João Miguel Tavares, de quem gosto e de quem discordo com tanta frequência como concordo, escreve hoje um artigo, no Público, que é mais sobre os jornalistas que sobre os políticos, ao contrário do que sugere o seu título.
Tavares começa por justificar o artigo com os problemas associados com as casas dos políticos, como se alguma vez alguém tivesse discutido de onde veio o dinheiro e de que forma Mário Soares tinha uma casa no Campo Grande, outra em Nafarros e ainda outra no Vau, qualquer delas valendo muito mais que a casa de Montenegro em Espinho, se não me engano.
Depois indigna-se com a indignação que Montenegro terá manifestado em relação a uma notícia de há oito meses do Expresso, dizendo que um candidato a primeiro-ministro não pode reagir assim ao escrutínio jornalístico.
Eu também acho que foi uma reacção tonta, felizmente corrigida nas vezes seguintes em que vários orgãos de comunicação social pegaram no assunto (chegam a referir a pronta colaboração de Montenegro com a investigação jornalística, incluindo cópia da documentação relevante, aspecto que João Miguel Tavares omite), mas isso não me impede de fazer notar que o Expresso, de maneira geral, não faz escrutínio, faz fretes.
Se realmente fizesse escrutínio jornalístico, consideraria imprescindível a identificação das fontes das suas notícias neste tipo de matérias, porque sabe perfeitamente que não é indiferente, para os leitores e para a solidez do escrutínio, que a notícia lhe tenha sido soprada por um adversário de Montenegro ou pela prima do jornalista que por acaso é de Espinho.
O essencial é que João Miguel Tavares acha que Montenegro não respondeu ao que interessa e se limitou a umas habilidades, razão pela qual João Miguel Tavares resolve fazer uma lista de perguntas que acha que devem ser respondidas por Montenegro e que passo a transcrever, comentando, o que fundamenta a minha opinião de que o artigo diz mais sobre a qualidade dos jornalistas que dos políticos.
"Quanto gastou na construção?", pergunta João Miguel, depois de ter descrito uma casa que parece considerar um luxo asiático e que nem jardim tem. Só que a pergunta não tem nada de escrutínio jornalístico, é pura coscuvilhice, se existe alguma discrepâncea entre os rendimentos da família de Montenegro e eventuais sinais exteriores de riqueza, que se investigue, sim senhor, mas saber quanto custou aquela casa, que terá sido cara e é grande, mas está dentro do que cabe nos rendimentos de pessoas com rendimentos compatíveis com as profissões dos donos, repito, é pura coscuvilhice.
"De onde veio o dinheiro?", pergunta depois, como se aquela casa em concreto demonstrasse uma grande discrepância entre os rendimentos de um advogado e político com rendimentos razoáveis. Mas ainda que assim fosse, o que se pretende com esta pergunta? Que se faça uma auditoria a toda a vida financeira de Montenegro, para saber se ao longo das últimas décadas poupou o suficiente para ter uma casa como aquela? Coscuvilhice, camarada, e, já agora, inversão do ónus da prova, porque sem qualquer indício de que há algum problema com a origem do dinheiro para uma grande casa, exige-se que o seu dono demonstre onde foi buscar o dinheiro que a pagou.
Em qualquer caso, até aqui é pura coscuvilhice, mas a coscuvilhice é legítima e há muito jornalismo que vive disso, é uma opção jornalística legítima, o que não vale a pena é chamar-lhe escrutínio, porque não é.
"Se houve favorecimento?" Isso não é uma pergunta, na verdade é a questão central que só se pode saber no fim das respostas a outras perguntas.
"Se faz sentido chamar reabilitação à demolição e reconstrução total de um prédio?". Confesso que foi com esta pergunta que a mostarda me chegou ao nariz e resolvi fazer este post. Fazer esta pergunta a Luís Montenegro não tem o menor sentido. Qualquer jornalista, comentador, ou um pobre homem da Póvoa, pode perguntar ao doutor Google que lhe responde logo, por exemplo, sobre o que em Portugal se chama reabilitação urbana. Mas ainda que as entidades oficiais e a legislação não fossem suficientes para responder, há algum jornalista que tenha problemas em chamar reabilitação urbana à transformação operada pela Expo-98 na zona oriental de Lisboa? Insistir nesta pergunta, e fazer grandes elaborações sobre isto é uma coisa que só demonstra preguiça ou má-fé (nada impede a junção das duas, claro) por parte dos jornalistas.
