João Miguel Tavares faz hoje no Público um erro de análise colossal que vale a pena referir:
"Portugal precisa de tempo para perceber se o PS ainda é um partido minimamente confiável ou se está transformado num antro de corrupção".
Na prática, João Miguel Tavares está a parafrasear a velha ideia de que o comunismo é bom, é um azar que as pessoas que o tenham tentado aplicar não se tenham mantido fiéis à pureza da teoria e tenham cedido às fraquezas humanas.
Alexandre Homem Cristo, no Observador, explica tudo direitinho: "o pântano de António Costa também é ético. Muitos dos desafios que o país enfrenta após 8 anos de governos PS devem-se a opções políticas erradas, seja porque Costa se encostou ao PRR ou porque governou para satisfazer clientelas eleitorais — ou, simplesmente, porque abdicou de liderar reformas para prevenir falhas em áreas-chave. Mas não é possível desvalorizar, afinal, o motivo que levou à inédita demissão de um primeiro-ministro numa maioria absoluta: desde que chegou a São Bento, Costa rodeou-se de activos tóxicos do socratismo, promoveu informalidades entre amigos e negócios do Estado, escolheu para membros do governo quem comprovadamente não tinha perfil para tais funções, recrutou na bolha socialista e desvalorizou as inúmeras ligações familiares da sua rede de poder, achincalhou a dignidade das instituições ao nomear para seu secretário de estado adjunto Miguel Alves, já então arguido, afirmou sistematicamente o seu poder em confronto com as instituições do regime e colonizou o aparelho de Estado — a fidelidade partidária ao PS foi, nestes últimos 8 anos, o melhor CV para aceder a altos cargos dirigentes. António Costa não caiu por causa de um parágrafo de um comunicado da PGR, caiu em virtude da sua falência ética e política".
Cometendo o pecado da auto-citação, essencialmente esta é a ideia deste post que escrevi sobre Sócrates em 30 de Janeiro de 2009, quase há 15 anos (não, não foi depois de ter caído em desgraça, foi no auge do seu poder, sempre tive esta habilidade para fazer amigos): "A Sócrates cabe a responsabilidade de um método de actuação voluntarista, determinado por objectivos pré-definidos mas que desconsidera a forma da decisão e a sua correcção processual. E cabe também a responsabilidade de criar um clima em seu redor que se funda na fiel aplicação da velha máxima: “Se o príncipe não puder ser amado e temido igualmente, é melhor ser temido” e que inegavelmente contamina a cúpula da administração pública. Estas são responsabilidades políticas com virtudes (há quem defenda que só assim é possível fazer reformas em Portugal).
Mas também com fragilidades ao criar uma informalidade de decisão e uma ausência de escrutínio que permite que qualquer escroque que ganhe a confiança de Sócrates use este clima e a falta de rigor nos procedimentos em proveito próprio".
O problema não é o PS, nota-se muito no PS porque o PS governa há quase trinta anos, com alguns intervalos impostos por entidades externas de quem dependemos financeiramente (a velha aplicação da máxima de Thatcher, que o socialismo se acaba quando acaba o dinheiro dos outros, com a variante de em Portugal nunca se acabar, interrompe-se até se conseguir convencer os outros de que aprendemos a lição), mas com as regras de escolha política que existem e modelos de escrutínio como os que temos, a ocupação do poder por outro partido qualquer, desde que num tempo suficientemente longo, resultaria em pântanos semelhantes.
Se dúvidas houvesse, olhemos para o fim do cavaquismo e pensemos no que teria acontecido se o poder não tivesse mudade de mãos em 1995, continuando o PSD no poder por mais vinte anos.
A verdade é que estamos encurralados porque para mudar era preciso mudar as regras e para mudar as regras era preciso que o poder fosse exercido por extraterrestres disponíveis para mudar as regras em que se baseia o seu poder.
A única saída que talvez funcione é uma espécie de trotskismo parlamentar que substituísse a revolução permanente pela instabilidade permanente.
A estabilidade das águas paradas gera mais putrefacção que renovação.
ResponderEliminarA verdade é que estamos encurralados
Pois, essa é que é a verdade.
A única alternativa ao atual modelo de poder - PS com maioria absoluta - é um modelo a meu ver ainda pior - PS em coligação com BE e/ou PCP.
