de Janeiro, que merece bem a pena ser ouvido, também pelo Filipe Charters de Azevedo e pela esfrega que leva o terrorista convertido em professor universitário que também participou), permanentemente em agitação por causa das greves de professores protegidos pela asa do Estado, perpetuando por gerações a pobreza endémica destes emigrantes que fogem de situações ainda piores nos seus países de origem.
E evitam dizer que os que passam longas horas nas urgências são maioritariamente estas mulheres e as suas famílias - os que estão em situação mais grave têm muito maior mistura social, mas esses não passam longas horas nas urgências à espera, quem passa longa horas nas urgências à espera são os doentes pobres em situação clínica de urgência moderada que recorrem à urgência porque lhes falta a assistência a que teoricamente poderiam ter direito, como têm os utentes da ADSE, protegidos pela longa asa do Estado, que podem recorrer às urgências privadas, para suprir carências de assistência geral.
Tal como evitam falar das humilhações a que têm de sujeitar porque o sistema de justiça não consegue tratar de forma razoável os conflitos sociais, sobretudo quando não se tem dinheiro para pagar a quem saiba lidar com esse sistema de justiça disfuncional.
E, enquanto evitam falar do dia a dia dos que vivem num mundo que lhes é estranho, uma boa parte do jornalismo entretem-se com as guerras de alecrim e manjerona do seu mundinho, confundindo o seu umbigo com o centro do mundo, razão pela qual nem reparam no ridículo de gastar mais de meia dúzia de palavras a descrever o congresso do PS: Pedro Nuno Santos diz tudo e o seu contrário, a corte aplaude como já em 2011 aplaudiu e apoiou com mais de 90% dos votos um Sócrates pós pedido de assistência financeira, com base numa moção de estratégia coordenada por António Costa e tirando uma evidente opção de aumento do controlo da sociedade pelo Estado, o que diz, do pouco que se percebe, não tem qualquer ligação com a realidade.
No fim, zangam-se porque as pessoas comuns não lhes querem pagar o trabalho e não reconhecem valor nenhum ao que andam a fazer, defendendo que também eles devem ser protegidos pela longa asa do Estado, naturalmente sem explicar que é a essas mulheres e suas famílias que vão tirar recursos para que isso seja possível.
"Assim não vamos lá".
ResponderEliminargreves cujos objectivos ninguém consegue perceber
Os objetivos das greves são simples: aumentos salariais.
E são objetivos normais, quando a inflação deu um enorme salto (fruto das políticas desastradas utilizadas pelos governos europeus, primeiro durante a covid, depois em face da invasão da Ucrânia pela Rússia), que provocou uma grande quebra nos rendimentos da generalidade dos trabalhadores do setor estatal.
(Esta mania da direita de vituperar as greves dos transportes mas de se solidarizar com as greves dos professores, dos médicos e dos enfermeiros é muito irritante.)
Eu acho bem mais irritante que, lendo um texto em que explicitamente se diz o mesmo das greves dos transportes como das dos professores, tu faças um comentário desonesto que implicitamente atribui ao texto em causa posições diferentes em relação às duas greves.
ResponderEliminarEu sei que, formalmente, atribuis isso à direita, e não ao texto que comentas, mas isso faz parte da crescente sonsice dos teus comentários.
ResponderEliminarum texto em que explicitamente se diz o mesmo das greves dos transportes como das dos professores
Peço desculpa, eu somente tinha lido o texto até ao ponto em que fala das greves dos transportes quando fiz o meu comentário.
De qualquer forma, aquilo que escrevi na primeira parte do meu comentário - que as greves têm motivos perfeitamente compreensíveis, em face da inflação que tem comido os salários dos trabalhadores - mantém-se. É, em particular, visível no meu salário, e calculo que também no do Henrique.
Sempre as breves dos mesmos
ResponderEliminarJá fui vezes de mais prejudicado pelas greves, com tanto de absurdo como de injustiça, destes caramelos comunistas da CP.
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ResponderEliminarAssim nunca fomos lá, nem nunca iremos lá.