"Como e quando soube que a ARU iria ser aprovada?" Estamos na mesma. As áreas de reabilitação urbana são decididas pela Assembleia Municipal, por proposta da Câmara Municipal e são sujeitas a discussão pública e João Miguel Tavares acha mesmo relevante saber se Montenegro sabia o mesmo que qualquer munícipe de Espinho? Se realmente os jornalistas se interessam por este assunto, por que razão sugerem que a existência dessa área de reabilitação urbana foi feita para Montenegro (ou que Montenegro, dois anos antes da sua aprovação teria uma informação secreta qualquer sobre o processo), como é que ainda não repararam que Espinho tem onze áreas de reabilitação urbana, abrangendo todo o núcleo central da vila, cidade ou lá o que é, e arredores? Há alguma indicação de que o preço pelo qual comprou a casa ficaria posteriormente inflacionado com a criação da dita área de reabilitação urbana ou que comprou a casa porque ia ter um desconto no IMI ou no IVA das obras, que é aplicável a toda Espinho?
"Porque é que o preço de construção estimado é tão baixo?" Talvez seja, há muito que defendo que, tal como nos Estados Unidos, o preço de venda de casas deveria ser público e acessível dez minutos depois da venda concretizada, mas como não é assim em Portugal, dar-me-ia muito trabalho verificar se assim foi ou não, portanto vamos considerar que faz sentido esta pergunta, mas não compete a Montenegro responder, compete aos jornalistas demonstrar que foi anormalmente baixo.
"E por aí fora", diria também eu, cumprindo o desejo de ano novo de João Miguel Tavares: que a comunicação social seja mais escrutinada.
Espinho é uma cidade já há décadas. E é um dos maiores centros balneares do país, para além de ficar bem perto do Porto; duvido que uma casa em Nafarros ou na praia do Vau possa ter mais valor do que uma casa da mesma dimensão e qualidade em Espinho.
ResponderEliminarJoão Miguel Tavares, JMT, não passa de mais um queque de Lisboa; ou seja, nos tempos que correm, um woke ...
ResponderEliminarEm tempos apreciei a sua forma desassombrada de escrever e comentar a realidade. Mas, com o passar do tempo, reparo que JMT, como tantos outros "jornalistas"(?), se tem vindo a formatar à realidade (afinal um tipo tem de fazer pela vidinha...), estando já ao nível da indigência geral em que vegeta o nacional jornalismo.
Por isso, nada de surpresa neste seu "artigo"(?) sobre a casa de Montenegro.
ResponderEliminar"Se houve favorecimento?" é a questão central
Tanto quanto entendo, não se trata de uma questão de favorecimento e sim de uma questão de fuga ao fisco.
O IVA é cobrado pelo empreiteiro de construção civil consoante a natureza da obra. O empreiteiro tem a obrigação de cobrar o IVA de acordo com a legislação, mas pode não o fazer. Se não o fizer e cobrar um IVA mais baixo do que o legal (6% em vez de 23%), então tanto ele como o cliente estarão a fugir ao fisco.
Ou seja, quem está a incorrer em crime é o empreiteiro e o seu cliente, e não qualquer autoridade do Estado. Porque é o empreiteiro quem emite a fatura e quem coloca nela o IVA que considera devido.
(Há muitas empresas que cobram IVA de forma errada. Eu já uma vez apanhei um banco a cobrar-me imposto de selo - 4% - numa situação em que tinha a obrigação de me cobrar IVA - 23%. Estavam a favorecer-me, não por gostarem de mim, mas por erro - involuntário - deles.)
JMT é mais um que apareceu (tipo Marques Lopes) vindo sabe-se lá de onde, e passou a ter "credibilidade". O percurso faculdade, jornal de referência, ainda vale muito, mesmo sem grande valor acrescentado.