Não há qualquer perspetiva, de acordo com as sondagens, de a "direita" poder agora alcançar o poder, pelo que só restam aquelas duas alternativas.
(Uma hipótese seria o PS perder a maioria absoluta mas perfazê-la em aliança com o Livre e/ou o PAN. Isso melhoraria um pouco as coisas - mas é uma possibilidade muito remota.)
Quem ouviu/ouvia o sr Tavares(João Miguel) no Governo Sombra da rádio já sabe o que se pode esperar de tal figura.
ResponderEliminarJMT, está a ver para onde cai a "situação" ...
ResponderEliminarParabéns pelo texto, uma boa análise como sempre faz.
ResponderEliminarVou apenas destacar (pela negativa), dois aspetos que considerei redundâncias desnecessárias:
Peço desculpa Henrique, mas só agora verifiquei que a primeira redundância que apontei no seu texto, refere-se a um trecho de um artigo do
ResponderEliminarEstá reunido o Conselho de Estado
ResponderEliminarhttps://oplanetadosmacacospoliticos.blogs.sapo.pt/esta-reunido-o-conselho-de-estado-desta-64358
Caríssimo é bem verdade o que diz. O controlo é absoluto e de tal ordem que tenho dúvidas se será possível mudar alguma coisa.
ResponderEliminarÉ tão verdade que um familiar próximo, especialista, com uma cabeça excepcional, íntegro, trabalhador incansável, foi preterido num cargo para direcção por alguém com um terço do tempo de trabalho. Pois, não tem cartão, e é independente.
ResponderEliminarAceite os meus parabéns. Sem analizarmos o âmago da questão -poder político- nunca se corrigirá o erro.
Em Portugal o problema não é o formato do entregar poder político (via um qualquer sistema de votação).
O problema é o formato do (controlar e) retirar poder político.
Comparemos os sistema de entrega, e sobretudo de permanência no poder político -Legislativo e Executivo- entre Portugal e o Reino Unido.
Em Portugal o partido, ou coligação vencedora, tem mãos livres durante 4 anos, para fazer às claras ou subrepticiamente tudo o que quizer. O poder Legislativo/Executivo está incontrolado pelo eleitor, constitucional, na mão de um só "eleito".
No Reino Unido 650 eleitos em nome próprio esgrimem entre si decisões políticas inclusivé a escolha - e sobretudo a destituição- do Primeiro Ministro. Este sabe-o, os eleitores sabem-no. A experiência mostra a eficácia do sistema.
Por cá o Presidente da República -um limitado, necessário, contra-poder, anti-abusos- é eleito nominalmente.
Mas, como se constata, muda-se um PM, mas as mesmas incontroláveis máquinas políticas perduram, incólumes....
ResponderEliminarOutra diferenciazinha entre a prática política em Portugal e no Reino Unido.
No R. U. os eleitos nominalmente deputados com todo o seu direito destituiem um PM e este deixa automaticamente de ser o Executivo. Elegem rapidamente outro -com a Raínha a confirmar e tudo mais- numa semana.
Por cá um PM fia tudo muito mais fino. O PM que até já não quer ser PM, continuar a ser PM. Apresentou a sua demissão mas continua a ser PM, Executivo, durante meio ano!. Pobre homem. E irá tentar aprovar um, o seu, Orçamento de Estado!. Orçamento de Estado que nem quer conceber nem executar, mas que o próximo PM -que nem sequer ainda está no filme- será obrigado a executar!. Huau! Linda Constituição. Não admira tanta sucesso na governação. Afinal é a força, não é?.
Ps. Afinal os portuguêses têm que votar em quê, em quem?.
Muitos elogiam o inquilino de Belém por decidir o óbvio(dissolução do parlamento) , não referindo aquilo que devia ter dito e não disse(para não incomodar o ps ?) e não referindo o conteúdo bajulador das palavras para o inquilino de S.bento demissionário como se fosse uma normal saída do governo(no qual aliás parece continuar Galamba) .
ResponderEliminarOs pasteis parece que estavam bons já o discurso às 20h estava um bocado estragado.
ResponderEliminarA situação ou o Estado a que chegámos?
ResponderEliminarE têm 3/4 meses para reorganizar a famiglia e voltar à carga . Com o beneplácito do sr de Belém.
ResponderEliminarE um orçamento apresentado(além do resto) pelo Galamba das pizzas e da marijoana.
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