sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Jornalismo do absurdo

Adenda: Um amigo que conhece bem o processo chamou-me a atenção para uma asneira do post: Isaltino não foi condenado por corrupção, mas por branqueamento de capitais "levou 55 malas de dinheiro para a Suíça (provado e descrito na sentença) mas o Estado não consegue associar isso a corrupção...", explicaram-me, se tivesse sido por corrupção não poderia voltar a exercer cargos no Estado. Fica assinalada a asneira, mas como não altera o essencial da questão ética, não mexo no post.


A propósito da confusão da Madeira, Sónia Sapage assina ontem um editorial no Público muito bom, não pelo que diz sobre o assunto do editorial, mas pelo que diz sobre o jornalismo em Portugal.


Começo por dizer que nestas matérias de demissões políticas por causa de processos judiciais tenho exactamente a posição do Partido Comunista Português, o que assinalo com evidente prazer por ser relativamente raro estar de acordo com este partido (na verdade, em coisas concretas, é menos raro do que parece porque o PC tem ums postura política clássica, até talvez mesmo jurássica, que o faz ter posições bastante sensatas em algumas questões, como barrigas de aluguer, coisas do mundo rural que os wokes insistem em decidir a partir dos seus preconceitos, esse tipo de coisas).


Diz o PC, e bem, que é cada responsável político que tem de avaliar as condições que tem para exercer o cargo, em cada momento, e eu não poderia estar mais de acordo.


Não tenho mesmo paciência para a mistura dos processos judiciais com a conversa da ética: uma coisa é o cumprimento da lei, que é avaliado pela justiça, outra coisa é o padrão ético que as pessoas aceitam que os seus representantes tenham, o que se valida em eleições.


Para deixar claro, Isaltino Morais foi condenado e cumpriu uma pena de prisão por corrupção (não foi indiciado, não foi constituído arguido, foi mesmo julgado e condenado) e isso não o impediu de se candidatar, ganhar as eleições e hoje exercer o mesmo cargo em que terá cometido os crimes pelos quais foi condenado.


Eu tenho uma leitura ética disto, e nunca votaria em Isaltino, Isaltino, e a maioria dos eleitores de Oeiras, têm, legitimamente, um entendimento diferente, não forçosamente da aceitabilidade do padrão ético de Isaltino, mas de que mesmo com um padrão ético que muita gente condena, consideram que não têm melhor opção como presidente de câmara.


A política não é um campeonato de ética, a política é a arte do possível.


Voltemos então ao editorial sobre o jornalismo português que Sónia Sapage escreveu, pensando que estava a escrever sobre "A justiça-espectáculo".


Jornalistas responsáveis, no caso suficientemente responsáveis para ser a editorialista do Público de ontem, acham que perante a quantidade de investigações da justiça ligadas a corrupção na actividade política, o mais importante é fazer comentários depreciativos sobre a justiça em vez de se perguntarem a si próprios, e aos restantes agentes políticos, como é possível que tantos e tão grandes processos duvidosos se passem debaixo do seu nariz, sem que se dê por nada até à entrada da polícia.


Sobre isso eu tenho uma opinião clara, embora não tenha maneira de saber se está certa: isto só é possível com sociedades institucionalmente frágeis, em que o escrutínio, por parte dos adversários, dos eleitores (basta ler os comentários no corta-fitas ao excelente post do Miguel Alçada Baptista de ontem) e dos jornalistas, é muito mau.


Claro que há corrupção em todo o mundo, claro que de vez em quando rebentam escândalos enormes aqui e ali, mas com esta frequência e a este nível do Estado, não me parece que aconteça em países em que as instituições funcionam de forma transparente, em que os mecanismos de controlo são fortes, em que os adversários escrutinam verdadeiramente a acção dos decisores, em que os eleitores realmente consideram a ética de forma mais séria no seu voto e, sobretudo, em que os jornalistas ligam menos ao que diz o governo (e a oposição, é inacreditável a conversa que regularmente Miguel Santos Carrapatoso traz para o Observador sobre o ressentimento entre Montenegro e Passos, em vez de gastar o seu tempo em coisas úteis) e mais ao que faz.


Todo o editorial é um tratado mas escolho apenas um bocadinho, que o post vai longo.


"Trata-se de garantir que não se metem inspectores da Judiciária em aviões da Força Aérea para evitar fugas de informação (como contava o Jornal de Notícias), assegurando, ao mesmo tempo, que os jornalistas do continente chegam a tempo de estar presentes na região durante o desenrolar das buscas de um processo que decorre sob segredo de justiça (como escreveu o director do Jornal da Madeira e não foi desmentido)".