Há meio século que a Assembleia da República não é o poder Legislativo.
Há meio século que o poder Legislativo e o poder Executivo está na mão de um "comité central".
Ou do PCP (nos primeiros anos de este regime político), ou do PS ou da ex-AD ou do PSD.
Democracia?. Não, partidocracia com tudo o que de mal a concentração do poder político, num qualquer "comité central" de ocasião, arrasta.
Asim nunca iremos lá.
Repugnante o servilismo ( prostituição?...) daquilo que , na paróquia, é tido por "comunicação social"...
ResponderEliminarJuromenha
Portugal dirigido por peronismo sem Perón e Evita ou 50 anos irremediavelmente perdidos.
ResponderEliminarse Vexa trabalha, não parece
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ResponderEliminarHaveria uma forma de o Governo acabar com essas greves: o Medina esquecia essa ideia ridícula de termos défice 0 e dívida 100% do PIB, abria os cordões à bolsa, dava mais salário a esses trabalhadores, e era limpinho, acabavam-se as greves. Se calhar é essa a forma de acabar com as greves que Montenegro planeia utilizar!
É claro, nesse caso Portugal voltaria aos défices, mas qual é o mal, o pessoal está-se todo a marimbar para os défices, o "liberal" Macron vai ter um défice de 4% em 2024, a queridinha Meloni também vai ter 4%, o Biden está com um défice a 7% para poder pagar aos funcionários públicos e aos soldados ucranianos, o maravilhoso Sunak também tem um défice estratosférico, etc etc etc. Tudo gente da melhor, todos com défice, só o atrasado mental do Medina é que tem contas certas! Esperemos que Montenegro altere este estado de coisas e ponha Portugal outra vez a ter défice!
Comentário de quem não passa de um irresponsável, que só pensa no seu bem-estar.
ResponderEliminarPara ter défice é preciso que alguém compre a dívida...
ResponderEliminarO Publico não é feito para as mulheres a dias da aristocracia jornalista. Nem para os portugueses em geral. O Publico é um projecto endogâmico para a classe politica e social a que pertencem ou querem pertencer os jornalistas do Publico.
ResponderEliminarjá ninguém te liga
ResponderEliminarAntes de mais, era preciso saber onde "lá" fica
ResponderEliminarPodes crer. Precisamos é de dívida.
ResponderEliminarSuponho que não entendeu que eu estava a ser irónico...
ResponderEliminarSuponho que não entendeu que eu estava a ser irónico...
ResponderEliminarFaz trabalho de troll a favor da situação regimental. Há bons tachos .
ResponderEliminarPois claro! Tal como Joe Biden endivida (ainda mais) os EUA para poder pagar os salários dos funcionários públicos e dos reformados ucranianos, também o nosso Governo deveria endividar (ainda mais) Portugal para poder pagar mais aos professores, médicos, polícias, enfermeiros, etc etc etc portugueses! Assim é que é! "Contas certas" é slogan de socialistas choninhas! Nós o que queremos são contas erradas!
ResponderEliminarPois, eu duvido é que as contas socialistas estejam "certas"
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ResponderEliminarSim senhor, as universidades americanas é tema que nos interessa muitíssimo!
ResponderEliminarDeve interessar a todos que têm a noção da importância do que sai(ou não) das universidades norte-ameicanas. Aos imbecis em geral e ignorantes crónicos(mesmo que camuflados por alguma capa de presunção "ilustrada") não deve interessar muito.
ResponderEliminarCheck https://observador.pt/programas/contra-corrente/o-wokismo-ameaca-destruir-as-nossas-universidades/
ResponderEliminarpois, pois não... só dizer que tudo o que acontece lá nos states eventualmente chega aqui ao burgo. Demorará o seu tempo, pois a viagem é feita de barco, ecológico, mas chega...
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ResponderEliminaro estado é a pior invenção humana.
ResponderEliminarpolítico a mais velha profissão human
(https://archive.org/download/lanecesidaddeideologiajeanfrancoisrevel/La%20necesidad%20de%20ideolog%C3%ADa%20-%20Jean-Francois%20Revel.pdf)