ResponderEliminartal como a «casa da coelha»
ResponderEliminaro «lapis do lopes!» passou a esferográfica
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ResponderEliminaresta choldra jornalística sobrou do «CABARÉ da COXA»
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ResponderEliminarquem está a incorrer em crime é o empreiteiro e o seu cliente
Aliás (corrijo-me), quem está a incorrer em crime fiscal, ao cobrar um IVA inferior ao legal, é o empreiteiro, não o seu cliente. É quem passa a fatura que tem a responsabilidade exclusiva de nela cobrar o valor legal de IVA. O cliente somente tem a obrigação de pagar a fatura; não tem a obrigação de saber se o IVA cobrado é o legal ou não.
(É mais ou menos como quando se vai ao supermercado. É o supermercado quem tem a obrigação de cobrar a taxa de IVA certa sobre cada produto. O cliente somente tem a obrigação de pagar aquilo que lhe é faturado.)
Portanto, se tiver havido fraude fiscal, isso é da responsabilidade do empreiteiro de obras. Nada pode ser assacado a Luís Montenegro.
(Penso eu de que.)
Estamos perante dor de cotovelo. Milhares de casas T2 eT3, em Lisboa e Porto, custam hoje mais de 1 milhão de EUROS e muitos milhares têm prédios a render de 6,7, 8 e 9 andares que custam milhões.
ResponderEliminarIsto mais parece ajustes políticos.
Querem melhor exemplo; COSTA fez negócios no imobiliário que até eu comprava mesmo sem dinheiro. Compra um T1 de luxo por 240.000€.
Medina compra um duplex por menos 200.000€ passados 10 anos.
Perseguem Montenegro branqueando casos mais evidentes.
Sejamos justos.
Eu não voto Montenegro.
Sejamos de facto justos. Estava agora a ver o Monaco Real Estate, e uma coisa com 770 metros quadrados, nem chega a 800, num edifício medonho chamado Palazzo Leonardo, está à venda por 60 milhões de euros. O que é que são 800 metros quadrados de pombal a 300 km de Lisboa, que acima nem conta, comparado com isto? Nada! O homem é um sadu!
ResponderEliminarVotar no dr. Luís Esteves é votar nos liberais/maçonaria, é votar contra a Pátria, o Interesse Nacional, e a República.
ResponderEliminarO Presidente Rui Rio tinha razão.
Então eu vou ao supermercado pago e pronto!... Então não tenho de conferir a fatura para verificar se está tudo correcto??
ResponderEliminarEstou a ouvir a Tsf esta manhã (sobre o caos na saúde e sns,urgências etc) . Grande serviço de jornalismo radiofónico.
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ResponderEliminarnão tenho de conferir a fatura para verificar se está tudo correcto?
Não.
Quero dizer, convem conferi-la, no seu próprio interesse, para verificar se não lhe cobraram a mais. Porém, se a fatura contiver algum erro nas taxas de IVA, você não pode ser acusado de fraude fiscal por esse facto. Quem comete fraude fiscal é quem emite a fatura, não quem a paga.
O problema resume-se à frase o Expresso faz fretes.
ResponderEliminarOs fretes estão na moda e vendem jornais e coscuvilhice a rodos e apanha tudo o que é político e figura pública.
E isto acontece porque é o que a sociedade quer e exige à justiça que aplique rapidamente e exemplarmente penas as estes cidadãos,que considera injustas para si.
E no fim ainda resume tudo a uma frase "É o país que temos" como se não fizessem parte do mesmo país.
Um cidadão que, quando vai ao Pingo Doce, não sai sem verificar se o IVA foi bem calculado sobre os produtos que adquiriu (em especial nos últimos meses, em que temos quatro taxas), é o Cristiano Ronaldo do cumprimento fiscal. Já agora, se o IVA da Sagres estiver calculado 13%, pede ao caixa para corrigir a factura, para poder pagar o que falta?
ResponderEliminar"... Mário Soares tinha uma casa no Campo Grande, outra em Nafarros e ainda outra no Vau...". O que é que isto tem a ver com a casa de Montenegro HOJE?
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ResponderEliminarfaz sentido chamar reabilitação à demolição e reconstrução total de um prédio?
Deve-se ter em conta que estamos a falar em reabilitação urbana, e não em reabilitação de prédios individuais.