Este parágrafo delirante está a tomar como boa a ideia de que a investigação judicial escolheu aquele dia para fazer buscas porque estariam na Madeira os jornalistas do continente que iam assistir à apresentação dos candidatos da AD, na Madeira, às próximas eleições legislativas.


Comecemos pelo fim: uma opinião delirante foi publicada por alguém, e como não foi desmentida, passou a facto praticamente confirmado. Brilhante como raciocínio jornalístico que pressupõe que a principal actividade das pessoas normais é andar a escrutinar os jornais para desmentirem tudo o que publicam, no caso de não ser verdade. É aos leitores que cabe validar o que os jornalistas publicam (por omissão, também), não é aos jornalistas que cabe apenas publicar coisas minimamente validadas.


Depois uma pergunta que me parece até um bocado ingénua: se os jornais estão todos com a corda na garganta, a que propósito mandam jornalistas do continente para a Madeira para uma apresentação de candidatos dessa região? Qual é a relevância de uma apresentação de cadidatos que justifique essa mobilização de meios? Por que razão não servem os jornalistas da Madeira para cobrir o que se passa na Madeira?


Por fim, a jornalista está a sugerir que seria possível que fossem feitas as buscas que foram feitas, nos sítios em que foram feitas, e tudo ficasse no segredo de justiça, se não houvesse por ali jornalistas do continente, o que levaria a investigação a escolher um dia com mais jornalistas do continente para garantir que toda a gente saberia das buscas?


Isso é o que leio neste editorial e o simples facto de uma editorialista do Público achar normal isto, ao ponto de o escrever num editorial como hipótese plausível, leva-me a considerar este editorial como um notável retrato do jornalismo em Portugal: uma coisa absurda, feita por gente sem qualquer noção da realidade, que vive numa bolha social que a impede de compreender o mundo e escrever para ele.


No fim, queixam-se de não conseguir vender jornais sobre um mundo imaginário, feitos a pensar num mundo de leitores que não existe.

15 comentários:

  1. Não se preocupe. O Pravda Ilhéu é melhor e mais divertido. Sobretudo ler os comentários. 

    ResponderEliminar
  2. O jornal Público não vende grande coisa mas tem lugar garantido nas bibliotecas de Lisboa (fora de Lisboa não sei).

    ResponderEliminar




  3. Mas quem diz ao Henrique que há muita (mais do que noutros países) corrupção em Portugal, e a um nível do Estado mais alto?

    ResponderEliminar

  4. Eu, que sou membro da Iniciativa Liberal, também concordo com muitas posições do Partido Comunista Português.
    Por exemplo, aquela posição em que considerou inadmissível que o Estado soubesse quem era militante de que partido, que o Estado soubesse todos os militantes que cada partido político tem.
    Ou a sua posição contra as restrições pandémicas.
    Ou a sua posição de que aquilo que é importante não é mudar os políticos que estão no poleiro, mas sim mudar as políticas que eles colocam em prática.

    Ou a sua posição a favor da paz na Ucrânia.
    Em muitos casos, tem sido um partido que tem defendido a liberdade (e digo depois do 25 de Abril e em tempos recentes, não no tempo da Outra Senhora), ao contrário de muitos outros partidos.

    ResponderEliminar
  5. O animal feroz está a ser "escalpelizado" no contra-corrente do rádio Observador. 

    ResponderEliminar
  6. sobre   "A justiça-espectáculo"  apetece dizer «

    ResponderEliminar
  7. O "jornalixo" do tempo presente tem um mérito : conferiu,dignidade, comparativamente, `a "mais velha profissão do mundo"....
    câncios, afonsos, sapages, lopes... "und so weiter".... 
    Juromenha

    ResponderEliminar
  8. Declaração de falsa bandeira ... 

    ResponderEliminar
  9. """




    """


    Há os que aprendem com a experiência dos outros, os que aprendem por experiência própria, e os que nem isso.


    (A citação deve ser fácil de verificar na net, é o MEC em Novembro de 2016)

    ResponderEliminar
  10. "Um tratado" é o Público ter sido o único jornal ou site de notícias português que, há três dias, não divulgou a notícia da campanha do Ikea sobre estantes boas para guardar dinheiro vivo, mas hoje dar a notícia de que a "Campanha do IKEA alusiva às buscas em São Bento alvo de queixas na CNE". O HPS tem de pensar seriamente no contributo que dá para o ordenado desta gente.

    ResponderEliminar
  11. Pertencem à mesma classe social-politica-académica.

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...