Ou seja, aquilo que se pretende é que a cidade fique com bom aspeto. O que interessa é, portanto, que os prédios da cidade tenham todos bom aspeto; não interessa se eles estão muito semelhantes àquilo que estava no local deles há umas dezenas de anos, ou não.
Demolir um prédio nada tem a ver, evidentemente, com reabilitá-lo. Porém, o objetivo do programa não é reabilitar prédios, mas sim reabilitar cidades. Demolir prédios é perfeitamente legítimo no quadro de um tal programa. Por exemplo, no quadro da reabilitação urbana é comum demolir prédios que destoam muito do resto da urbe, por serem demasiadamente altos ou demasiadamente baixos. Foi o que se fez com o prédio Coutinho em Viana do Castelo.
Não falam da verdade, uma coisa é uma construção nova, outra coisa é a reabilitação de um prédio antigo.
ResponderEliminarNasceu um novo prédio, mas foi taxado como se fosse uma reaqualificação, logo devia manter a mesma fachada, o que não aconteceu. Logo as verdadeiras taxas e impostos foram (não entraram nem nos cofres municipais, nem considerados como mais valias "IMI" etc. quem tem amigos!!!!!!!!!!!!, pergunto? ninguém reparou que ali existia afinal um novo prédio?, os serviços Municipais, fiscalização, taxas, nada viram, é de admirar.
Depos a culpa é do Povo, recordando palavras de senhor na Assembleia da República " a culpa é dos grizalhos).É um Pais de espertos, falam em cambater a corrupção, mas despois que palavra é essa.
Tenho uma novidade para si: não é assim.
ResponderEliminarSe tiver dúvidas, vá ler a legislação.
Aqui o problema não é questionar se um cidadão qualquer, usou a Lei para seu beneficio. Estamos a falar de um politico, que quer ser primeiro ministro e usar a Lei a seu favor. E aqui, a meu meu, e verificando todas as circunstâncias, o Dr. Montenegro ao querer usufruir desta Lei, cometeu o chamado " abuso de direito ". Quem quer ser primeiro ministro, não pode usar o " chico espertismo " para proveito próprio, pese embora não esteja a transgredir. Estamos sempre a falar da mulher de César, não é verdade?
ResponderEliminarUm político não pode usar a lei a seu favor, deve ser, portanto, um fora da lei, é isso?
ResponderEliminarClaro que pode. Mas o uso da Lei em certas circunstâncias, por um cidadão comum e um candidato a primeiro ministro, não é igual. E, neste caso, verificando o intervalo da aquisição do prédio, onde a Lei, naquele local, não vigorava e, posteriormente, surge o seu enquadramento, por muito que se queira " cheira muito mal ". E, convenhamos, o Dr. Montenegro não era ( e é ) um politico qualquer em Espinho e toda a gente sabe das suas relações privilegiadas com os autarcas locais. Disso não se livra. Portanto, nestas coisas, repito, tem de ser como a mulher de César.
ResponderEliminarTratou-se apenas e só uma chico espertice que o Montenegro usou como milhares de tugas usam sempre que podem. Duvido que haja alguma ilegalidade pois com certeza que soube "fazer as coisas como devem ser feitas" ficando apenas a imoralidade para lavagem de roupa suja nos tabloides. Temos o exemplo do IMI e imposto de selo da venda das barragens que já ninguem se lembra, onde foram literalmente milhões de euros que deixaram de ser cobrados porque alguem soube contornar a lei de uma forma brilhante. Longe de mim votar em Montenegro mas não tenho moral para apontar o dedo a quem quer que seja, quando vivo num país onde quem não faz por escapar a qualquer pagamento de impostos ainda passa por totó.
ResponderEliminarMeu caro Henrique, não sou propriamente um fã de JMT, discordando na maioria das vezes das suas opiniões, mas após a leitura desta sua "coluna de opinião" não me parece que venha a ser um fã seu, uma vez que, e posso estar errado, me parece um defensor de LM, sem grandes preocupações em explicar porquê. Relativamente a este e outros casos, a primeira coisa que todos os políticos dizem é que vão colaborar com as investigações, sejam elas jornalísticas ou judiciais. Deixem atuar a justiça e depois de apurados todos os fatos e tomadas s decisões
ResponderEliminarPronto tá rxplicado, obrigado e bom 2024
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